segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Lorde Sarratina: O Homem que Sarrou o Ar

Nos tempos antigos, antes mesmo do estabelecimento dos reinos hoje poderosos, havia uma região na banda oriental do continente conhecida por suas grandes jazidas de ouro. Lá a riqueza e a boa vida eram abundantes - pelo menos para os mais poderosos. Reis e rainhas que tinham tudo e viviam no luxo absoluto coexistiam com mineradores e pescadores que viviam do pouco que para eles sobrava. Apesar disso, não haviam questionamentos. Esse estilo de vida estava tão intrínseco ali, que para todos era algo normal. Bem, pelo menos foi assim até antes do príncipe Chou, da casa Deji, vir ao mundo.

Chou Deji foi criado por seus pais, os governantes do reino de Manchuk, para tornar-se um rei poderoso, como os grandes antecessores provenientes de sua casa haviam sido. O rei certificava-se de garantir que Chou tivesse tudo aos seus pés, para que nem ao menos precisasse sair do palácio real. Porém, o jovem rapaz não estava feliz com aquilo. Sentia que precisava de algo que dinheiro nenhum poderia comprar e que livro nenhum poderia explicar: o propósito final da vida. Isso provocava nele um sentimento tão profundo de vazio e impotência, que enfim decidiu que precisava libertar-se das amarras impostas por seus pais e escapar mundo à fora. Fugiu do palácio em uma noite tempestuosa, aproveitando o barulho da tormenta para esgueirar-se sem ser notado.

Já do lado de fora, foi em direção às regiões mais pobres do reino. Vagou por elas, mendigando e sobrevivendo com as esmolas que conseguia. Sua vida havia mudado completamente: do glamour da nobreza à miséria completa; porém ele acreditava que estava caminhando na direção correta, estando cada vez mais próximo da verdade que se escondia por trás da vida. Chou tornou-se um asceta, acreditando que para chegar em seu objetivo precisava aperfeiçoar seu corpo e sua mente, através de um rigoroso conjunto de práticas de autocontrole, além de uma série de privações - por isso abandonara suas riquezas. Entretanto, precisava também encontrar alguém para lhe ensinar, alguém para transmitir-lhe conhecimento, o que revelara-se um grande desafio.

Durante meses de peregrinação e mortificação, não havia encontrado ninguém que pudesse colaborar com seus propósitos. Estava quase perdendo as esperanças quando um dia, enquanto caminhava pelas proximidades do Beco Novin - uma área evitada até pelo mais pobres, conhecida pelos vários desaparecimentos que ali ocorriam -, deparou-se com um pequeno menino, que dançava e se divertia, como se as dificuldades de sua condição precária de vida tivessem desaparecido. Vendo aquilo, Chou ficou muito intrigado, aproximando-se logo dele, a fim de descobrir o que fazia aquele menino estar tão feliz.

- O que alegra-te tanto, jovem rapaz? - perguntou.

Ouvindo aquilo, o menino parou de dançar, mas manteve um grande sorriso no rosto. Apontou então para a direção onde ficava a entrada do Beco Novin e saiu em disparada para lá.

- Jovem! Por favor, espere! - gritou, inutilmente.

O menino rapidamente desapareceu em meio a um corredor escuro, entre algumas casas. Chou ficou atônito, não pensando duas vezes antes de ir atrás do fujão. Porém, quando chegou em frente à entrada do corredor, percebeu um ar sinistro pelo lugar e uma melodia, que ecoava desde as profundezas, mas não conseguia entender o que estava sendo cantado. Chou entendeu rapidamente que aquele som misterioso, de alguma forma, estava tentando atraí-lo e, ao lembrar das histórias que ouvira sobre o Beco Novin, deu-se conta que aquele lugar à sua frente era o tal beco. Não sentindo qualquer medo, ele adentrou a estreita passagem, seguindo adiante sem hesitar. Por mais que andasse, não conseguia ver um final para o beco, que parecia se estender por quilômetros - apesar de não haver tantas casas assim na área (na realidade haviam pouquíssimas). Chou sabia que estava lidando com forças não naturais. Aquilo certamente era magia.

Após caminhar por todo um dia, a melodia começou a ficar mais nítida. Assim, ele finalmente conseguiu compreender o que estava sendo cantado:

Vou te levar pro beco
Do beco você não escapa
Vai levar uma sarrada
Vai levar uma sarrada
Vai levar uma sarrada
Vai levar uma sarrada

A melodia era envolvente, repetindo diversas vezes a mesma estrofe. Chou, mesmo sem compreender o que significava aquilo, começou a mover seu corpo, num movimento sarrático. Ele estava seguindo tranquilamente adiante cantando e dançando, sarrando e divertindo-se. Pensou que se aquilo realmente fosse magia, era uma extremamente poderosa. A sensação de prazer que estava sentindo era tanta, que mesmo sendo, de certa forma, controlado por aquele som, não conseguiu ficar preocupado ou receoso. Ao seu redor só via a escuridão e casas, que pareciam estenderem-se infinitamente. Não havia qualquer sinal de vida, tanto no corredor quanto nas tais casas.

Após mais dois dias caminhando e sarrando - estranhamente não tendo precisado se alimentar, nem se hidratar e muito menos dormir - viu o que parecia ser uma luz ao fim do beco. Estava prestes a chegar em seu tão aguardado destino, quando percebeu que as palavras que estavam sendo cantadas mudaram:

O novo lançamento
É do beco que tá lançando
Quando encosta no baile
Vai sarrando, vai sarrando
Quando encosta no baile
Vai sarrando, vai sarrando
Preste muita atenção
Escuta o que eu "tô" te falando:
Vai sarrando, vai sarrando

Quando atravessou o arco iluminado ao fim do beco, Chou Deji maravilhou-se. Havia todo um mundo ali. Uma linda e vibrante cidade, onde todos eram iguais, onde a felicidade e o amor eram os princípios primeiros da manutenção da paz e da ordem. Todos simplesmente sarravam, despreocupadamente. Tudo era mantido pelo calor da sarrada. Vendo aquilo, caminhando por entre aquelas pessoas e sentindo na pele o que elas sentiam, ele descobriu a verdade que procurava: o propósito final da vida era a sarrada. Logo ele entendeu que a vida certamente surgiu através da sarrada e que é por ela, e somente por ela, que poderá ser mantida. A verdade fora descoberta, mas o mundo ainda não a conhecia. Ninguém, além dos que ali estavam, entendia. Pensando nisso, procurou pela cidade até um encontrar um sábio mestre sarrador, de nome Jung Daehyun - um homem experiente e bem vivido, que morava num sobradinho localizado na área mais suburbana da cidade.

- Filho, a sarrada existe aqui e somente aqui. Não pode ser levada para o mundo além do beco. - disse Daehyun, enquanto sarrava uma parede próxima. - Ela surgiu aqui, após uma anomalia na magia primordial que fluía em nosso plano. Ela é tão antiga quanto os primeiros homens. Sarrar não é simplesmente movimentar o corpo, mas sim utilizar da energia que flui em nós para acessar as maravilhas dos resquícios de primórdio que aqui se encontram. Entende o que digo?

- Eu entendo, mestre. Porém tem de haver um jeito. O mundo precisa conhecer isso. - respondeu Chou Deji, enquanto deitava-se e sarrava o chão.

- Desista, filho. É impossível. E mesmo que, por algum milagre, a sarrada pudesse ocorrer fora dos limites de Beco Novin, eu não acredito que o mundo esteja pronto para ela. - explicou, enquanto sarrava um cacto.

Insatisfeito, Chou Deji deixou os ensinamentos de Daehyun e, usando todas as forças de seu corpo, saiu de Beco Novin. Não conseguia se conformar com o fato de a sarrada só poder ocorrer lá. Queria que todos sentissem aquela felicidade, que todos alcançassem a verdade. Já no mundo exterior, ele realmente não conseguia mais sarrar. Algo que fazia a todo tempo, agora, por mais que tentasse, simplesmente não conseguia. Suas necessidades de comer, beber e dormir também retornaram, voltou a sentir cansaço e os sentimentos negativos voltaram a assombrá-lo. Tudo era frio e melancólico sem as sarradas. Tentou de todas as formas possíveis fazer a sarrada, mas sempre sem sucesso. Tentou sarrar árvores, pedras e casas, mas nada acontecia. "Sarrar não é simplesmente movimentar o corpo, mas sim utilizar da energia que flui em nós para acessar as maravilhas dos resquícios de primórdio que aqui se encontram" - as palavras de seu antigo mestre não saíam de sua cabeça.

Quando já estava ficando sem esperanças e depressivo - estava numa profunda crise de abstinência de sarradas -, decidiu fazer um último movimento desesperado. Privando-se completamente de toda e qualquer comida ou bebida, partiu em uma longa viagem até uma gigantesca montanha, a qual possuía em sua face um enorme paredão rochoso. Eram vários quilômetros de altura. Chou Deji escalou durante dois dias o paredão, até finalmente conseguir alcançar o topo. Quando chegou, sentou-se à beira do abismo, contemplando a vista e iniciando assim um período de intensa meditação.

Ele meditou durante quarenta e nove dias, completamente imóvel durante todo esse tempo. Não comeu, não bebeu e não dormiu, só meditou. Ficou sujeito às intempéries, sem se abalar. Foi açoitado por tempestades de vento violentas e assolado pelo frio inexorável das alturas. Estava prestes a morrer quando, no quinquagésimo dia, um forte raio caiu sobre a face da rocha abaixo dele, derrubando tudo em volta nas profundezas do abismo. Enquanto caía, Chou abriu seus olhos e chorou. Culpou-se por seu fracasso, amaldiçoando o dia no qual nascera. Estava prestes a desistir completamente, quando lembrou-se da felicidade que sentia ao sarrar, do prazer que aquilo o proporcionara. Mesmo com seu corpo devastado pela mortificante meditação, ele criou forças, posicionando firmemente seus braços na posição correta para a sarrada, remexendo também seus quadris, de forma milimetricamente calculada. E foi assim que, num único e decisivo movimento, aquele homem determinado, em plena queda e num estado de completo desgaste físico e emocional, fez o que ninguém jamais havia feito: ele sarrou o ar.

Aquela sarrada não foi uma sarrada qualquer. Sarrar o ar não consiste em simplesmente realizar uma sarrada no vazio, sem ter um alvo específico. Sarrar o ar, significa sarrar a própria matéria que constitui o tecido da realidade. Aquele homem, além de ter sarrado fora de Beco Novin, mudou o mundo para sempre. A glória de sua sarrada foi tão majestosa, que a onda de choque criada a partir dela reverberou por toda a Criação. Todo o mundo, todos os seres - mortais e imortais, abominações e divindades - e todos os planos do multiverso sentiram, momentaneamente, a sensação de terem sido sarrados.

Chou Deji sarrou o próprio primórdio, acessando seu poder e tornando-se, consequentemente, uma divindade primordial.

Após aquela lendária sarrada, Chou Deji levou a doutrina da sarrada ao mundo. Difundiu os ensinamentos sarráticos por onde passava, conquistando muitos para sua causa e criando aprendizes fiéis - que logo depois tornaram-se mestres. Utilizando o Beco Novin como sede, fundou o Clã das Sarradas Aéreas, onde novos monges e clérigos passaram a ser treinados - os clérigos com a função de espalhar a palavra da sarrada e os monges com a função de manter o poder da sarrada. A sarrada aérea de Chou Deji, permitiu que todos sarrassem livremente (em qualquer lugar, de qualquer plano), mas ninguém podia reproduzi-la. Após quarenta e cinco anos de magistério, decidiu então retirar-se, confiando em seus amados discípulos para seguirem sua missão.

Ele vagou pelos planos durante centenas de anos, sozinho, em busca de alguém que pudesse manter a sarrada aérea viva no mundo não-divino. Sua jornada não parecia ter fim, até o fatídico dia no qual encontraria um determinado jovem elfo, com grande potencial em suas sarradas.

3 comentários:

  1. essa história acontece antes do monge sarrador né?

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    1. Olá, Alex!
      Bom dia.

      Sim, "O Homem que Sarrou o Ar" acontece bem antes da série "Monge Sarrador". Aliás, como você deve ter percebido, Chou Deji é justamente o mestre de Paimei, o monge.

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