segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Hello, It's Me


         

- Posso ajudá-lo? - perguntou, cabisbaixa.

Léo estava especialmente empático diante daquela senhorita à sua frente. Não que fosse uma pessoa marcada pela intromissão na vida alheia, mas ele a havia observado por toda sua estadia na pequena cafeteira; tendo assim aprendido uma coisa ou outra, enquanto a via deixar-se afetar pela música ambiente. Ele podia ser só um qualquer, um desajeitado, mas era um "qualquer" do tipo observador. Sabe aquele jogo do "conte até 3 e vá até o crush"? Pois bem, ele era conhecido por sempre perder - vergonhosamente. Porém, de tanto jogar, adquiriu "habilidades". Nada que realmente o ajudasse com o "jogo", mas algo que talvez o ajudasse a ser humano.

Seu olhar era clínico e seu coração benevolente. Quantas vezes estendeu a mão - e a emoção - a alguém necessitado? Uma centena de vezes. Quantas vezes já havia consolado um amigo após perceber que ele não estava bem - mesmo que não demonstrasse? Já perdera a conta. Quantas vezes abraçou aquele parente, isolado no canto, que precisava muito de uma demonstração de afeto? Isso ele nem chegou a contar. Léo sabia que tinha um grande poder e também que, com esse grande poder, vinha uma grande responsabilidade - havia visto isso em algum filme, adotou logo para si. Todavia, ele nunca havia pensado nisso como algo realmente importante - pelo menos não até o dia de hoje.

- Cafeteria: envolvida pela melancolia de Adele, você deixou-se levar por suas palavras. Num ritmo tal, que pude perceber, através de seus pesares, que não simplesmente seguia sua voz compassadamente, mas ia e vinha nas declarações da arrependida "eu lírica": você fala inglês ou ao menos compreende suficientemente bem. Seu olhar cabisbaixo, querendo achar um fio de esperança ao qual se agarrar, era um sinal claro de que procurava o "tempo" no qual esqueceria - o que, pela forma como se deu, também indicava algo recente. As carícias que dava em sua própria mão direita, focando o dedo anelar, indicavam que certamente perdera seu noivo. Quando ela levantava o tom para declarar que ele "parecia nunca estar em casa", era claro o aumento no acúmulo de umidade ao redor de seus olhos. Creio eu que ele tenha falecido. Quando então ela cita que queria desculpar-se por partir-lhe o coração, pude notar uma pequena pausa na cadeia de reações condicionadas pela letra: vocês estavam bem, quando a tragédia ocorreu. Você levantou apressadamente dali no instante em que ela resolveu deixar claro que "não mais". - disse, docilmente, dando uma curta pausa para observar o pálido rosto dela e seu lacrimejante olhar. - Desculpe-me por invadir sua privacidade, mas não pude me conter. Você não está sozinha, nunca estará. O "tempo" que você procura pode nunca chegar, mas, no poema da sua vida, o "eu lírico" não precisa ater-se a tal forma de métrica. Disque outro número e alguém atenderá. - terminou, dando um sorriso sincero e afetuoso.

- Olá... Sou eu. - disse a jovem, em lágrimas, enquanto olhava para Léo com um triste sorriso em seu rosto.

- Olá. Eu posso te ouvir. - respondeu, abraçando-a fortemente.

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