segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Lorde Sarratina: O Monge Sarrador #2

Paimei andava lado a lado de seu mestre Chou Deji, dando passos firmes e decididos, sem sequer olhar para trás ou lamentar por tudo aquilo que deixara em Bellrock Valley: casa, família, amigos e, não podemos esquecer, novinhas. Vendo aquilo, Chou Deji admirou-se com a determinação daquele jovem rapaz, pois em seu olhar não havia arrependimento - somente a certeza de que alcançaria seus objetivos.

Os dois caminharam por vários dias, passando por paisagens que mudavam constantemente: florestas tão densas, onde nem mesmo a luz ousava entrar, planícies tão vastas que era possível ver o horizonte a quilômetros de distância. Paimei estava muito ansioso e cheio de perguntas para fazer a Chou, mas também estava acanhado. Seu mestre era um homem claramente bastante sábio, um membro veterano do Clã da Sarradas Aéreas; Paimei não queria decepcioná-lo, então resolver permanecer em silêncio. Sendo assim, todo o início da viagem foi tomado por esse infindável silêncio. Quando Chou Deji finalmente deu sinais de que ia dizer algo, Paimei imediatamente voltou toda sua atenção para ouvir o que seu mestre teria a dizer:

- Você precisa ter mais atenção, meu jovem. Quando, por exemplo, dirá seu nome? - disse Chou Deji, em tom de repreensão, mas deixando escapar um leve sorriso. - Saiu com tanta pressa do vilarejo que esqueceu de se apresentar.

- Tem razão, mestre. Perdoe-me, por favor. Meu nome é Paimei. - respondeu, preocupado com a impressão que havia passado a seu mestre.

Ao ouvir o nome, Chou Deji imediatamente se lembrou de um antigo aprendiz, e velho amigo, o outrora grande Paimei, conhecido por suas incríveis habilidades com a sarrada - era um forte candidato a conseguir reproduzir a lendária sarrada aérea. Lembrou-se que, em seu auge, Paimei tinha poder para sarrar até os mais antigos dragões e mais poderosos abissais.

- Recebi o mesmo nome que meu avô, ele também foi um monge do seu clã. - acrescentou Paimei, muito sorridente.

Chou logo teve certeza que sua parada em Bellrock Valley não fora mera coincidência, mas sim uma obra do destino. Naquele dia, eles caminharam incessantemente, do nascer do sol ao nascer da lua. Quando Chou avistou um bom lugar para acampar, fez um sinal de pausa, virando-se para Paimei e dizendo:

- Mostre-me.

Paimei rapidamente entendeu do que se tratava: largou seus pertences no chão e pôs-se a sarrar. Sarrou para a esquerda e sarrou para a direita, sarrou o chão e sarrou as árvores, sarrou as pedras e seus pertences. Ao ver tal demonstração, Chou Deji ficou bastante impressionado. Era incrível que, mesmo após caminhar tanto, Paimei ainda conseguisse desferir sarradas daquele nível. Seus movimentos eram impecáveis. Seu ritmo? Vigoroso, mas com uma precisão cirúrgica. Era incansável. Chou Deji estava maravilhado. Era lindo. Suas sarradas eram rápidas e cheias de vida. Completamente espetaculares. E o que tornava tudo ainda mais fantástico era o fato de Paimei nunca ter recebido algum tipo de treinamento especial. Após testemunhar as sarradas de Paimei e ter a certeza de que o rapaz era um sarrador nato, Chou Deji não se permitiu esboçar reação, não disse sequer um elogio. Apesar de ter talento, era certo que Paimei ainda tinha muito a aprender, além de um longo caminho a percorrer até alcançar seu objetivo de tornar-se um monge sarrador.

Após terminar a exibição de sarradas, os dois começaram a preparar o acampamento. Paimei agora estava mais à vontade para falar com seu mestre, não perdendo a oportunidade de fazer uma enxurrada de perguntas quando teve a oportunidade.

- Você chegou a conhecer meu avô no clã? Para onde estamos indo? Vai demorar muito para chegarmos lá? E como é o lugar? Como são as pessoas que vivem por lá? O que o senhor irá me ensinar? Irá ensinar-me algo sobre a sarrada lendária? Quanto temp... - perguntou Paimei, sendo abruptamente interrompido por Chou.

- Mais atenção Paimei! Você precisa ter mais atenção! - advertiu Chou Deji, mostrando-lhe que novamente perdera o foco, distraindo-se e deixando-se levar pela curiosidade. - Mas respondendo sua pergunta: sim, eu conheci o seu avô. Ele foi meu aprendiz, além de ter sido um grande amigo.

Ao ouvir aquilo, Paimei esboçou um sorriso cheio de dentes. Estava muito orgulhoso. Sua felicidade por ter a honra de treinar com o mesmo mestre que seu avô era tanta, que nem deixou-se abater pela advertência que recebera.

- E sobre as outras dúvidas, bem... Seja calmo e paciente, pois todas elas serão respondidas em seu devido tempo. - completou Chou Deji, enquanto deitava e preparava-se para dormir. - Já sobre a sarrada lendária: ela não é algo que eu possa ensinar, você terá que descobri-la por conta própria.

Paimei entendeu que aquele dia acabara ali e que precisava descansar para caminhar novamente, logo ao amanhecer. Antes disso, recolheu seus pertences, tirando um pedaço generoso de pão de seu saco e pegando o cantil de água. Enquanto se alimentava, Paimei olhou para Chou Deji, que já dormia tranquilamente, impressionando-se com a resistência dele: haviam caminhado durante todo o dia, mas ele não havia comido ou bebido nada, nem sequer uma migalha de pão. Após a refeição, Paimei tombou e dormiu tão profundamente que parecia ter sido atingido por uma magia de sono - estava exausto.

Na manhã seguinte, Paimei ainda dormia, quando começou a ser cutucado por seu mestre, que tentava acordá-lo.

- Ei garoto, acorda! Já é dia! - exclamou Chou Deji.

Ainda sonolento, Paimei revirou-se no chão, resmungando algumas palavras, como se pedisse mais alguns minutos, voltando a dormir logo em seguida. Presenciando essa cena lamentável, Chou Deji, desferindo um poderoso chute, levantou o rapaz do chão.

- VAMOS EM FRENTE, POIS ATRÁS VEM GENTE! - gritou, para o espanto de Paimei.

Paimei, como um gato assustado, caiu de pé,cheio de pedaços de grama em seu rosto e uma marca de pé em sua costela. Já seu mestre, gargalhava como uma criança, divertindo-se com o susto que Paimei havia levado. Acanhado, Paimei desculpou-se com seu mestre, recolhendo em seguida seus pertences. Seguiram adiante com a viagem, sem mais delongas.

- Mestre, posso fazer-lhe duas perguntas? - perguntou Paimei, respeitosamente, após alguns minutos de caminhada.

Chou Deji, acenando com a cabeça, permitiu as perguntas. Percebeu que Paimei já começara a se policiar, para não cometer os mesmos erros de antes.

- Como o senhor pode ter sido mestre do meu avô, haja vista que ele morreu há muitos anos atrás? - perguntou, bastante intrigado. - Além disso, como o senhor pode passar um dia inteiro caminhando incessantemente, sem ao menos comer ou beber e ainda assim ter tanta força e disposição?

Chou Deji apenas deu olhar para ele, sorriu e voltou a andar. Paimei não entendeu o motivo daquilo, mas lembrou-se do que seu mestre havia dito antes: que todas as dúvidas que tinha seriam respondidas em seu devido tempo. Então, voltou a andar, pensando no quanto queria chegar logo ao seu destino, para assim poder começar seu treinamento o quanto antes. Todavia, mal sabia Paimei que seu treinamento já havia começado.

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