quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Tales & Fables: Tempos de Bonança #1

Era uma pequena cidade, mas havia uma quantidade significativa de pessoas por ali. O festival anual em comemoração a colheita das uvas era um grande chamariz para os comerciantes e pequenos senhores das redondezas, além dos curiosos e amantes de bons vinhos. Em meio a isso, Taran vagava por entre a multidão, observando os alegres transeuntes que divertiam-se, ora assistindo aos pequenos projetos de espetáculos circenses que surgiam ali e acolá, ora deixando-se levar pela alegria intrínseca ao consumo de um tinto de qualidade. Apesar de apreciar a atmosfera do lugar, ele não estava ali pelo festival. Na realidade, ele não estava ali por nenhum motivo em específico, só vagava. Há alguns meses caminhava sem rumo, procurando respostas para perguntas que nem os deuses poderiam responder. Sua vida era um profundo mar escuro e frio, sem fundo, sem esperanças. Porém, naqueles meses -  assim como em alguns outros há tempos atrás -, ele experimentava uma sensação de bem-estar, mesmo em meio à tenta confusão em seu interior. Talvez o sangue mais nobre que corria em suas veias havia despertado e mostrado a ele o que precisava saber, mesmo que não entendesse como isso se dava. Também podia ser que a resposta dada simplesmente tivesse sido diferente da que esperava receber. Algo mais sutil, que disfarçava-se em meio à forte chama crepitante alimentada pelo menos nobre e pelos traumas antigos que o moldaram. A única coisa que compreendia era a paz que isso gerava, abafando seu ódio e seus intentos de vingança.

- Oh, outro tumulto! As pessoas deviam ter mais atenção ao andarem próximas a homens com sobretudos finos. Nobres às vezes podem ser meio paranoicos, especialmente Lorde Melkier, o louco. - disse o vendedor de linguiças, após atender Taran.

Taran, outrora perdido em seus pensamentos, logo virou-se e viu uma cena que o desagradou fortemente. Um homem alto, vestido em uma armadura dourada cheia de adornos e com o brasão de um crânio de touro estampado no sobretudo de tecido fino que o cobria, segurava uma mulher pelos cabelos, sacudindo-a e proferindo insultos contra a infortunada. Enquanto isso, três homens, trajando cotas de malhas com o mesmo brasão em suas capas, chutavam um homem já inconsciente, que sangrava enquanto seu corpo era fulminado pela covardia do trio. Num súbito acesso de raiva, Taran correu na direção dos homens, abrindo caminho às cotoveladas, brandindo sua espada e cortando freneticamente contra o trio que agredia o homem. Com um movimento firme decepou um deles, girando logo em seguida e atravessando a camada de aço que estava entre a lâmina e o peito pálido do homem ao seu lado. Vendo aquilo, o terceiro homem tentou fugir, mas foi carbonizado por um intensa coluna de fogo expelida da espada de Taran.

- Você tem noção de quem eu sou? - gritou o nobre de armadura dourada, horrorizado pelo que acabara de ver. - Eu sou Melkier, da casa Vainblood, o primeiro de meu nome, herdeiro de Forte Skull, filho de Lorde Timérier. Então se preza sua vida, dê meia volta e esqueceremos o que aconteceu aqui. - aconselhou, enquanto Taran se aproximava, ignorando o que dizia e o fitando com olhos queimando de ódio. - Onde diabos estão os guardas dessa cidade? É do filho de Lorde Timérier que estamos falando aqui.

Percebendo que Taran não iria parar, o nobre rapidamente pegou a mulher e a ergueu, colocando uma adaga em seu pescoço.

- Não se aproxime mais ou corto a garganta dessa mulher! - avisou. - Se a quer viva, largue suas armas!

Ignorando a ameaça, Taran calmamente pegou uma das adagas que carregava consigo e arremessou, num movimento certeiro, em direção ao nobre que protegia-se atrás da mulher, usando-a como escudo. A lâmina girou pelo ar, acertando precisamente em meio aos olhos do covarde filho de Lorde Timérier, matando-o imediatamente. As pessoas ali não pareciam acreditar em seus próprios olhos.  Simplesmente ficaram ali, paralisadas por um misto de medo e alívio. Tudo que se ouvia eram sussurros e os passos dos mais apavorados, que fugiam sorrateiramente.

Quando Taran estava já saindo dali, ouviu os gritos de comando ao longe. Era a guarda da cidade se aproximando. A única punição possível para o que ele acabara de fazer com aqueles homens era a morte pela forca. Ele não estava preocupado em ser detido ali, mas obviamente preferia evitar um confronto com os guardas que chegavam. Na mente dele, os covardes que atacavam aquele casal mereceram o destino que tiveram (usando seus títulos e posses como passe livre para humilhar os menos afortunados impunemente), mas os guardas só pretendiam exercer suas funções como tais.

- Senhor, precisa fugir ou será enforcado. - disse a mulher, com bastante dificuldade. Seu corpo estava repleto de hematomas e sua roupa parcialmente rasgada, já o estado de seu braço indicava uma fratura. - Vá, o quanto antes!

- Vocês provavelmente terão um destino muito similar se permanecerem aqui. A família daquele nobre certamente buscará vingança. Não temo por minha vida, por isso não me importo muito com o que acontece comigo. Minha hora está longe de chegar. Entretanto, quando eles vierem, vocês serão lembrados e usados como objetos para a vingança. Suas vidas são as únicas em risco aqui. - explicou Taran.

- Que seja de acordo com a justiça dos deuses. - lamentou a mulher, enquanto em vão tentava levantar-se.

- Justiça dos deuses? - questionou, em tom repreensivo. - Os deuses não... - tentou explicar, mas fora logo interrompido pela voz de uma criança que chegara gritando.

- Mamãe, mamãe! Você tá bem, mamãe? O que aconteceu com papai? Eles mataram o papai? Papai não se mexe, mamãe. - o jovem menino, que chorava e soluçava, aparentava ter por volta de uns seis anos de idade.

- Seu pai está vivo. Por enquanto. - respondeu Taran, antes que a mulher conseguisse dizer algo. - Sairemos daqui todos.

- É impossível. Já é quase impossível você fugir sozinho agora que eles já estão tão perto, quanto mais fugirmos todos. Meu marido está desfalecido, não pode correr. Vá sozinho, salve-se. - retrucou, abraçando fortemente seu filho, tentando acalmá-lo. - Mamãe está aqui, calma filho. Papai vai ficar bem. Helm nos protegerá.

- Não sairemos daqui correndo. - afirmou, enquanto aproximava-se do homem caído e o erguia em suas costas. - Magia é deveras mais útil nessas situações.

Dito isso, o corpo dos quatro - Taran e o casal mais seu filho - começaram a desaparecer num feixe iluminado, deixando todos os observadores estupefatos e limitando o achado dos guardas que chegavam a simples cadáveres jogados ao chão.

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