terça-feira, 16 de agosto de 2016

Entre Deuses e Homens: Capítulo 2

ENTRE DEUSES E HOMENS
CANÇÃO DO DESEQUILÍBRIO


CAPÍTULO 2
Derradeira Esperança


Ledier era um homem robusto e bastante ágil. Seus movimentos, suaves e fluídos, contrastavam com o peso que carregava em forma de armadura e armamento. Todavia,  vigor não era a única coisa que se destacava em Ledier: sua presença transmitia uma sensação de paz e tranquilidade, como se uma aura de positividade o envolvesse. Porém, era como se essa aura também emitisse uma pressão sobrenatural, indicando que aquele homem não era uma pessoa com a qual se devesse brincar. Para Tobias, que tinha uma afinidade com magia de procedência divina, sentir o poder envolvendo Ledier era uma tarefa simples. Ele não demorou a perceber que aquela pessoa que o salvara, certamente devia ser um paladino,  que fora abençoado grandemente por sua divindade.

- Ainda não acabou! - gritou Ledier, enquanto levantava-se e preparava seu ataque.

Canalizando o poder de Pelor em sua espada, ele saltou contra o besteiro rapidamente, num movimento inacreditável, cortando com um movimento letal seu peito e seu fôlego vital. Os outros cavaleiros, vendo que agora estavam em desvantagem numérica e técnica, começaram a gritar palavras incompreensíveis, enquanto olhavam ao redor, como se estivessem tentando chamar a atenção dos abissais ali presentes.

- É o idioma infernal. Eles estão oferecendo dinheiro aos mezzoloths por nossas cabeças. - explicou Ledier. - Precisamos sair daqui imediatamente. Como estão seus ferimentos? - perguntou, tendo em vista Paimei.

- Pffft! Você diz esses arranhões aqui? - desdenhou Paimei, arqueado, enquanto apontava para a lança fincada em suas costas. - Isso não é nada! - ele então puxou as lanças com bastante força, retirando-as de seu corpo, mas bambeando em seguida, perdendo os sentidos pouco depois, devido ao intenso sangramento.

- Temos um amigo lá fora capaz de nos teleportar daqui. Entrarei em contato com ele através de telepatia. - argumentou Tobias, enquanto abaixava-se para socorrer Paimei. - Pode me conseguir algum tempo? Preciso prestar os primeiros socorros.

- Os mezzoloths não estão convencidos de que aqueles homens podem lhes pagar. Temos algum tempo, mas seja breve. - disse Ledier, concentrado nos cavaleiros.

Dito isto, Tobias retirou um tubo de marfim de sua sacola, onde um pergaminho antigo em papiro se escondia. Nele haviam inscrições rúnicas, elaborando um místico texto. Tobias então começou a ler aquilo, de forma fluída, fazendo com que as runas ali escritas desaparecessem conforme as lia.

- Houston... Digo, Calter, temos um problema.  - disse Tobias, em pensamento.

Lá fora, Gillion e Calter engalfinhavam-se ferozmente com os mezzoloths - o grupo de insetóides. O falcão Mardallis, mais experiente em combate corporal, usava seu arco como uma espécie de porrete, tentando manter os cinco inimigos afastados do vulnerável bruxo. Calter, não estando em uma posição favorável para tentar conjurar algo, tentava ajudar Gillion da maneira que podia, atacando com pedras.

- Nós também não estamos nada bem. - respondeu Calter a Tobias, através da conexão telepática. - Era uma emboscada. Estamos sendo atacados por cinco inimigos, não estou em condições de conjurar.

- Há um paladino aqui que parece ser um aliado; sinto uma aura benigna nele. Ele nos salvou do ataque dos cavaleiros, mas Paimei acabou sendo ferido; está inconsciente. - resumiu. - Dois inimigos já estão mortos, mas os outros dois estão tentando contratar os insetóides para irem contra nós.

- Entendi. Então, acho que situações desesperadas pedem medidas desesperadas. - finalizou Calter, levantando-se e partindo correndo para dentro da fortaleza. - Gillion, preciso agir. - deu o alerta ao falcão, que estava tendo dificuldades.

- Faça... - bradou Gillion, enquanto golpeava com seu arco na face de um mezzoloth. - Como... - acrescentou, agachando-se e assim desviando de uma estocada inimiga. - Quiser. - completou, sendo então acertado de raspão no ombro.

Ao entrar, Calter viu o pomposo paladino digladiando contra um dos cavaleiros - desmontado de seu pesadelo -, em uma luta equilibrada. O segundo vociferava para os abissais, recebendo uivos e vaias em troca. Já Tobias, estava ajoelhado diante Paimei, com suas mãos estendidas sobre ele, emanando uma tênue luz esverdeada.

- Tobias! Estou aqui. - comunicou Calter, gritando com sua voz telepática.

- Ei, mais baixo. Estou tentando me concentrar aqui, se não se importa. - repreendeu. - E como está Gillion?

- Ele dá conta. - respondeu, em tom de descaso. - Por ora, preciso que mande seu amigo se afastar.

- O que pretende fazer?

- Esquentar as coisas. - respondeu, com um sorriso suspeito em seu rosto.

- Você está com aquela cara que sempre faz quando está prestes a fazer algo estúpido, não está? - indagou Tobias, preocupado.

- Não, relaxa. - disse, com uma expressão maníaca em seu rosto. - Só, por favor, faça o que pedi.

- Ledier, afaste-se do cavaleiro! Agora! - gritou Tobias, em alta voz.

Ouvindo aquilo, Ledier não pensou duas vezes: protegendo-se com seu escudo, investiu velozmente contra o corpo do cavaleiro, fazendo-o perder o equilíbrio. Aproveitando então esse momento, Ledier desengajou da batalha, recuando rapidamente. Assim que percebeu que ele havia tomado distância suficiente, Calter retirou de sua mochila um punhado de enxofre batido em guano de morcegos, manipulou aquilo com as mãos e então recitou algumas palavras místicas, transformando assim aquela fétida massa em uma esfera ardente de fogo, que eclodiu furiosamente, projetando-se na direção dos cavaleiros.

- Queime, queime tudo! - exclamou Calter, gargalhando ensandecidamente.

Ao perceber aquilo, o cavaleiro montado parou imediatamente de negociar com os mezzoloths, reclinando-se em seu pesadelo e beneficiando-se assim de suas habilidades sobrenaturais, que tornavam ambos resistentes ao fogo. Já seu companheiro, desamparado, foi atingido sem poder esboçar reação, queimando agonizantemente até a morte. Após aquilo, um silêncio profundo tomou conta do lugar. Todos que ali estavam passaram a fitar Calter, numa rajada de olhares penetrantes.
 
- Está louco, Calter? - reclamou Tobias, telepaticamente. - Uma bola de fogo, sério mesmo?

- Pelo menos obtive resultados. - retrucou.
Ainda atônito, o cavaleiro então ergueu sua espada e começou a bradar com todo seu fôlego, dirigindo-se aos abissais, em sua língua.

- Problemas! Não há mais tempo! Temos que sair daqui, AGORA! - gritou Ledier.

- Calter, teleporte todos para fora! - ordenou Tobias telepaticamente, compreendendo rapidamente a gravidade da situação.

- Não! - gritou Paimei, com voz rouca, enquanto recobrava a consciência e segurava Tobias pelo braço. - Eu conheço esse olhar. Eu não vou sair daqui sem levar esses pangarés do tinhoso comigo! Se não quiser levá-los, deixe-me aqui que dou meu jeito.

- Espere, Calter. - disse Tobias, por telepatia. - Está louco, Paimei? Não temos tempo. O inimigo parece já estar convencendo os abissais a nos atacarem. Ficar é morte certa. Você não está em condições de fazer algo sozinho. Até pouco tempo atrás estava jorrando sangue.

- Não saio sem eles. - disse firmemente, com um olhar incendiado pela determinação de suas palavras. - Você por acaso tem noção do que vai acontecer quando eu chegar no baile montado em um desses? As novinhas vão ficar loucas, vão perder a linha. Mano... Não saio sem eles.

Entendendo que Paimei não mudaria de ideia, Tobias, canalizando toda sua energia em suas palavras, começou a conjurar sua mais poderosa magia curativa. Uma forte luz então preencheu o lugar, enquanto os ferimentos de Paimei cicatrizavam e seu fôlego era restaurado.

- Dei tudo de mim nisso. Agradeça a Helm por sua infinita misericórdia. Até que eu recupere minhas forças, não poderei curar ninguém com magia. - murmurou Tobias, ofegante. - Espero que você tenha um plano. Há vidas em jogo.

- Plano? Pra que plano? - desdenhou Paimei, levantando-se num pulo. - O papai está de volta, filhão! - completou Paimei, partindo em disparada na direção dos pesadelos, que vagueavam pelo lugar, sem seus mestres.

- Ledier, vamos! - gritou Tobias. - Calter, você também. - acrescentou, telepaticamente.

Nesse momento, todos os mezzoloths ali presentes sacaram suas armas e partiram, gritando furiosamente e proferindo blasfêmias, em seu idioma profano. Ledier, vendo que a hora era chegada, clamou o nome de Pelor e, em um poderoso golpe, acertou o chão com sua espada, causando uma onda destrutiva, imbuída de energia divina, que se propagou em todas as direções. O choque dessa onda derrubou diversos mezzoloths ao chão, que passaram a cair um por cima do outro, criando um verdadeiro dominó de insetóides. O cavaleiro, diante de tanto poder, acabou caindo de seu pesadelo, que empinara assustado. Já as criaturas aladas de aparência demoníaca que ali estavam, permaneceram em seus lugares, neutros naquele confronto. Não eram mercenários. Ledier sabia disso e, para não provocá-los, não deixou que sua magia os afetasse - assim como não deixou afetar seus aliados.

- Por que não disse antes que podia fazer isso? - questionou Tobias, já próximo de Ledier.

- Um bom paladino nunca revela seus truques. - respondeu, com um sorriso orgulhoso em seu rosto.

Não demorou para que chegassem até Calter, seguindo assim os três em direção à entrada. Olhando para trás, viam aquele mar de mezzoloths se pisoteando, enquanto os demônios alados zombavam deles ruidosamente.

- Hi-yoooo, Silveeeer! - gritou Paimei, galopando pelo ar em um pesadelo, enquanto segurava outro pela rédea. - Vamos em frente, pois atrás vem gente!

Saindo do lugar, encontraram Gillion jogado sobre o cadáver surrado de um mezzoloth, com uma de suas grevas nas mãos. Ele estava bastante ferido, mas ainda vivo e consciente. Seu arco estava jogado ao chão, em pedaços. Já as flechas de sua aljava, todas partidas.

- Só corre, Gillion. Só corre. - aconselhou Calter, enquanto passava por correndo por ele. - Não quero nem saber o que aconteceu aqui fora.

Da entrada, Gillion conseguia ouvir os gritos cheios de ódio das criaturas que, já tendo levantado, corriam atrás deles.

- Entrega para Gillion Mardallis! - gritou Paimei, enquanto saia abruptamente de dentro da fortaleza. - Monte nele, rápido!

Sem perder tempo, Gillion levantou-se e subiu no pesadelo, dando comando para que ele seguisse em frente. Os outros três corriam apressadamente pelas terras úmidas, com Ledier à frente. Quando chegaram na porta, os mezzoloths atropelaram uns aos outros, tentando forçar a passagem, todos ao mesmo tempo. Mais uma vez cairam ao chão, num movimento pouco inteligente - para a diversão dos demônios dentro da fortaleza, que assistiam atentamente ao espetáculo. Os que permaneceram de pé, simplesmente desistiram de continuar a perseguição. Olharam então para trás e viram o cavaleiro que os havia convencido com um olhar de cobrança, alimentado pela raiva: alguém tinha que pagar por aquilo.

Horas depois, os cinco homens reuniram-se para descansar e tratar de suas feridas. Paimei, apesar de ter sido curado, desfaleceu de exaustão, devido ao estresse físico. Acendendo uma fogueira e dividindo a comida que levava consigo com os aventureiros, Ledier começou então a se apresentar e a explicar o que fazia naquele lugar.

- Senhores, sou Ledier, da casa Domeni. Conhecido como o campeão da justiça e cavaleiro vingador. Sou um paladino fiel a Pelor, enviado aqui para cumprir seus desígnios. Vossa Santidade enviou-me aqui, em missão, para que eu os encontrasse. Foi dito a mim que eu vos acharia no Bastião da Derradeira Esperança, então lá esperei. Quando vi vocês, imediatamente reconheci que eram as pessoas certas, por isso os ajudei.

- Por que motivo Pelor o enviaria até nós? - perguntou Tobias, desconfiado.

- A vontade de Pelor está muito além do que mentes mortais podem compreender. Vossa Santidade não me detalhou seus propósitos, mas certamente minha presença aqui tem relação a Atrocitus.

- Atrocitus!? - bradou Gillion. - O que sabe sobre ele? Que relação é essa? É melhor escolher bem suas palavras daqui pra frente, paladino.

- Acalme-se. - disse, em tom manso. - O que você sabe é que Atrocitus adquiriu um poder antigo e aliou-se a Vecna. O que você não sabe é que seu objetivo é eliminar os deuses, tendo ele iniciado campanhas militares grandiosas no plano material, a fim de adquirir poder para tal. Ele tornou-se uma divindade, mas não se deu por satisfeito. Pelor preocupa-se com a crescente ganância de Atrocitus e repudia seus atos cruéis. Por algum motivo, Vossa Santidade acredita que vocês possam ajudar a pará-lo, mas precisam de minha ajuda nessa tarefa.

- Isso é coisa demais para processar assim. O que temos com Pelor? Absolutamente nada. - argumentou Calter. - Queremos nos vingar, mas Carceri nos mantém reféns. Assim como mantém você. Não há como sair desse lugar, acredite. Há dois anos tentamos, sem sucesso. Não fale como se você ou seu deus fossem grande coisa aqui. 

- Por ser domínio do maligno Nerull, Pelor não pode nos tirar daqui. Porém, não acredito que Pelor me enviaria aqui sem que fosse possível sair. Atrocitus está no plano material, não em Carceri. - retrucou Ledier. - E acredito que Vossa Santidade já tenha indicado a saída para essa questão.

- Que seria...? - perguntou Tobias.

- Foi-me dito que, após encontrar com vocês, alguém viria a nosso encontro. Alguém que luta pela mesma causa de Pelor, mas não necessariamente seu aliado: um enviado de outro deus. - respondeu.

- De que deus? - a desconfiança de Gillion não diminuía.

- Não sei responder, pois isso que disse é tudo o que sei. - explicou. - Resta a nós somente esperar.

E assim foi: esperaram durante alguns dias, caminhando por Carceri, fugindo de seus perigos; até finalmente o enviado surgir diante deles. Foi durante uma de suas paradas para descanso que avistaram um homem encapuzado, andando calmamente em direção a eles. Ledier e Tobias imediatamente perceberam a intensa aura benigna que o envolvia, tranquilizando assim todo grupo. O homem tinha a aparência de um senhor de idade bastante avançada, com barba e cabelos brancos. Em volta dele, sete esferas luminosas flutuavam, num ritmo sincronizado. Os aventureiros o fitaram quietos e passivos, mas atentos a qualquer atividade suspeita. Quando o homem finalmente chegou até onde eles estavam, abriu um grande sorriso e saudou-os dizendo:

- Que a graça de Bahamut esteja sobre vós.

Um comentário: