segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Terror em Bom Retiro: Prólogo



PRÓLOGO
Nódoas do Passado

O sol já raiava alto quando Hugo abriu os olhos. Para uma segunda-feira, aquele não parecia ser um horário no qual um supostamente atarefado funcionário do Diário Fluminense deveria estar acordando - e a bela adormecida sabia disso. A lancinante dor de cabeça que o afligia e a nódoa de vômito seco ao seu lado, em uma brilhante parceira com o nauseante cheiro de nicotina no ar, logo trataram de recordar-lhe o motivo do atraso: a inconsequente noitada da última noite. Ao tentar se erguer, logo constatou que dormir no chão frio e duro de seu apertado banheiro não fora uma ideia muito sábia, mas se deu uma trégua assim que percebeu que não conseguia se lembrar de como havia chegado até ali - o que lhe pareceu justificativa suficiente para a escolha ruim. Hugo só sabia que havia saído para beber com alguns amigos e que havia comido alguns camarões - o vômito ajudou nessa parte.

- Eu fiz de novo. - lamentou, olhando seu reflexo abatido no pequeno espelho. - Se eu continuar com isso, não irá demorar até que a justa causa mostre as garras. - o vislumbre da solitária aspirina no balcão da pia serviu-lhe como um feixe de esperança ao qual se agarrar.

Com o aroma pungente de seu corpo aconselhando-o a se lavar, Hugo prontamente tirou suas roupas e foi de encontro ao chuveiro. Lutava ferrenhamente contra a tontura e a azia quando as gotículas de água gelada mergulharam-no num refúgio revigorante. Havia caído de paraquedas nesse mundo decadente assim que sua esposa sucumbira a um acidente de trânsito - um grande choque que o deixou desnorteado. Estavam casados há não mais que dois anos quando aconteceu. Sonhavam com bebês e planejavam a casa perfeita. Passeavam pelas areias de Copacabana, envoltos pela melodia de Tom Jobim. Admiravam a vista da Baía, enrubescida pelo toque do pôr do sol. Desejaram-se. Perdidamente. Amaram-se. Profundamente. Separaram-se. Amargamente. A água que escorria por seu rosto durante aquele banho disfarçava o desamparado lacrimejar que as tristes lembranças inevitavelmente provocavam.

Já passava do meio-dia, portanto precisava se apressar caso ainda quisesse dar as caras no escritório. Correndo desesperadamente, zuniu pelo apartamento à procura de seu terno, o qual achou imprudentemente jogado no sofá de sua também apertada sala de estar.

- Merda! - bateu o pé contra o assoalho, como se o pobre pavimento fosse culpado por seus infortúnios. - Todo amarrotado.

Ficou ali parado por alguns segundos, sem reação. O outro único terno que possuía estava sob os cuidados dos simpáticos funcionários da lavanderia que frequentava. Hugo estava tão afoito, que não sabia o que fazer diante daquele contratempo; sua persistente enxaqueca em nada colaborava. Regido pelo tique-taque do antigo relógio de madeira na parede, ele decidiu que, em virtude dos acontecimentos marcantes da última noite, iria em trajes mais casuais, a fim de "arejar" um pouco.

- Então nada de terno hoje. No máximo um casual chique. É, soa bem. - argumentou, tentando convencer a si mesmo da credibilidade de sua ideia.

Seu melhor jeans e a camisa social branca que nunca antes usara pareciam encaixar no padrão que procurava. Recolheu sua pasta, deu uma desleixada atenção à sua aparência e então correu porta a fora, deixando intactas as provas de sua farra noturna. Ter escolhido morar num prédio a cerca de vinte minutos do trabalho fora uma de suas decisões das quais nunca se arrependeu. Ter adquirido um carro fora outra.

Ao entrar no escritório deparou-se com os olhares incriminadores de seus colegas, examinando-o de cima a baixo. Hugo sabia que a combinação de atraso, incúria e descaso com a rígida etiqueta de Otávio Oliveira causaria reprovação geral, mas preferiu definir aqueles olhares como uma manifestação física da inveja ocasionada pelo intrínseco destaque de suas roupas destoantes. Para ele, um pouco de otimismo caía bem com uma Tommy Hilfiger legítima.

- Está atrasado. Muito atrasado. - constatou a senhora de óculos grossos na recepção.

- Bom dia, Marta. - disse, forçando um sorriso.

- Não seria "boa tarde"? - insinuou, fitando-o com o mesmo olhar incriminador já famoso no escritório. - Já viu a hora?

- Eu sei, eu sei. Tive alguns problemas. - a atenção de Hugo estava voltada para o pequeno pêndulo de Newton ao lado do computador. Encarar Marta não lhe pareceu uma boa ideia.

- Perdeu seu terno? - achincalhou, examinando suas roupas com desaprovação. - Você sabe mais do que ninguém o quão rígido o patrão é quando se trata de etiqueta. Caramba, se não quisesse trabalhar de terno, deveria ter escolhido qualquer outro escritório de jornalismo no estado. Só o Sr. Oliveira faz tal tipo de exigência.

- Está tudo bem, Marta. Eu falo com ele. - disse, dando-lhe sinal para que se acalmasse. - Realmente não tive outra escolha.

- Bem, então serão dois coelhos com uma cajadada só. O Sr. Oliveira pediu para avisar que queria vê-lo em sua sala assim que chegasse. - anunciou, dando uma pequena pausa para mais uma vez examinar Hugo. - Boa sorte. - desejou, com um quê de preocupação envolvendo seu semblante.

- Precisarei de sorte? - perguntou, inclinando-se sobre o balcão da recepção em busca de informações extras, mas como reposta somente obteve um "vai logo", dito através de um lábio cerrado e um balanço de cabeça recheado de autoridade.

Hugo entendeu o recado: era algo importante. Talvez fosse chegada a hora de colher a demissão que tão promiscuamente plantara. Seu otimismo de fachada foi então logo substituído por uma certeza de que aquele dia não podia piorar - certeza essa que foi logo descartada quando percebera que justo naquela segunda-feira situava-se o prazo final para entrega do artigo sobre o campeonato estadual. Preparando-se psicologicamente, foi em direção a porta de madeira italiana ao fundo do escritório. Não podia afirmar com precisão, mas sentiu como se os olhares incriminadores que o seguiam por sua via sacra houvessem se tornado olhares de comiseração.

- Sr. Oliveira? É Hugo Krause. - anunciou, dando três leves batidas na porta, ao passo que era intimidado pela placa em ouro puro ostentada na parede, com o nome e o cargo de seu carrasco.

- Entre. - uma voz grave e monocórdica ressoou desde dentro.

O homem que o aguardava impaciente à sua frente era velho e corpulento, mas deveras refinado. Sua requintada sala ajudava a aumentar sua pompa, dados os luxuosos ornamentos, como os quadros cubistas nas paredes e a tapeçaria persa ao chão. Recostado em sua poltrona, o aparatoso Sr. Oliveira observava consternado a aproximação de seu convidado. Não parecia ter notado as roupas nada adequadas para seu característico gosto, nem ao menos se mostrou queixoso quanto ao atraso de Hugo.

- Sente-se por favor. - pediu, estendendo a mão em direção à uma poltrona próxima.

- Algum problema, senhor Oliveira? - perguntou, irresoluto.

- O que está acontecendo contigo, meu filho? - o corpo avantajado do diretor executivo do Diário Fluminense deixou seu confortável encosto e foi em direção à mesa procurar onde se apoiar com o inquieto cotovelo direito. - Por que não me conta? Saiba que não estou aqui como seu patrão, mas sim como seu amigo. - seu queixo logo aconchegou-se em sua mão erguida.

- Desculpe-me, mas não estou entendendo. - Hugo não conseguiu assimilar as preocupações de seu superior. - O senhor fala dos artigos atrasados? Eu tive alguns problemas na última semana; expliquei-lhe isso na última quinta-feira. Realmente sinto muito pelo erro. Prometo compensar na próxima rodada do estadual. - justificou, enquanto se esforçava para lembrar de algo mais que possa ter feito de errado. - Quanto as roupas...

- Não falo dos artigos, nem das roupas; falo de você. - interrompeu num tom de voz imponente e objetivo. - Chegando cada vez mais atrasado ao escritório. Desdenhando de suas responsabilidades. Sempre com esse olhar vazio e cansado. Parece que passou a noite inteira enchendo a cara. - seu corpo voltou ao conforto da poltrona de couro envelhecido. - Além do cigarro, temo que esteja usando algum outro tipo de droga. Não estou mais te reconhecendo, Hugo. Onde está aquele homem que uma vez chamei de genro? Aquele homem a quem um dia disse que poderia contar comigo para o quer que ele precisasse? A Isabela ter nos deixado não muda nada. Ainda me preocupo com você, considero-o um filho. Então, por favor, seja honesto comigo. - sua voz tornara-se surpreendentemente afetuosa.

- Senhor Oliveira, eu sei que tenho deixado a desejar em alguns aspectos do meu trabalho, mas isso é algo temporário. Não passa de uma fase. - Hugo se esforçava para criar essa ilusão de bem-estar para si mesmo. Preferia não ter que encarar a realidade. - A morte da Isabela realmente foi um momento difícil na minha vida, mas estou dando o meu melhor para conviver com isso. - estremeceu. - O meu melhor.

- Há dois anos que ouço isso, Hugo. Há dois longos anos! - uma veia pulsou no pescoço de Oliveira; sua insatisfação com a resposta de Hugo era visível. - E ultimamente você tem piorado numa velocidade que... Deus! Você precisa superar isso! - exclamou, indignado. - Darei-te férias. - disse, após uma pequena pausa para retomada de fôlego.

- Férias? Senhor, eu preciso trabalhar! - não acreditava no que acabara de ouvir. - Esse emprego é minha vida. Sinto-me bem quando estou aqui. Com os outros. No escritório! Desculpe-me, mas... Não posso aceitar isso.

- Não estou pedindo sua opinião, Hugo. - esclareceu, erguendo a cabeça e gesticulando negativamente. - Você terá férias, querendo ou não. Caso contrário, sinta-se livre para pegar suas coisas e passar no RH. - ameaçou.

- Mas isso... - ponderou, desiludido.

- Tenho uma pequena propriedade num local tranquilo e isolado. Um pacato e quieto bairro em São Gonçalo. Será perfeito para você. Vá para lá e descanse, certo? - sua fisionomia revelou-se mais compassiva. - Tente também se divertir um pouco, criar algum hobbie, conhecer pessoas, não sei... Só saia desse poço no qual se enfiou. Ah, e mantenha-se longe do álcool. Estamos entendidos? Faço isso por que me preocupo, Hugo. - recordou-lhe.

- Farei como o senhor desejar. - concordou, diante da impossibilidade de seguir um caminho alternativo.

- Vá. - ordenou, gesticulando para que saísse de sua sala. - Marta lhe passará os detalhes.

Ao sair de lá, ele prontamente procurou uma parede distante dos olhos perseguidores e inclinou-se contra ela. Precisava de um tempo para refletir, pensar sobre a vida que estava levando. Hugo sabia que o pai de sua falecida esposa nutria um imenso apreço por ele e que havia razão em sua admoestação, mas, por motivos que nem mesmo sabia explicar, preferia manter suas próprias convicções insensatas. O único contraponto era que agora não tinha escolha; precisava seguir a vontade de Oliveira ou seria finalmente demitido. Diante disso, foi em direção à recepção enfrentar seu destino.

- Anime-se, Hugo. Isso é para o seu bem. - suplicou Marta, segurando-lhe a mão com ternura.

- Como vão as crianças? - perguntou, tentando desvencilhar-se do assunto e das mãos inconvenientes.

- Vão muito bem. Obrigada por perguntar. - respondeu, decepcionada com a atitude de Hugo. - Filipe está indo muito bem em seu curso de pedagogia. Fechou o semestre como primeiro da turma, acredita? Quem diria que aquele molequinho travesso se tornaria um jovem tão dedicado e estudioso. Lembro como se fosse ontem das vezes em que ele fingia ir para escola, mas na realidade ia jogar futebol com os amigos no campinho. É até irônico ele ter escolhido cursar justo pedagogia, não acha? - seus olhos brilhavam de orgulho. Hugo sabia que os filhos eram o ponto fraco dela, então usou isso como forma de desviar sua atenção.

- Com toda certeza. E Sara? Como anda minha menina? - insistiu no assunto, demonstrando cínico interesse.

- Decidiu que quer ter aulas de oboé. Eu nem sequer fazia ideia do que era um oboé. - respondeu, toda sorridente.

- Oboé? Ela nunca muda. - esboçou uma risada que mais parecia uma cacarejo. - Sempre com ideias malucas na cabeça.

- Acho que eu sei o que está acontecendo aqui. - erguendo a cabeça com um ar ofendido, Marta demonstrou ter percebido a dissimulação na fala de Hugo. - Você está sendo evasivo.

- Culpado. - admitiu, exibindo um sonso sorriso.

- Eis as chaves do sítio. O endereço está aqui nesse papel. - disse, séria, estendendo os itens até as mãos suadas de seu embuçado colega. - Parece que o nome do lugar é Jardim Bom Retiro. Bastante sugestivo, se me permite dizer. Ouvi dizer que é um lugar ótimo para relaxar; é longe de tudo e de todos. Nada da barulheira da cidade grande. - acrescentou, falando mecanicamente.

- Por quanto tempo terei de ficar no ócio? - questionou, imerso em suas verdadeiras emoções.

- Não fale assim. Ninguém diz, mas todos aqui estão preocupados contigo. - confessou. - Sejamos sinceros: Hugo, seu estado é lastimável.

- Disseram-me isso algumas vezes hoje. - sua irritação foi tornando-se mais evidente.

- E com razão. - afirmou, duramente. - São trinta dias de férias. - disse, enfatizando a última palavra. - Aproveite bem. Queria eu ter uma oportunidade dessas.

- Pode deixar. - disse, com a língua salpicada de descaso.

- Oh, já ia me esquecendo! Aqui está uma pequena lembrancinha, em nome de todo escritório. - o sorriso voltou ao rosto sardento de Marta.

- O que é? - inquiriu.

- Abra e descubra.

- Uma câmera? - perguntou, estupefato, após abrir e verificar a embalagem contendo uma EOS Rebel novinha.

- Sim, uma câmera. - ratificou. - Lembro-me que adorava tirar fotografias. Talvez deva voltar com seu antigo hobbie.

- Fazia isso a trabalho, não por hobbie. - esclareceu. - Pus a câmera de lado no momento em que dar cliques deixou de ser o bastante para ter uma vida, no mínimo, confortável. Isso é uma atividade do passado, sendo assim deve permanecer no passado.

- Não tente me enganar. - seus olhos verdes arderam intensos por de trás das lentes. - Você podia não ser tão bem sucedido como fotógrafo, mas realmente gostava daquilo. Clicar era a sua vida. Investigar era sua essência. "Correr atrás da notícia", não era assim que você descrevia? Isabela amava isso. Você só não quer trazer as lembranças à tona. - sua fala não parecia causar efeito em Hugo, até que mencionou a finada.

- Talvez. - franziu o cenho e inspirou ar suficiente para que seu peito estufasse contra a camisa, acabando por desabotoar-lhe a gola.

- Aceite o presente. Por ela. - Marta se esforçou para ser o mais empática possível.

- Obrigado, Marta. - agradeceu, dessa vez com um sorriso sincero no rosto.

- Tenha uma boa viagem. - anelou, precupada com seu imprudente amigo.

- "Anime-se, Hugo"."Tenha uma boa viagem".- desejou a si mesmo, em pensamento, repetindo as aprazíveis palavras de Marta.

Dando um último e melancólico suspiro, Hugo saiu pela mesma porta que chegara, atraindo para si todos os olhares auspiciosos daqueles homens e mulheres no escritório de jornalismo do Diário Fluminense.

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