quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Bushido 6: Prólogo

PRÓLOGO
Pai, filho e pôr do sol 

Para Shien, aquela era uma tarde como qualquer outra. A mesma rotina, os mesmos rostos, os mesmos lugares. Como raramente tinha a oportunidade se sair do palácio, ele gostava de apreciar as pequenas coisas que as janelas lhe mostravam. Entre tudo que podia ver dali, o que mais lhe encantava era o pôr do sol, que já estava prestes a acontecer. Shien sempre realizava uma pausa em seu treinamento, para admirar o espetáculo criado pela natureza, sentindo na pele a sensação de paz e tranquilidade que aquela linda paisagem trazia à província. Esse precioso momento era muito importante para ele porquê, além da maravilhosa visão que proporcionava, era a hora do dia na qual as crianças que moravam próximas dali passavam pela rua, voltando às suas casas, após um divertido dia de brincadeiras e travessuras. Ver a alegria no rosto das crianças trazia à tona um sentimento de inveja em Shien, que se questionava diariamente se um dia poderia estar entre elas.

Shien era um menino forte e inteligente, pelo menos acima da média entre as crianças de onze anos de idade. Dotado de uma grande força de vontade, ele treinava duramente com sua espada, dia após dia, achando que se ele conseguisse mostrar para seu pai que já havia se tornado um espadachim de verdade, talvez este o deixasse brincar com os outros. Era um menino tímido, bastante reservado. Nunca questionava as ordens de seu pai, pois, apesar de Kazuki ser tão rígido, tinha um sentimento de intenso respeito por ele, além de todo amor que um filho poderia sentir pelo pai. Sua mãe, Hana, havia morrido quando Shien possuía apenas cinco anos, deixando um profundo vazio em seu coração.

Após alguns minutos, o Sol já começara a dar seus últimos suspiros, desaparecendo majestosamente no horizonte. Esse era o sinal que alertava Shien que ele devia voltar para seu treinamento. Ele sempre treinava até tarde - tarde demais mesmo para os adultos -, esforçando seu corpo ao limite. Seu pai, um homem sério e de poucas palavras, era muito rigoroso com os horários e obrigações de Shien. Treinava-o de forma exaustiva, pois para ele um homem Igarashi deveria superar o auge de seu progenitor ainda na juventude. Mas Kazuki não era um homem insensível. Sabia demonstrar afeto e carinho para seu filho, mas sempre dosava esses sentimentos, para que ele crescesse um homem forte. Quando Shien se feria, Kazuki cuidava dos ferimentos dele pessoalmente, dando-lhe a atenção devida. Costumava dedicar sempre um período do dia para conversar com Shien, contando-lhe histórias e lendas: a do grande dragão dos céus era sua favorita - ficava fascinado quando Kazuki descrevia o quão maravilhosa era a criatura, dizendo que os céus retorciam e os trovões rugiam, sinalizando a chegada dela, do amanhecer de verdadeiro poder e glória.

- Shien, já é noite. - disse Kazuki, entrando na sala onde Shien fazia suas pausas. - Hora de voltar ao treinamento. Mais duas sessões antes de dormir.

Percebendo a chegada do pai, Shien esboçou um olhar preocupado. Queria muito perguntar algo ao pai, fazia algum tempo, mas tinha receio de como ele reagiria. Sabia que precisava ser corajoso ou nunca conseguiria. Então, num súbito acesso de intrepidez, foi até seu pai, levando consigo seu questionário.

- Pai, posso fazer uma pergunta ao senhor? - o olhar de Shien demonstrava o quão receoso estava naquele momento.

- Sim, meu filho. - respondeu, analisando a postura de Shien e percebendo assim os sentimentos do filho.

- Desculpe-me por fazer tal questionamento, mas eu gostaria de saber o porquê do senhor ser tão rigoroso quanto ao meu treinamento? Eu queria ao menos poder brincar um pouco com as outras crianças de minha idade, nem que fosse um pouco. O senhor sabe que de maneira nenhuma eu questionaria suas ordens. Não pretendo parar de treinar, nunca. Só queria poder sair e me divertir um pouco de vez em quando. As crianças da janela parecem tão felizes... - disse Shien, com visível medo da resposta de seu pai.

Kazuki não se surpreendeu com a fala de seu filho. Sabia que uma hora essa pergunta surgiria e, sendo assim, estava pronto para respondê-la. Kazuki, apesar de sua vida atarefada, era um homem doente. Sofria de uma doença a qual debilitara grandemente seu corpo. Não conseguia mais realizar atividades físicas, pois seu corpo estava fraco e cansado. Ele permanecia na cama a maior parte do dia, governando o império de dentro de seu quarto. Suas incessantes e cada vez mais graves crises de tosse e sua febre corriqueira, indicavam que não possuía mais muito tempo de vida. Precisava de um sucessor.

- Venha comigo, meu filho. - disse Kazuki, caminhando lentamente até à janela.

Aquela sala era o lugar predileto de Shien, em todo palácio, por um motivo: o lugar era lindo. As paredes eram adornadas com pinturas magníficas, que cobriam todo o lugar. Nelas eram retratadas as quatro maiores batalhas nas quais o império havia participado, desde sua fundação - estando uma em cada parede. Podia-se ver em uma das paredes os samurais antigos cruzando espadas embaixo da mais violenta tempestade, lutando para expulsar invasores bárbaros. Em outra, podia-se ver toda a grandeza do grande dragão alado, que mesmo tendo poder para governar sobre tudo que era místico, caiu diante dos bravos guerreiros que lutavam por suas famílias. Todo o chão era forrado por uma admirável peça de tapeçaria, ostentando o brasão real ao centro e os brasões das outras casas nobres ao redor. Ao fundo, próximo à pintura do dragão alado, uma imponente armadura de batalha, vermelha como o sangue, repousava. Sempre que Shien a via, admirava-a com muito orgulho. Era a armadura de seu pai, a mesma que usou em todas as grandes batalhas nas quais participara. Ele fantasiava, imaginando seu pai cruzando a campina, cortando seus inimigos, vencendo a batalha e dedicando a vitória à sua família.

Ao olhar pela janela, viu a paz que reinava pela província. Ouviu o som das pessoas cantando e conversando alegremente, não encontrando em nenhuma voz resquícios de preocupação. O império vivia momentos de prosperidade, proporcionados pela competente administração de Kazuki. Ele fazia questão de garantir que todos tivessem boas condições de vida e que os samurais ao seu serviço pudessem sempre ter momentos cordiais com seus familiares.

- Percebe Shien, o quão magnífico é esse lugar? As pessoas vivem bem, não há nada que lhes falte. Elas podem ir e vir, sem medo. Podem cantar e dançar, podem rir e celebrar. Tudo isso é fruto de anos de esforço. Fruto do trabalho de nossa família, que manteve a ordem durante gerações. Os Igarashi lutaram bravamente, deram suas vidas pelo império, para podermos então desfrutar da beleza de um pôr do sol. - disse Kazuki, com um tom bastante sério em sua vez. - Entretanto, existem coisas que você não sabe. Nas fronteiras, as incursões bárbaras intensificam-se a cada dia, tornando cada vez mais difícil manter o cordão de isolamento. O crescente declínio no comércio de grãos está fazendo com que tamanhos que realizar cortes no orçamento. As relações diplomáticas com as potências ocidentais estão cada vez mais difíceis de se manter. A estiagem prejudicou o cultivo da soja, trazendo dificuldades no cumprimento dos prazos. - argumentou, dando uma pequena pausa para recuperar o fôlego. - Tudo isso poderia ser mais facilmente resolvido se eu tivesse condições de estar mais presente, mas, como pode ver, não me resta muito tempo. Estou cada vez mais decrépito. Filho... Seu rígido treinamento irá torná-lo um homem forte. Seus estudos, tornar-lhe-ão sábio. E seu bom coração... Bem, fará de ti um líder amado por todos.

Shien estava deveras espantado com o tom de seu pai. Apesar de estar acostumado com sua fala dura, nunca havia presenciado tamanha inquietação da parte dele. Kazuki falava de forma rápida e eloquente, gesticulando enquanto expunha seus pensamentos. Estava tão centrado em seu discurso, que não percebera que o esforço que fazia para falar daquela forma era demais para seu corpo, dado sua frágil condição física. Suas palavras logo se tornaram afiadas, saindo de sua garganta como adagas recém-amoladas. Não demorou até uma crise de tosse ter início.

- Pai! - exclamou Shien, preocupado. - O senhor está bem?

- Não se preocupe, meu filho. - disse Kazuki, sendo logo conduzido por Shien a sentar-se num dos zabutons ao centro da sala. - Nós dois já sabemos que não me resta muito tempo. Você, Shien, é o futuro do império! Você será meu sucessor. Será o grande xogum que, sob o nome Igarashi, aniquilará todos os inimigos que ousarem levantar-se contra o império. Esse treinamento...

- Mas por que tem de ser assim, pai? Eu só queria poder ser um menino normal. Queria brincar com as outras crianças, conhecer o mundo lá fora. Eu não nasci para ser líder! Mizuho é muito mais inteligente que eu. Ela quer isso. Ela ama esse lugar e quer protegê-lo. Eu só quero viver... Essa é a verdade pai. -  disse Shien, chorando amargamente, sabendo que aquilo entristeceria seu pai. Ele simplesmente não aguentou guardar aquele sentimento dentro de si, expondo assim toda a verdade que escondia em seu peito. - Por favor, pai. Eu quero descobrir o que tem além daquele pôr do sol, mas não posso estando preso a esse lugar. Deixe-me...

- Não, meu filho! - interrompeu, levantando a voz e voltando a tossir freneticamente. - Vo-você não sabe o que diz.

2 comentários:

  1. história baseada nos six samurai?

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    1. Olá, Alex!
      Bom dia.

      Sim, essa história é baseada nos Six Samurai, do card game Yu-Gi-Oh. Eles não possuem uma história oficial, mas têm muita margem para a criação de fanfictions - dada a relação entre as diferentes cartas do arquétipo.

      Você pode conhecer um pouco mais sobre o arquétipo (em seu estado bruto) no seguinte link: http://yugioh.wikia.com/wiki/Six_Samurai

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