quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Bushido 6: Capítulo 3

CAPÍTULO 3
Olhos Famintos

- Não acredito que nos mandaram para tal fim de mundo, Enishi. Eles nos prometeram riquezas e glória caso os servissemos. Ousaram mencionar que um "novo bushido" surgiria com a ascensão de Grapha. - resmungou, terminando seu saquê com um único gole. - Somos a elite, Enishi. A elite! O que alguém do nosso nível está fazendo aqui em Kagawa? Podiam ao menos ter nos enviado para Tóquio, talvez Chiba. Mas, ao invés disso, mandaram-nos para esse tormento. E o pior de tudo é a função ridícula que nos atribuiram: coletores de impostos. Eu não mereço tamanha humilhação. - completou, chocando o masu violentamente contra a pequena mesa de madeira.

- É um trabalho importante, Hiroito. - disse Enishi, enquanto apreciava o doce sabor de seu amazake. Ele não parecia se importar muito com as palavras de seu companheiro, visivelmente alterado pelo álcool. - Acalme-se. Estamos em uma estalagem familiar.

- Sabe a revolta em Ishikawa? Era lá onde deveríamos estar. Decapitando sacos de carne. Não me recordo a última vez em que tive uma boa luta. Há meses que minha katana só vê camponeses insubmissos e bandidos de estrada. Quero ação, Enishi. Dê-me um bom desafio e ficarei calmo como uma brisa.

- Irá ter muita ação amanhã. Há trabalho a ser feito em Kita. - ele não disfarçou o sorriso.

- Você acha isso engraçado? - perguntou, em um tom mais alto, enquanto fazia sinal para que servissem-lhe mais saquê. - Nós só vamos rodar aquele lugar coletando moedas. Se a minha lâmina precisar ser sacada, certamente será para o seppuku.

- Apreciaria assistir. - desdenhou Enishi.

- Ora, seu... - esbravejou, levantando-se e sacando sua katana contra seu calmo parceiro. - Talvez você queira me dar a luta que preciso. - desafiou, fitando-o por alguns instantes; tudo sob os olhares espantados dos pescadores que bebiam ao fundo.

- Senhores, por favor não lutem dentro da estalagem. Estão assustando os clientes. - disse a franzina atendente, aproximando-se com o corpo trêmulo. - Meu pai sempre paga os impostos em dia. Imploro que tenham um pouco de consideração.

- Não haverá uma luta. - disse Enishi, com um olhar impassível que penetrava as órbitas de Hiroito. - Você está bêbado, não tem controle sobre seus atos. Menina, traga-me mais amazake e algo para comer, por gentileza.

Enishi havia sido um homem bom por toda sua vida, além de um fiel guerreiro à serviço de sua pátria. Era um pai atencioso e um marido amável. Sua moral era inquestionável. Com a invasão do império, jurou manter sua montante a serviço da casa Igarashi, não importando o rumo que a guerra tomasse. Nunca sequer passou por sua cabeça tornar-se um servidor dite. Porém, diante da derrota e de um posterior impasse, teve de abrir mão de suas crenças. Suas habilidades extraordinárias chamaram a atenção dos invasores que, por sua vez, propuseram que ele se voluntariasse para alguns "experimentos", em troca da vida de seus familiares. Isso transformou Enishi. O homem bom e sensível foi tornando-se cada vez mais rude, sofrendo frequentes espamos de violência. Sua destacada cortesia, transformou-se progressivamente num medonho jeito de agir. Seus olhos tornaram-se negros e profundos, passando a transmitir uma sensação gélida a quem os encarasse, além de um tenebroso frio na espinha. Sua habitual expressão de quietude dava lugar para um sorriso diabólico sempre que se irritava ou via-se diante de uma batalha.

- Posso estar bêbado, mas ainda tenho mais controle sobre meu corpo do que você tem sobre o seu. - disse, em tom consternado, enquanto embainhava sua katana e sentava-se novamente. - O que fizeram com você, meu amigo? - o saquê agora descia insípido por sua garganta. - Esse olhar distante... É como o de alguém cuja alma fora arrancada de seu corpo.

- Toda vida tem um preço. - respondeu, suspirando a fim de se acalmar. - A da minha família foi paga com sangue.

- É impressionante o fato de você estar sempre prestes a explodir. Dia após dia sinto que minha real função aqui é te manter consciente. O surgimento desse seu olhar sinistro demarca o ponto onde devo começar a me preocupar. A cicatriz em meu peito é o preço que eu paguei por ter falhado uma vez contigo. - ponderou, de cabeça baixa, enquanto punha uma das mãos sobre o peito, coberto por uma cota de malha. - Está cada vez mais frequente. Pergunto-me o quanto sobrou do Enishi que conheci anos atrás. Vejo que uma morte sem honra me aguarda.

- Daqui à três meses tenho de ir até Fukushima. Segundo Lucent, será a última sessão do processo.

- Você irá? - perguntou Hiroito, bebendo a dose de saquê num único gole.

- Não tenho escolha: eles têm Kaori e Haruo sob vigilância. Caso eu me recuse a colaborar, nada além da morte os aguarda. - respondeu, franzindo o cenho.

- Tem de haver um jeito. - o saquê de Hiroito passou a desaparecer cada vez mais rapidamente de seu masu.

- Não há. Minha família vive e eu me torno um... - Enishi não terminou a frase. Virou o rosto com um olhar tenso e pôs-se a pensar.

- Um...? - inquiriu. - Tudo bem se não quiser me falar, mas saiba que minha vida pode estar em jogo aqui. - alegou, após ver que ele não responderia a pergunta.

- Seu amazake, senhor. Para comer, trouxe sanuki udon: uma especialidade da região. O caldo dashi foi feito com alga konbu, lascas de peixe seco e cogumelo shiitake. - cantarolou a jovem, enquanto arrumava tudo delicadamente na mesa. - Esperamos que goste, senhor.

- Preciso de mais saquê. - balbuciou Hiroito, já sentindo os efeitos do excesso de álcool no corpo. - Ande logo, vá buscar.

- Você é insuportavelmente irritante quando está bêbado. - protestou Enishi.

- E você é um demônio doentio, sedento pelo meu sangue. Se eu não estiver alcoolizado, enlouqueço.

-  É justo. - consentiu.

- Que tal um assunto mais interessante para acompanhar a refeição? - propôs, esvaziando o resto de saquê da pequena garrafa. - O que sabe sobre Ishikawa? Diga-me. Não faz muito tempo que esteve com o coronel Lucent. Sei que trouxe informações sobre a rebelião consigo.

- Negativo. Não possuo informações. - respondeu com aspereza.

- Não minta pra mim, Enishi. Eu conheço você, sei quando está mentindo. Além do mais, aquela parada em Gifu para supostamente "entregar relatórios ao governador" não me convenceu nem um pouco. Sei que há algo em andamento. - insistiu. Hiroito estava enfadado com sua atual situação, por isso procurava meios para envolver-se em algo maior.

- Sabe que não posso te dar essas informações. São altamente confidenciais. Beba seu saquê. - argumentou, enquanto observava a menina voltando com mais uma garrafa.

- Seu saquê, senhor. Como está o udon? - perguntou.

- Ele adorou. Agora saia. - Hiroito não estava nada contente com a interrupção. - Vamos, saia logo. É surda?

- Não era pra tanto. Essa será sua última garrafa por hoje. Já bebeu demais. - murmurou, mergulhando o hashi na sopa.

- Olhe para isso, Enishi. Olhe bem. - solicitou, com uma expressão de pesar em seu semblante, enquanto despia-se de sua cota de malha e de sua túnica, deixando a grande e profunda cicatriz em seu peito à mostra. - Vivo minha vida por você. Luto por você. Quase morri, por você. Acho que mereço um pouco de confiança. Parceiro. - asseverou, deixando bem claro o débito de Enishi para com ele.

- O filho do antigo imperador Kazuki lidera a rebelião. Shien é seu nome. - sussurou. - Há algo grande em andamento, para que seja dado um fim definitivo às revoltas. O general Gren orquestrou pessoalmente o plano.

- O que aquele velho tem em mente para o indômito principezinho? - questionou Hiroito, com um sorriso cheio de dentes no rosto.

- Não sei os detalhes mais específicos, mas o serviço secreto está envolvido.

- O serviço secreto? - abismou-se. - Você quer dizer... Os ninjas?

- Exatamente. E seja lá o que for acontecer, não irá demorar.

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