terça-feira, 13 de setembro de 2016

O Cavaleiro Vingador: Velhos Fantasmas #2

Cavalgando por mais de uma hora, Ledier viu-se diante de um grande portão de ferro, bastante marcado pelo tempo. Uma camada esverdeada de musgo e vinhas ocultava algumas antigas inscrições em élfico, que, após uma inspeção mais atenta, revelaram significar "Floresta Verdejante de Elnos": esse era um sinal de que ele acabara de chegar à fronteira do território dos elfos. Ao atravessar o portão, desceu de seu cavalo e seguiu a pé, segurando mansamente as rédeas do animal. Estava preocupado com o horário, já bastante avançado; não era uma ideia muito sábia vagar pela floresta à noite. A luz vivaz da lua revelava uma pequena trilha floresta adentro, a qual o cavaleiro de Pelor seguiu por alguns minutos, até chegar à beira de um lago. Seu corcel tinha sede, assim como ele.

Após dessedentar, amarrou o animal em uma árvore e deu-lhe a devida atenção. Escovou sua crina e apresentou-lhe o pasto. Era trabalhoso cuidar diariamente dele sem a ajuda de um escudeiro, mas Ledier preferia assim.

- Ao meu lado, somente Pelor cavalga. - pensou.

Uma amoreira próxima logo se mostrou deveras convidativa, após um barulho grave vindo de seu estômago anunciar as angústias da fome. Recolheu algumas frutinhas e tirou de sua trouxa duras tiras de carne seca - àquela altura, um aprazível banquete. Afligido pelos mosquitos e pelo vento gélido vindo do oeste, acendeu uma fogueira e procurou abrigo em seu calor. O saco de dormir foi estendido ali mesmo, sem maiores preocupações com a segurança. Tendo Ledier conhecimento das constantes patrulhas conduzidas pelos meticulosos elfos de Elnos e de seu característico sono leve, não se deixou enfadar com a possibilidade de surpresas noturnas.

Pelo meio da madrugada, ouviu um barulho estranho vindo da mata. Levantou-se prontamente e, num reflexo de seu preparo, sacou sua espada estrategicamente posicionada próxima a seu leito. A fogueira já havia se tornado um punhado de brasas incandescentes quando resolvera ir até seu recém-chegado convidado dar-lhe as boas vindas com aço. Caminhando o mais furtivamente possível, ele logo encontrou, numa moita que curiosamente se movia, a fonte do som que o acordara. Aproximando-se em guarda, logo avistou por entre os ramos um rosto irritantemente familiar.

- Eu não acredito que seja você novamente! - grunhiu. - Qual o seu problema, moleque? Já lhe disse que não pode me acompanhar. É surdo ou tem retardo? - Ledier abaixou sua lâmina e fez uma expressão de profundo descontentamento. Não estava nada jubiloso com a chegada do rapaz.

- Oh, meu senhor! Que surpresa agradável! - exclamou, num tom de voz petulantemente cínico.

Ledier deu as costas para ele e voltou para seu  acampamento improvisado, murmurando em protesto. O jovem perseguidor, numa demonstração de audácia, sentou-se perto das brasas e, usando alguns gravetos como combustível, reacendeu a fogueira. Pondo-se a tagarelar como um papagaio, ele tentou iniciar um diálogo com seu salvador. Ledier teve de reunir muita força de vontade para não usar de violência contra o linguarudo inconsequente. Recitando em voz baixa seus votos sagrados, deitou-se em seu saco de dormir e fechou os olhos.

- Talvez seja só um sonho de mau gosto. - considerou, em pensamento.

Quando o rapaz parou repentinamente de falar, Ledier se lembrou de um pequeno detalhe que havia ignorado: sua presença ali era aceitável, dada sua linhagem, mas a de seu novo colega, não. Ao abrir os olhos, encontrou-se cercado por elfos. Cinco deles em cima das árvores, com flechas ameaçadoramente apontadas para o  rapaz. Os outros revelaram-se como sombras humanoides por entre os troncos.

- Conhece esse homem, Ledier Domeni, filho de Frostborn, neto de Orghot? - interpelou o elfo, falando em seu idioma nativo, enquanto gesticulava com a seta afiada.

Aquela parecia ser uma boa oportunidade para ele se livrar do inconveniente homem com hematomas e roupas rasgadas que o atormentava, porém o paladino foi tomado por  uma inesperada onda de compaixão ao ver o  desespero no olhar do rapaz. Havia ali um brilho que lhe era familiar. Um que já presenciara antes, quando seus pais estavam prestes a terem suas vidas ceifadas.

- Sim, ele está comigo. Não se preocupe, patrulheiro. - respondeu, em élfico, enquanto saudava aqueles seres magicamente belos da floresta.

Foi notório o suspiro de alívio do rapaz ao ver a intervenção de Ledier e o posterior abaixar dos arcos. Mais uma vez havia sido salvo.

- Ah, eu sabia! - comemorou, enquanto observava os elfos desaparecem sorrateiramente por entre a vegetação. - Eu sabia que não ia deixar aquelas gazelas  saltitantes me fazerem mal. - acrescentou, sendo logo surpreendido por uma flecha que violentamente atingiu a fogueira a sua frente, levantando centelhas escarlates das brasas.

- Eles ainda estão aqui, seu tolo. E entendem o que você diz. - alertou, enquanto se questionava se havia realmente sido uma boa ideia salvá-lo. - Agora deite-se em algum lugar e durma. Mas faça isso antes que eu me arrependa de tê-lo salvo. Pela segunda vez! - fez questão de recordar-lhe.

Quando o sol ameno e o canto dos pássaros denunciaram que já era manhã, Ledier se levantou e viu que a sua frente havia um pequeno banquete de frutas - um mais agradável aos olhos do que o "banquete" da noite anterior. Haviam diversos tipos de frutas; desde as já experimentadas amoras, até figos e maçãs de aparência apetitosa.

- Bom dia, meu lorde. Tomei a liberdade de preparar um pequeno desjejum para o senhor. Espero que goste. - disse, enquanto se aproximava com duas cumbucas cheias de água. - Ah, e já tratei de seu cavalo.

- Comeu esterco? - indagou, para espanto do rapaz. - Eu não sou um lorde: que isso fique bem claro. E não pense que agrados irão me fazer mudar de ideia quanto a deixar você me seguir por aí. Vou deixá-lo em Caradór. De lá seguirei meu caminho, e você, pela graça de Pelor, seguirá o seu. - sua voz era de um timbre bastante rígido. - A propósito, largue isso e se apronte. Não quero perder tempo algum, pois pretendo me livrar de você ainda hoje.

Ledier colocou algumas frutas em sua bolsa, encheu o cantil de água e recolheu suas coisas. Logo depois, partiu seguindo a trilha do lago, enquanto acossado pelo enérgico jovem.

- Qual é seu nome? - o cavaleiro desatento logo deu-se conta de que ainda não havia feito uma pergunta tão básica.

- Não tenho nome, meu senhor. - respondeu, mostrando-se cabisbaixo.

- Todos temos um nome. - argumentou.

- Eu não, meu senhor. - lamentou. - Fui encontrado ainda recém-nascido num estábulo da cidade. Fui criado por um fazendeiro e sua esposa megera, que sempre faziam questão de deixar bem claro que eu não passava de uma  ferramenta de trabalho.

- Mas quando precisavam de você, tinham de usar algum nome, não? Um apelido, talvez.

- Sim, meu senhor. Eles certamente usavam. Os mais recorrentes eram: imprestável, lixo e escória. - respondeu, chutando o ar sempre que mencionava um dos cruéis adjetivos. - Ah, e não podemos esquecer do "energúmeno". Minha senhora possuía um apreço muito grande por esse.

- Precisamos de um nome de verdade para  você então. - declarou, tentando animá-lo. - O que acha de Siburtisom? Creio que seja adequado.

- Siburtisom? Nesse caso, prefiro continuar com o "energúmeno", meu senhor. - rejeitou, com uma expressão de assombro no rosto.

- Como é possível não gostar de "Siburtisom"? - perguntou, sem obter resposta. - Então... O que  acha de Garet? Não há como você dizer que é um nome ruim.

O olhar de desaprovação no rosto do rapaz deixou claro que ele não queria passar o resto de sua vida sendo chamado de Garet. Após pensar um pouco, ele sozinho encontrou um que julgou adequado.

- Pelaios. - bradou. - Pelaios, com toda certeza é  um bom nome. No mínimo é melhor que "Siburtisom" - zombou, gargalhando em seguida.

- Está certo. - Ledier não se mostrou ofendido com a brincadeira. - Daqui em diante irei chamá-lo de Pelaios.

- Muito me alegra, senhor.

Os dois seguiram por algumas horas em uma trilha floresta adentro. Ledier imponente em seu cavalo e Pelaios arrastando-se a pé. O clima estava bastante agradável. A brisa suave de outono lhes dava um delicado toque, enquanto trabalhava em harmonia com os pássaros para criar uma sinfonia natural pelas árvores. Até então, era de fato um dia tranquilo. Após meio dia de viagem, escapuliram da floresta de Elnos e o do olhar oculto, mas sempre presente dos vigilantes elfos. A planície irregular e pedregosa na qual agora se encontravam fora o palco para a mudança do clima, dado o cair da tarde. As nuvens, antes volumosas, mas alvas, agora estavam enegrecidas e pesadas. Uma tempestade se aproximava.

- Falta muito para chegarmos à Caradór, meu senhor? - perguntou Pelaios, preocupado.

- Faltam algumas poucas léguas. Se apressarmos o passo, é provável que cheguemos antes da chuva. - respondeu, com o olhar focado no horizonte à sua frente.

Para surpresa de Ledier, não demorou nem mria hora para que a chuva começasse a cair. A princípio fraca e ritmada, logo transformou-se num carnaval de trovões e relâmpagos. A impiedosa e torrencial tempestade havia feito sua entrada. Apressando ainda mais a sua movimentação, foram açoitados pela chuva até chegarem em um caudaloso rio de águas revoltas e turvas. A correnteza estava inexoravelmente forte e a ponte de madeira que ligava uma margem à outra estava destruída. Não havia como atravessar o curso de água de forma segura.

- E agora, meu senhor? O que faremos? - Pelaios começara a ficar bastante apreensivo. - Oh, veja  ali! Logo naquela direção. - seu dedo apontava para uma pequena caverna ao norte. O clarão dos relâmpagos tratou de deixá-la visível àquela distância. - Podemos ficar ali até a tempestade se acalmar. - sugeriu.

- Negativo. Trolls caminham por estas terras, temos que sair daqui o quanto antes. - esclareceu. - Aqui não é seguro como Elnos.

- Mas o que faremos então, senhor? - questionou, ficando mais aflito a cada trovoada. - A travessia é impossível. Existe algum outro  caminho até Caradór?

- Sim, existe. Entretanto, jogar-se no rio para tentar atravessar a correnteza talvez seja algo mais sensato a se fazer do que vagar pela Ravina dos Ventos Sombrios. - ponderou, seriamente.

- E por que isso, meu senhor? - a curiosidade tomou conta do encharcado Pelaios.

- Se formos por lá não chegaremos a Caradór hoje e, além do mais, aquele lugar esconde grandes perigos. - disse, tentando pensar em uma alternativa viável.

Quando ouviu ao longe, disfarçado pelo som dos trovões e o clamor das fortes águas do rio, um forte urro, soube que não podia ficar mais nem um segundo sequer ali. Ledier então pediu que Pelaios subisse em seu cavalo e, num galope desajeitado, os dois então prosseguiram em  direção à Ravina.

Depois de algum tempo, ouviram um tenebroso uivo logo a diante: era a Ravina dos Ventos Sombrios. O vento, ao passar pelos paredões inomináveis, fazia um peculiar som, que era capaz de gelar o coração de qualquer pessoa ousada o suficiente para tentar a travessia.

- Desça. - ordenou Ledier. - Precisamos seguir a pé agora.

- Compreendo. - disse, enquanto descia.

- Não podemos continuar com o cavalo, infelizmente. - suspirou, enquanto desprendia seu equipamento da sela do animal.

- Mas por que temos de abandoná-lo? - perguntou Pelaios, confuso e com uma pontada de dó do pobre corcel.

- Ele é um bom cavalo. Sem dúvida alguma é. Irá encontrar o caminho até Galbatroh. - afirmou, com orgulho, dando em seguida um comando para que o animal seguisse seu próprio caminho. - Eu não planejava passar por este lugar traiçoeiro, rapaz. Ninguém com amor à vida passa por aqui. Mas, da mesma forma, ninguém com amor à vida ficaria lá para ser atacado por um bando selvagem de trolls. O que fiz foi colocar as medidas na balança para assim decidir o que era mais sensato. Aqui na Ravina também estamos correndo sério risco. Se formos silenciosos e tivermos cuidado, poderemos nos safar dessa sem maiores complicações. - explicou Ledier, enquanto conduzia Pelaios até um abrigo esculpido na face da rocha.

- Disse que estamos em perigo aqui, mas não  explicou que perigo seria esse, meu senhor. - arguiu.

- Há muito tempo atrás, uma elfa que vagava em uma esplendorosa floresta, ouviu um canto  de pássaro tão puro e suave que a levou às  lagrimas. Seguindo a melodia, ela chegou à uma clareira onde encontrou um elfo, de aparência jovem e bela, que também procurava o pássaro. Esse era Fenmarel Mestarine, uma deidade élfica reclusa. Sua presença divina e seu ar de encanto, fizeram com que a elfa ficasse completamente extasiada e entorpecida. Seu coração foi arrebatado diante de tanta magnificência. Quando ele partiu, desaparecendo entre as árvores como se nunca estivera ali, a donzela ficou desolada. Apesar dela ter procurado em cada canto da floresta e gritado pelo estranho até que sua voz desaparecesse, não encontrou traço algum de sua presença. Levada ao  desespero, ela implorou aos deuses por ajuda. Aerdrie Faenya, a deusa élfica do céu, ouviu sua angustiada súplica e resolveu ajudar. A divindade apareceu diante da triste elfa na forma do pássaro cuja canção havia fascinado o deus proscrito e então lhe ensinou a canção da beleza e da sedução. Quando o canto dela  falhou em atrair Fenmarel Mestarine para seu lado, a elfa amaldiçoou os deuses, invocando sobre si um terrível poder, que a transformou na primeira harpia. A magia da maldição fez efeito tanto em seu espírito quanto em seu corpo,  tornando os desejos por amor em fome por carne. Mesmo hoje, sua bela canção continua a  atrair toda sorte de criaturas para seu abraço  mortal. Estamos em território de harpias, Pelaios. Creio que elas ainda não saibam que  estamos aqui, e é bom que permaneça assim. Vamos nos dividir em turnos para vigiar durante a noite. Tente descansar o melhor que puder, pois partiremos logo amanhã, se Pelor assim permitir.

Pelaios caiu no sono rapidamente. O coitado estava em total exaustão, após todo um dia de caminhada - depois de tudo, as roupas molhadas e as bolhas em seus pés nem o incomodavam mais. Ledier sabia que exigira um grande esforço da parte do rapaz, por isso estipulou que ele dormisse primeiro. Entretanto, quando seu turno acabou, o paladino já não estava tão compassivo; também precisava descansar. Ao acordar, Pelaios sentiu, finalmente, as dores, tanto da viagem quanto da surra que levara, ecoarem por seu corpo molestado. A chuva ainda estava forte, ostentando raios que cortavam o céu de ponta à ponta. Emitindo grunhidos, o rapaz pegou alguns figos que estavam na bolsa e comeu-os vorazmente. Estava com fome e tremia de frio,  mas essa última mazela não podia ser resolvida, dado o fato de não ser possível acender uma fogueira naquelas condições. Ele precisava aguentar firme.

Após algum tempo dormindo, Ledier despertou ao ouvir uma canção belíssima ecoando pela ravina. Entendeu imediatamente que aquilo provinha da maligna criatura das lendas. Percebendo a falta de seu companheiro debilitado, ele pegou sua espada e seu escudo e esgueirou-se por entre os paredões à sua procura.

No alto, a lua reinava gloriosamente, enquanto as poucas nuvens que restavam, persistiam em lançar brandas gotículas de água por sobre o obstinado servo de Pelor. Conforme buscava a origem da letal melodia, o volume do concerto tornava-se cada vez mais elevado, indicando assim que ele  estava se aproximando do covil da harpia. Não demorou muito até que testemunhasse movimentação. Numa área mais ampla da geografia do local, percebeu que três harpias sobrevoavam alguma coisa, que estava desvalida ao chão. Analisando mais de perto, viu Pelaios caído e com diversos ferimentos. O rapaz agonizava e urgia por socorro, enquanto as vis criaturas divertiam-se cortando seu frágil e moribundo corpo. Uma grande poça de sangue manchava o chão enlameado, ao passo que as torpes risadas das harpias profanavam o ar. Perplexo, Ledier não percebeu quando uma quarta e sorrateira harpia veio covardemente por trás dele, dilacerando-lhe a carne. As outras, aproveitando-se do ocorrido, dispersaram-se no ar, a fim de atacar o recém-chegado paladino - dessa vez, uma recepção constituída de dezenas de garras afiadas.

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