quinta-feira, 11 de agosto de 2016

O Cavaleiro Vingador: Dores da Perda #1

A vingança é como uma pequena semente, que encontra terreno fértil no coração dos homens, tornando-se logo uma grande e imponente árvore. Essa é a história de como essa semente cresceu no coração de um desses mortais.

Em algum lugar ao sul da cidade fortificada de Galbatroh, o coração cosmopolita do Reino dos Principados Brilhantes, numa planície vasta, onde o vento passeava livre, e próximo a um lago com águas tão cristalinas que um olhar um pouco mais atento já era capaz de revelar o que havia em suas profundezas - dezenas de peixes em um balé sincronizado, nadando em ritmo lento - existia uma pequena casa. Não uma casa pobre e feia, mas sim uma casa  aconchegante e refinada. Suas paredes eram brancas, seu telhado de madeira, com uma ajeitada cobertura de palha. Já por dentro, esse conceito de "aconchegante" era levado a um nível além. Os móveis e adornos nas paredes contrastavam com alguns quadros e ornamentos, transmitindo uma sensação de paz e tranquilidade. Era o retiro perfeito.

Tal casa era o lar de duas pequenas crianças. Irmãos idênticos em aparência, porém com personalidades muito distintas. Ledier era alegre, corajoso e quase sempre seu coração valente o levava a realizar ações insensatas. Já Beldarak era muito reservado e metódico - costumava pensar duas ou três vezes antes de qualquer coisa e arrancar um sorriso de seu rosto só era possivel quando sua mãe fazia as guloseimas de que tanto gostava.

Ambos eram filhos de Frostborn Domeni, um combatente, soldado do exército real de Galbatroh, e de Elga Salazard Frind. Eles se conheceram durante a batalha de Eladrin, onde Frostborn havia sido atingido por uma flecha orc envenenada, tendo que decepar o próprio braço - com a ajuda de um companheiro - para impedir que o veneno se espalhasse. Quando voltou ao acampamento, ficou sob os cuidados de uma linda moça, de pele clara como porcelana, cabelos negros como a noite e olhos de um azul similar ao mais nobre topázio. Porém, sua grande beleza não era a única qualidade que essa jovem possuía: ela era muito habilidosa com magia. Tendo repousado suas mãos sobre o lugar onde antes era o braço de Frostborn, ela emanou uma tênue luz, fazendo com que seu braço lentamente regenera-se. Nada daquilo passou despercebido para Frostborn. Se realmente existe algo como "amor à primeira vista", aconteceu naquele momento. Foi aí que, cinco anos depois, eles se casaram, tendo Elga logo dado luz aos gêmeos: Ledier e Beldarak, nossas crianças.

- Ei, Ledier! Onde você vai? - perguntou Beldarak, já imaginando que seu irmão poderia está planejando alguma tolice.

- Estou indo brincar, seu chato! - exclamou, aborrecido com a inquirição de seu irmão.

Ledier saiu pela porta com sua funda em mãos, pronto para matar alguns pássaros -  tarefa que o deixava deveras satisfeito. Beldarak o seguiu de longe, espreitando em arbustos aqui e acolá. Eles andaram cerca de uma ou duas horas, até chegarem na misteriosa floresta de Fhalregard - lugar que acreditava-se ter sido infectado com uma terrível doença e que um mago negro andava livre em seu interior.

- Você está louco, Ledier? Papai nos disse para nunca brincar por aqui! - disse Beldarak, em tom de repreensão, enquanto projetava-se para fora de um arbusto, revelando sua presença ao desapercebido irmão.

- Quer me matar do coração? - bradou Ledier, enquando recuperava o folego, após tamanho susto.

- Vamos embora, seu maluco. Se papai e mamãe sentirem nossa falta, não vou...

Beldarak foi repentinamente interrompido por um forte estrondo vindo das entranhas da floresta. Uma revoada de corvos então se levantou do alto das árvores, cobrindo o céu com uma tenebrosa nuvem. Vendo aquilo, Ledier lembrou-se das histórias que ouvira sobre o sinistro mago que ali habitava, ficando fascinado pela idéia de poder ver o ser das lendas. Saiu em disparada floresta a dentro, enquanto perseguido por seu irmão, que inutilmente tentava convencê-lo a voltar para casa.

- Está mesmo maluco? Vamos acabar em confusão, seu idiota!

Ledier virou-se para ele, deu um grande sorriso e disse:

- Não estou pedindo para me acompanhar, medroso!

Os dois vagaram floresta adentro por um determinado tempo, até que os focos de luz que saíam dos espaços entre as árvores começaram a desaparecer, indicando que a noite havia feito sua entrada, mergulhando a floresta em uma escuridão que só não era completa por causa da luz da lua. Beldarak, já cansado de andar, então disse:

- Para mim já chega! Vou voltar com você ou sem você. Estou cansado e com fome. Papai e mamãe vão nos colocar de castigo se não aparecermos logo.

Ele havia dando simples cinco passos na direção contrária quando ouviu um barulho peculiar. Virou-se lentamente, procurando a fonte do som, percebendo logo uma coluna de luz um pouco mais à frente. Aproximando-se da origem daquela luz, viram uma clareira ocupada com cerca de trinta orcs, concentrados em algum estranho ritual. No centro do lugar havia um altar, onde uma majestosa criatura estava amarrada. Ela era branca como a neve e parecia muito com um imponente corcel, porém possuía um grandioso par de asas. Ledier ficou maravilhado com a beleza do animal, mas também confuso. Perguntava-se o porquê daquela criatura tão bela estar naquela situação. Beldarak, procurando um melhor campo de visão, saltou sobre uma pedra, alcançando altura suficiente para se agarrar em um galho e subir furtivamente numa árvore. Já Ledier, não possuindo as mesmas habilidades de seu irmão, escondeu-se atrás de um arbusto.

Pouco depois, aquele ritual tornou-se ainda mais macabro. Os orcs começaram a ficar agitados, cantarolando cantigas ininteligíveis, enquanto uma criatura esguia, com uma túnica negra aproximava-se. Segurando um punhal manchado de sangue, ela logo começou a falar algo em voz alta, numa língua que os dois meninos não conseguiam compreender. Quando a criatura levantara o punhal para golpear o corcel alado, um forte brado percorreu a floresta, interrompendo a cerimônia:

- Beldaraaak! Ledieeer!

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