segunda-feira, 15 de agosto de 2016

O Cavaleiro Vingador: Dores da Perda #4

O tempo então passou, escorrendo lentamente. A cada dia eles lembravam da dor que sentiram anos atrás, como se aquilo tivesse acabado de acontecer. Alimentados pelo desejo de vingança, eles cresceram fortes e robustos. Treinaram incessantemente, dedicando-se ao aperfeiçoamento de suas habilidades físicas e mentais. Beldarak tornou-se um mestre com adagas e arcos, além de um excelente caçador. Era sorrateiro e inteligente, conseguindo alcançar seus inimigos antes que notassem sua presença. Já Ledier seguiu o caminho do espadachim, conquistando habilidades tais que beiravam a perfeição. Mas era com a adição do uso de escudos que seu verdadeiro potencial era trazido à tona. Espada e escudo: Ledier tornou-se um guerreiro letal e resiliente. Apesar de ser tão talentoso, ele possuía uma fraqueza, decorrente do trauma que sofrera quando era mais jovem: sempre que via alguém se ajoelhando, lembrava-se da cena de seus pais sendo cruelmente assassinados, enquanto assistia impotente naquele armário escuro.

Todo o ódio guardado durante aqueles anos, precisava ser descarregado, mas o único jeito de fazer isso seria cumprindo a promessa que haviam feito. Quando se completaram exatos quinze anos desde a morte de seus pais, os dois concordaram que a hora de por a vingança em prática havia chegado. Viajaram então para a Floresta de Fharengard, deixando tudo para trás, focados em sua missão. Ao chegarem, assustaram-se grandemente. No lugar onde outrora havia aquela floresta bela e cheia de vida, agora existiam somente troncos retorcidos e um forte cheiro de lodo e morte. Caminharam então cuidadosamente pelo lugar, avançando pelo território fétido, buscando alguma pista do mago. Não deixaram que a aparência pútrida do lugar os impedisse de honrar a lembrança de seus amados pais.

- Ledier, estamos sendo seguidos. Movimentação às quatro horas. - sussurrou Beldarak, sendo bastante sutil.

- Entendido. Interceptá-lo-emos à margem do rio. - respondeu Ledier.

- Ok.

Os dois seguiram adiante, atentos, até chegarem a um pequeno rio lamacento. Beldarak então, fingindo abaixar-se para recolher alguma água do rio, sacou uma flecha rapidamente, tensionou a corda de seu arco e disparou contra o nada. Por um segundo, o silêncio predominou, sendo logo interrompido pelo barulho de algo caindo ao chão. Aproximando-se para verificar, os irmãos logo encontraram o corpo sem vida de um macaco do pântano, com uma flecha cravada em seu crânio.

-  Já pode ser considerado um caçador de macacos. Beldarak, o monkeyslayer. Soa bem. - zombou Ledier, rindo ruidosamente.

Após mais algumas horas de caminhada,  encontraram algo que parecia ser uma espécie de covil: uma pequena caverna, na face de uma grande pedra, com duas estacas no chão adornadas com penduricalhos e crânios em seu exterior. Isso chamou a atenção deles, fazendo-os crer que estivessem na direção correta. Dentro do lugar o mal odor era quase que insuportável, como se algo ali estivesse em um estado de putrefação bastante avançado. Beldarak logo avistou uma criatura ao fundo da caverna, de pé em frente à uma mesa muito rústica. Ela estava manipulando alguns estranhos frascos, misturando o que pareciam ser líquidos e acrescentando folhas e ervas. As únicas fontes de iluminação no lugar, eram as velas aromáticas (de um tipo bastante fétido) espalhadas pelo lugar, postas em cima de crânios humanos, além do feixe de luz que provinha da entrada. Beldarak, não deixando que o ódio o impedisse de pensar, avaliou o lugar rapidamente com um olhar e, prevendo que Ledier poderia perder o controle, não o avisou de suas intenções, tirando assim uma flecha de sua aljava, que estava previamente imbuída com veneno de basilisco atroz - é dito que tal veneno pode paralisar até o mais forte dos dragões -, e preparou-se para o ataque. Ele sabia que, para segurança sua e de seu irmão, precisava ser rápido como um guepardo e preciso como um falcão. Seu rosto suava,  suas pés e mãos ameaçavam tremer e a cena da morte de seus pais repetia-se em sua cabeça. Nesse momento de hesitação, Ledier logo avistou a criatura. Seus olhos então enegreceram de ódio, seu coração palpitava descontroladamente, como se estivesse prestes a sair pela boca. Antes que Beldarak fizesse algo, ele empunhou sua machadinha e a arremessou em direção à criatura. Tudo que ele foi capaz de ouvir nos segundos em que sua machadinha rodopiava pelo ar era o som de sua mãe, em prantos, nos últimos momentos de sua vida. A arma logo acertou em cheio as costas da criatura, fazendo-a uivar de dor. O som de seus ossos estilhaçando ecoou por toda caverna, abafando o som da flecha de Beldarak, que vinha em seguida. A flecha acertou o ombro da criatura, que já estava arqueada, paralisando seu corpo e fazendo-a perder a consciência.

Ao acordar, a criatura viu-se amarrado de cabeça para baixo com a boca amordaçada. Era realmente o mago negro, que friamente matara seus pais anos atrás - Ledier e Beldarak já haviam percebido assim que sentiram o odor característico na hora de entrar na caverna, afinal nunca conseguiram esquecer. Quando Ledier percebeu que ele já estava acordado, cortou a corda que o prendia no alto da caverna com sua espada. O mago então começou a cair em direção ao chão mas, antes que seu corpo tocasse o chão, Ledier acertou um chute tão violento nele que quebrou-lhe o nariz.

- Diga-me seu nome, verme! - ordenou Ledier, enquanto chorava amargamente, devido à lembrança de seus pais.

Não obtendo resposta, Ledier começou a ficar irritado. Andou de um lado a outro dentro da caverna, imaginando meios brutais de praticar sua vingança.

- Qual seu nomeeee, Vermeee? - perguntou, em tom furioso.

Ele repetiu a pergunta várias vezes, mas sempre sem resposta. Entre uma e outra,  Ledier chutava-o com força, descontando a dor da perda de seus pais. O resultado do interrogatório veio na forma de várias costelas quebradas e um braço deslocado. Ledier, vendo que só aquilo era inútil, soltou as amarras. Vendo aquilo, o mago ousou pronunciar algo, mas foi silenciado por Beldarak, que desferiu-lhe um golpe com seu machado, cortando assim uma das pernas da odiosa criatura. Ledier, em fúria, pegou sua espada em seguida e cortou o peito do mago, espirrando sangue imundo por todo o lugar. Pelo corte que fizera, Ledier enfiou bruscamente sua mão, arrancando o coração da criatura e assim tirando-lhe a vida.

- O nome dela era Elga! - sussurrou Ledier, tendo aproximado-se do ouvido do cadáver.

- O nome dele era Frostborn! - completou Beldarak, desferindo um violento chute contra o defunto.

Após completarem sua vingança, voltaram ao lugar onde antes ficava sua antiga casa e ali fizeram um memorial em homenagem aos seus pais:

Em memória de Elga Salazard Frind.
Mãe amada, dedicada e gentil.

Em memória de Frostborn Domeni.
Pai atencioso, carinhoso e leal.

Anos após aquilo, muio aconteceu na vida daqueles dois irmãos. Beldarak foi para o norte, além da nevada Cordilheira de Ether, juntando-se a um clã de assassinos. Ficou conhecido pelo título de: Beldarak Salazard, da casa Domeni, o andarilho das sombras, aquele que não pode ser visto. Sua fama tornou-se tão grande que muitos ainda hoje acreditam que ele não passa de lenda. Já Ledier teve um destino diferente. A vida dele estava envolvida em coisas muito grandes, tornando-se ele, talvez, peça chave nos eventos que decidiriam o destino de toda Criação. Houveram notícias de que ele esteve nas Profundezas Tártaras de Carceri, o plano prisão; e de que ele hoje monta dragões. Há quem diga também que ele possa ser o cavaleiro prateado da antiga profecia, o órfão destinado a levantar a espada que cortaria o mal do mundo.

Será que algum dia os irmãos Domeni lutarão lado a lado novamente? Isso só o futuro dirá, cabendo o simples ato de orar aos deuses, rogando pela vida dos dois.

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