quarta-feira, 24 de agosto de 2016

O Cavaleiro Vingador: Velhos Fantasmas #1

O ambiente estava estranhamente escuro. A névoa, mais densa que de costume. A chuva caía no rosto de Ledier, que estava caído numa poça de lama e sangue. Seu olhar fitava o firmamento, contemplando as gotas que vinham de encontro a seu rosto. A chuva, chocando-se contra a armadura, produzia sons ritmados que se confundiam com os gritos que ecoavam pelo lugar. Ledier já havia se acostumado com aquilo, os gemidos e as súplicas não lhe incomodavam. Seu corpo emanava uma forte energia, que o fazia reluzir como uma tocha dentro daquela armadura, feita de um metal anômalo de cor dourada. Ela possuía detalhes brancos nas bordas, três espinhos pontiagudos nas manoplas e ostentava o símbolo de um sol na região do peitoral - Ledier sempre brincava sobre como Pelor tinha bom gosto para equipamento militar.  Além, da pomposa armadura, ele também portava um martelo bastante peculiar consigo: um que era envolto por uma forte corrente elétrica e disparava raios - no maior estilo "deus do trovão". Mas aquele martelo não estava mais em suas mãos. Onde estava? A resposta é simples: enterrado no que há poucos minutos atrás era o crânio de um bruxo. Um bruxo? Sim, e do tipo bem difícil de matar. Ledier havia lutado contra ele durante muito tempo, restando-lhe agora somente as forças necessárias para encarar o que estava bem diante dos seus olhos. Já não sentia suas pernas ou braços, somente o gosto de sangue em sua língua. Muito aconteceu para que Ledier chegasse àquele estado, então, para que entendamos bem, precisamos voltar alguns anos no tempo...

Os primeiros raios de sol já eram vistos acima da grande muralha de Galbatroh. Ledier já estava de pé; acordara cedo, em preparação para a viagem até Holly Gate Valley, onde compraria matéria-prima para a ferraria - o estoque de Alvor estava chegando ao fim num momento crítico: precisava trabalhar numa grande encomenda para o exército real. O velho ferreiro já não tinha o vigor de antes, quando ia e vinha carregando bigornas como se fossem sacos de plumas; seu corpo cansado não suportaria uma viagem tão longa. Holy Gate Valley, uma cidade de mineradores estranhamente civilizados, situava-se nove luas ao oeste. O lugar era reconhecido por todo o continente como sendo a fonte dos melhores metais, dado o alto teor de mineral de minério nas jazidas. A mineração atraía mercadores, que tornavam o lugar uma importante rota comercial - abastecendo o lugar com vinhos e seda da mais alta qualidade. Era um lugar próspero e vivo; um refúgio para sonhadores menos afortunados.

Ledier atrelou seu cavalo, guardando sua espada e seu escudo ao lado direito do belo  corcel negro - muito semelhante ao de seu pai -; no  lado esquerdo, um cantil com água e algumas  provisões acharam um local onde se esconder.

- Lembro-me de quando você e seu irmão  chegaram aqui: tão quietos e acuados, com aquele olhar assustado. Foi um verdadeiro desafio conquistar a confiança dos dois. Especialmente a sua. - disse Alvor, com um olhar repleto de saudosismo, enquanto  observava Ledier acertando os últimos detalhes antes da partida.

- Está nostálgico hoje, Alvor. O que aconteceu? Andou bebendo?  Não reclame se a úlcera atacar. - gracejou Ledier.

O velho então deu uma ruidosa gargalhada, entregando a Ledier uma bolsa com um pouco de tabaco e uma pequena garrafa de cerveja  preta - Alvor sabia que ele não resistia àquela combinação.

- Ah, venha cá, meu filho! - exclamou Alvor, partindo para um forte abraço em Ledier.

- Cuide-se, Alvor. Volto dentro de alguns dias. - disse, sentindo uma estranha sensação de preocupação em seu peito. Achou que não devia ser nada demais, somente sua imaginação pregando-lhe peças, então ignorou aquele sentimento. - Espero encontrar o estoque de vinho intacto quando voltar de Holy Gate. - disse, dando um último abraço em Alvor. Sem olhar para trás, subiu em seu cavalo e deu uma firme sacudida nas rédeas, pondo-o a marchar.

Ledier cavalgou pelas largas ruas de Galbatroh, enquanto ouvia o ressonante som dos cascos do cavalo colidindo contra a estrada, pavimentada com  pedras. Ele sentiu algo estranho aquele dia, como se algo estivesse fora do normal. Não sabia explicar exatamente o que era, mas parecia como um mal presságio, esgueirando-se em volta dele. Não tendo conseguido atribuir alguma lógica àquilo, preferiu mais uma vez ignorar. Chegando à praça central, viu uma confusão ocorrendo próxima a uma barraca: dois mercadores engalfinhavam-se para decidir quem ficaria com o local mais privilegiado na feira. Enquanto isso, quatro homens, de aparência bastante distinta, transformavam a procura por uma taberna numa balbúrdia, abordando agressivamente os espectadores. Um quinto aproveitava-se da situação para, furtivamente, saquear os pertences dos mercadores arruaceiros - Ledier notou que somente ele havia percebido isso.

Sem esperar pelo desfecho da confusão, ele seguiu em direção ao portão principal, sentindo o delicado toque do vento frio de inverno em seu rosto. Saindo de Galbatroh, olhou para trás e, por alguns segundos, contemplou a magnífica muralha, que fora construída eras atrás, mas permanecia sólida e inabalável - aquele era, sem sombra de dúvida, o maior símbolo da glória do reino. Diante daquela visão, lembrou-se dos tempos em que era somente uma simples criança, quando sonhava em ser um grande soldado, assim como seu pai fora antes dele. Entretanto, Ledier não suportava receber ordens. Ele tinha plena consciência que nunca poderia ser um soldado tendo uma mente tão arredia, mas não se incomodava. Incitando um galope, rapidamente afastou-se da cidade, levantando assim uma nuvem de poeira, que se dispersou no vento da mesma maneira brusca na qual seus sonhos se dispersaram no momento em que seus pais foram mortos.

Ledier viajou durante todo o dia, ora em ritmo apressado, ora em lentas marchas, a fim de não forçar seu cavalo excessivamente. O pôr do sol já estava próximo, quando percebera que estava a poucas léguas de Elnos, um reino élfico vizinho. Não era nada comum elfos receberem  visitantes, mas Ledier incluía-se numa seleta lista de pessoas bem-vindas. Após a guerra, os elfos da floresta de Elnos reforçaram a segurança em suas fronteiras, limitaram a passagem de estrangeiros e cortaram muitas de suas relações diplomáticas. Qualquer intruso que ousasse entrar na floresta sem ter uma autorização formal, corria sério risco de ser vítima de uma flecha perdida. Sendo uma notória exceção à regra, os representantes da casa Domeni eram sempre considerados convidados de honra, dada a eterna gratidão do povo élfico para com Frostborn, pai de Ledier.

A noite, perigosa e traiçoeira, escondia muitas feras, ladrões e outros perigos. Ledier conhecia  aquelas planícies como a palma de sua mão, então tinha plena ciência de que deveria procurar um abrigo seguro, antes que a escuridão tomasse conta do lugar. Apressando a cavalgada, ele, após alguns minutos, viu ao longe um grupo de cerca de oito agitados homens à beira da estrada. Diminuindo o ritmo, decidiu aproximar-se para averiguar o que estava acontecendo. Quando chegou à uma distância satisfatória, percebeu que havia um homem caído ao chão, agonizando conforme era surrado pelos oito covardes de pé.

- Pelas barbas do profeta! Vocês não tem vergonha? Precisam de oito homens para bater em um único homem, que por sinal está desarmado? - disse Ledier, ainda em seu cavalo. - Parem já com essa covardia.

- Vá embora, forasteiro. Mas isso caso não queira ser o próximo. - aconselhou um dos homens, dando logo uma cusparada no rapaz moribundo ao chão.

- Irei avisar uma única vez: parem de atormentar esse pobre coitado e vão embora, antes que eu perca o pouco de paciência que ainda me resta e resolva dar um chute nas bundas de cada um dos senhores. - o tom de Ledier ao falar era de bastante autoridade e confiança.

Os bandidos, irritados com a ameaça, pararam  de bater no rapaz magricela e voltaram toda sua atenção para Ledier. Um deles, munido com uma adaga, correu em direção ao despreocupado cavaleiro, na tentativa de cortá-lo. Saltando rapidamente de seu corcel, ele correu em direção ao agressor e, quando este já estava próximo, inclinou-se para assim desviar de sua investida. Tendo ele passado por Ledier, este o pegou pelo braço e aplicou-lhe um golpe violento em suas costas, claramente quebrando-lhe alguns ossículos e derrubando-o ao chão. Vendo isso, dois bandidos sacaram suas espadas e tomaram a frente numa segunda onda de violência. Ledier, num claro ato de desdém, partiu pra cima deles com as mãos nuas. Num corte horizontal, um dos bandidos tentou cortar seu peito, mas ele abaixou-se destramente, aproveitando então para aplicar uma oportuna rasteira no segundo homem. Caindo e deixando sua espada escapar de suas mãos, o homem atingido rastejou de encontro a sua espada, enquanto seu companheiro tentava devolver o chute de Ledier. Este, num movimento decisivo, conteve o chute usando seu antebraço esquerdo e levantou furiosamente para dar-lhe um soco no queixo, fazendo com que alguns dentes escapassem de sua boca agora ensanguentada.

- Se você colocar esses aí embaixo do travesseiro, talvez a fada dos dentes lhe dê algumas moedas. - zombou Ledier, enquanto ia direção ao outro homem, aplicando-lhe em seguida um chute entre as pernas. - Eu avisei.

- Piedade! - suplicou, aos prantos, o bandido que antes empunhara uma adaga.

- "Piedade!" - imitou, enquanto lhe dava um chute entre as pernas, assim como fizera com o outro.

- Ouch! - gemeu.

- Vocês ouviram isso? Ele disse: "ouch"! - caçoou Ledier, dando um chute de misericórdia no bandido com a boca ensanguentada, que tentava levantar-se. - Você fica quietinho aí.

Àquela altura, quatro dos homens já haviam fugido correndo, restando apenas um "intrépido" patife, que urinava de medo.

- Não se aproxime! Estou dizendo: não se aproxime! Dê um único passo e eu te ataco. - gritou, com a trêmula espada em punho.

- Vamos ver o quão bom espadachim você é. - disse Ledier, sem medo, enquanto sacava sua espada.

Vendo o reflexo escarlate do sol poente na espada dele, o bandido começou a recuar assustado, logo tropeçando em uma pedra e caindo de costas no chão.

- Levante-se de uma vez e vá embora, antes que eu mude de ideia.

Ouvindo aquilo, ele não perdeu tempo; levantou e saiu correndo em disparada, deixando tudo que tinha para trás. Vendo que agora já não havia perigo - os três que ficaram, ou estavam desacordados ou doloridos de mais para levantar -, Ledier aproximou-se do rapaz violentado.

- Acha que pode se levantar? - perguntou.

- Acho que sim... - respondeu, com dificuldade, enquanto esforçava-se para sair do chão.

- Hmm, excelente. Vejo então que pode seguir viagem! - exclamou Domeni, virando as costas e voltando para seu cavalo.

- O senhor vai me deixar aqui? - era claro o tom assustado do agora agachado rapaz. - E se eles voltarem? O que faço?

- "E se eles voltarem?", você pergunta. Eles não  vão voltar, disso tenho certeza. Porém, mesmo que por algum motivo resolvam fazer isso, já não é mais da minha conta o que acontece. Dê seu jeito. - disse, dando comando para seu cavalo seguir viagem.

- Foi incrível a forma como lidou com aqueles homens! - elogiou-o, numa tentativa frustrada de tentar convencer Ledier atacando seu ego. -  Onde aprendeu a lutar daquele jeito tão magnífico? O nobre cavaleiro poderia me ensinar... Eu aprendo rápido. Eu também seria um escudeiro bastante útil, juro. Posso polir sua armadura, cuidar do cavalo, ajudar com a guarda... - insistiu, perseguindo com andar manco os passos do cavalo.

- Está claro agora o motivo de ter apanhado: você fala demais. - disse Ledier, já cansado de ouvir a voz dele.

- Não, meu senhor. Eu apanhava pois devia algumas moedas ao senhor Morrice, de Galbatroh. - explicou, envergonhado. - Conhece o grandioso reino de Galbatroh?

- Sim, inclusive venho de lá. Não acha que está muito distante da cidade? - questionou, enquanto levava à boca um cantil com água, a fim de provocar seu certamente sedento perseguidor.

- Sim, de fato. Eu fugi de lá assim que soube que  o senhor Morrice havia contratado aqueles homens para darem cabo de minha vida, porém em vão. Eles logo me acharam. Se o senhor não tivesse aparecido, certamente estaria morto. Sou eternamente grato ao senhor e a Pelor, por terem misericórdia de um sujeito como eu. Devo-lhe minha vida, nobre cavaleiro. Se tiver alguma coisa que eu possa fazer para lhe agradecer, por favor não hesite em pedir. - disse, em reverência.

- Silêncio já me é suficiente. É muito complicado pensar com você falando desse jeito. É noite e eu ainda estou na estrada e isso por sua causa. Somente sua vida não é suficiente para pagar o que me deve. - Ledier analisava atentamente o horizonte, certificando-se de estar alerta à qualquer ameaça.

- Quer dizer que o senhor então vai me deixar  acompanha-lo? Digo, para pagar toda a dívida. - disse, com um sorriso tão grande no rosto que não parecia ter acabado de ser linchado.

-  Não, não e não! - bradou Ledier, perdendo a paciência. -  Em nenhum momento eu disse  isso. Agora me escute com muita atenção: cale essa boca agora e pare de me seguir, caso contrário desço desse cavalo e termino o que aqueles bandidos começaram. - completou, dando um berro ao cavalo, fazendo-o partir em disparada e deixando para o rapaz ferido nada além de uma nuvem espessa de poeira.

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