domingo, 21 de agosto de 2016

Tales & Fables: Tempos de Bonança #2

Dentro da pequena casa, um punhado de lenha crepitava nas chamas de uma rústica lareira, amenizando o intenso frio característico das montanhas árticas de Midreth. O homem, que havia sido covardemente agredido, repousava próximo ao calor. Apesar de seu estado de saúde crítico, negava-se à própria morte, em lutas e estertores agonizava. Sua mulher, segurando sua mão, rezava aos deuses por sua vida. A fé era a única saída que lhe restara, haja vista que não possuía o conhecimento necessário para tratar de seu companheiro.

- A ti, Pelor, ó grande deus-sol, deposito minha súplica. Covardes são os homens; maus e vis eles são. Mas tu, grande radiante, é misericordioso; não fecha seus olhos diante dos oprimidos. Tu abominas toda forma de mal; Foi compassivo: enviaste seu servo para nos salvar da morte. Sei que não sou digna de fazer mais pedidos a ti, mas peço que estenda sua misericórdia à vida de meu marido; salva-o, pois padece. Abra os céus de Celestia, deixe sua doce luz recair sobre seu servo; livra-lhe da morte. Aquele que... - clamou a mulher, de joelhos, sendo logo interrompida.

- Eu, servo de Pelor? - disse Taran, após dar o último gole em sua cerveja. - Fi-lo porquê qui-lo: já dizia o polêmico governante, e assim também digo eu. Salvei-os por piedade; Pelor nada tem com isso. Não se iluda achando que os deuses se importam com os pequenos mortais. Eles só intervêm realmente quando os interesses deles entram em jogo; o resto - as pequenas ações - é tão somente para manter seguidores, sua principal fonte de poder. Esse homem o qual você chama de marido morrerá hoje.

- Sua falta de fé é perturbadora. O que lhe aconteceu para que seja assim? - perguntou a mulher, um pouco irritada, pois Taran acabara de negar-lhe seu último recurso.

- Eu vi e vivi a verdade. - respondeu, virando-se para mulher e olhando-a com desdém. - Eles dizem governar sobre aspectos tais, que os moldam e assim determinam cada uma de suas ações, todavia eu conheço a verdade. Como eu já disse antes: eu vi e vivi a verdade. O poder corrompe, mulher. Dê poder a um homem e ele mostrará sua verdadeira face, mas torne-o um deus e ele te mostrará a essência da corrupção. Vocês, servos iludidos desses falsos deuses, não passam de marionetes. Pelor, o deus do bem, da vida e da cura não foi misericordioso com aquela mãe que decidiu ir contra tudo que nasceu pra ser, esforçando-se para salvar seu amado filho. Ele não hesitou quando tiraram-lhe a vida e aniquilaram sua alma, para que jamais fosse ressuscitada. Muito pelo contrário: ele próprio participou da carnificina. Sentiu-se aliviado quando a criança foi jogada para morte. Declarou como "justo" o exílio do pai dela. - argumentou, com os olhos queimando num brilho intenso, que demonstrava seu grande desprezo.

- Às vezes não entendemos as coisas que os deuses fazem, mas é porquê nossas mentes são tão simplórias... Eles estão lá em cima, vendo e ouvindo tudo. Eles sabem o que precisa ser feito, pois enxergam coisas que nós nem sequer imaginamos. Nós realmente não somos nada diante do poder deles, mas eles ainda sim se importam. Não sei exatamente o que aconteceu contigo, mas eu tenho fé que Pelor nunca faria algo ruim, caso não fosse realmente necessário.

- Ele só tinha medo, assim como os outros. Julgaram a mulher por sua espécie, condenaram-na por algo que não tinha culpa. - Taran cuspia as palavras, enquanto batia na mesa com seu punho cerrado. - Para eles, aquela criança era uma ameaça. Tinham medo de que, quando crescesse, ela desejasse destronar-lhes. Não há justiça quando os que deveriam ser juízes estão corrompidos. Não há amor quando os que deveriam ser os representantes de tão nobre sentimento viram de ombros para tamanha demonstração de amor materno. Não há compaixão quando o poder é mais importante que uma vida. Não há... - disse Taran, sendo então interrompido pelos braços da mulher, que se achegavam por detrás dele. Ele estava tão consumido pelos sentimentos negativos que não percebera a aproximação da mulher.

- Você sofreu muito... Eu sinto sua dor. - disse, em lágrimas, num gesto de profunda empatia.

- O que pensa que está fazendo, mulher? - bradou, enquanto tentava desvencilhar-se dela. - Solte-me agora.

- Acalme-se. - disse enquanto o abraçava mais forte, arqueando-se e aproximando então seu rosto ao dele, falando-lhe ao ouvido. - Todos nós passamos por momentos difíceis em nossas vidas, momentos esses que nos marcam profundamente. Sentimos ódio; somos tomados pela cólera. Entristecemo-nos e choramos. Sentimo-nos tão impotentes, tão fracos, tão inúteis. Somos, todos os dias, abatidos pela injustiça. Mas, também podemos ter alguma felicidade nesse mundo. Podemos nos divertir, podemos cantar e dançar. Podemos compartilhar momentos alegres com pessoas fantásticas. Podemos viajar e conhecer lugares magníficos. Podemos amar e sermos amados. Esse mundo é muito grande para se ficar sozinho, sendo consumido pela negatividade. Não digo que não devamos buscar a nossa justiça, quando necessário, mas não devemos deixar que sejamos consumidos por ela. Em algum lugar, certamente existe alguém disposto a estender a mão ao cavaleiro, mas essa mão precisa ser aceita quando oferecida. Pode ser a mão de uma amorosa companheira, talvez as de valorosos amigos ou, quem sabe, a de um deus. Só tenha certeza que um dia ela surgirá com seu convite de socorro, então esteja preparado para aceitá-lo. Como um forte cavaleiro que chega e derruba seus opressores, salvando-lhe da morte certa, assim essa mão chegará até você, trazendo-lhe paz.

Ao ouvir aquilo, Taran foi tomado por um súbito sentimento de esperança e conforto. A confusão que assolava seu viver cessou e seu ódio foi extinto. O calor dos braços daquela mulher, o suave afago de sua bochecha e suas palavras gentis serviram como uma poderosa ferramenta, que tirava o peso das cansadas costas de Taran.

- Devo ir embora. - disse Taran, enquanto levanta-se calmamente, libertando-se do abraço. - Há provisões para algumas semanas aqui. Quando o tempo melhorar, vá até a capital de Midreth, com seu marido e seu filho, e procure por Ikymn, da casa Tribulus. Entregue este documento a ele, pois assim receberão abrigo e trabalho. - acrescentou, retirando um tubo de madeira de sua mochila.

- Mas já vai, meu senhor? Uma tempestade certamente se aproxima. - perguntou, olhando para ele com uma expressão preocupada. - Nem ao menos me disse seu nome.

- Sou Taran, da casa Balerion. - respondeu. - E vocês, quais são seus nomes?

- Sou Elizabeth Linai. O homem ferido é meu marido, Kyle Linai, e o menino que dorme ao lado dele é nosso filho, Alexander Linai.

- É um prazer conhecê-la, senhora Linai. - disse, em tom cortês, enquanto estendia sua mão em direção ao homem deitado. - Seu marido irá ficar bem; há uma mão indo até ele. - completou, desaparecendo no ar logo em seguida.

Ao voltar até onde seu marido estava, Elizabeth então percebeu que ele estava totalmente curado. Suas feridas haviam fechado, seus hematomas haviam desaparecido. Ele dormia tranquilamente, como se nada tivesse acontecido. Transbordando de alegria, ela gritou em comemoração e saltou sobre o marido, abraçando-o num gesto de amor e felicidade plena.

- Foi um prazer conhecê-lo, Taran, da casa Balerion. - disse, olhando ternamente para a caneca vazia de Taran, que repousava sobre a mesa.

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