terça-feira, 23 de agosto de 2016

Bushido 6: Capítulo 2

CAPÍTULO 2
Silêncio

A província de Ishikawa nunca antes esteve tão agitada. Homens e mulheres corriam incessantemente por todo o canto; ora transportando equipamentos, ora ajudando com os preparativos para o cerco. Não importando o motivo, a única coisa que os movia era o desejo de ter sua liberdade de volta. Invadiram, sem hesitar, o arsenal da província, aprisionaram os guardas e saquearam todo equipamento que encontraram, a fim de aproximar-se do nível inimigo. Os antigos samurais, os que não haviam morrido em batalha ou realizado o seppuku, viam na oportunidade de uma batalha - que tinha como prêmio a derrota eminente - a chance de morrerem com honra. Eles eram homens orgulhosos e habilidosos, portanto, mesmo com o sonho de recuperar a honra tão próximo, não pretendiam morrer sem uma luta feroz - a certeza da morte tornava-os mais eficientes. Shien estava entre esses homens, não só entre eles mas no comando deles.

Shien sabia que seria difícil conseguir lidar com o exército dite, mas esperava com isso inflamar o sentimento de revolta nos cidadãos. Tudo parecia estar de acordo com o previsto, exceto por um impertinente detalhe: eles haviam tomado o prédio pilar, assassinado o governador, assaltado o arsenal e feito reféns - claros atos de guerrilha. Então por que, mesmo após duas semanas de ocupação, ainda não havia sequer sinal de uma represália por parte do governo? Isso incomodava Shien profundamente. Fora o tumulto típico de um local em constante exercício militar, a calmaria era aterrorizante. As repressões eram sempre severas e rapidamente executadas, então, quando ocorreu de não haver uma (possuindo o governo plena capacidade para tal), o suspense instaurou-se. A inquietação crescente com a falta de resposta assustava os menos corajosos, que temiam um genocídio.

- Senhor, o batedor retornou. - disse Shinai, aproximando-se com um olhar desesperançoso.

- Diga de uma vez: alguma notícia importante? - perguntou Shien, enquanto analisava alguns mapas em seu escritório.

- Não, meu senhor. Absolutamente nada. As rotas de comércio permanecem inalteradas, os quartéis de Toyama e Fukui permanecem sem movimentações - nem mesmo defensivas. É como se ignorassem nossa causa. - disse, transparecendo desassossego.

- Dê a ordem para triplicar o número de batedores em campo. Envie espiões às províncias de Nagano e Gifu. Intensifique as rondas e as defesas na fronteira; disponibilizarei dois mil guerreiros. - instruiu Shien, encarando friamente a representação de Hokkaido no mapa. - O que está planejando, Grapha? Nós dois sabemos que você tem algo em mente. - pensou.

- Mais alguma ordem, senhor? - perguntou Shinai, interrompendo a reflexão de Shien.

- Não, Shinai. Obrigado. - disse, sem tirar os olhos do mapa. - Já pode se retirar.

- Então, se me permite. - respondeu, em reverência.

O dia, depois daquilo, arrastou-se preguiçosamente. No quarto do então falecido governador da província, Shien repousava sobre a luxuosa cama e, afligido pela insônia, meditava sobre tudo que estava ocorrendo - fizera questão de dormir justamente no quarto do finado, a fim de representar a tomada de poder. Percorrendo os olhos pelo lugar, deparou-se com sua espada, esquecida sobre uma escrivaninha. Ela tinha sido dada como um presente por seu pai, quando completara oito anos de idade. À época grande demais para o franzino rapaz, hoje servia-lhe como um instrumento indispensável - tanto para a batalha, quanto para a memória.

Shien considerava-se um homem arrasado; consumido pela desgraça. Tudo o que lhe era mais precioso fora tomado. Sua família, sua vida, seus sonhos. A lembrança de seu pai, morto cruelmente, revirava-lhe o estômago; queria poder ter tido a chance de se desculpar por sua insolência. Sua irmã mais nova, Mizuho, estava aprisionada no palácio real dite, em Hokkaido; nas inescrupulosas mãos de Nicolei Grapha. Mizuho era uma mulher determinada, de pulso firme. Quando traçava algum objetivo, não havia homem, mulher ou calamidade capaz de fazê-la mudar de idéia - Mizuho tornava-se a própria calamidade, se necessário. Na Batalha de Kiyose, lá estava ela, no campo de batalha; lutando por sua nação. Kazuki focava sua atenção somente em Shien, não dando à Mizuho os cuidados que aquela doce menina necessitava - ela então cresceu rebelde. Apesar de, naquele fatídico dia, ele ter cumprido seu "papel de pai" - implorando para que ela não fosse à batalha -, já era tarde demais para tal demonstração de preocupação. Mizuho nunca acataria as ordens de seu ausente pai. Além do mais, mal sabia Kazuki, que Mizuho havia tornado-se uma exímia espadachim, bastante confidente em suas habilidades - especialista no uso de foices. Só que foi nesse dia também que os destinos dela e de Grapha se cruzaram. Foi lá, em meio à chacina e ao mar de sangue, que ele a viu, entre tantos outros, e apaixonou-se. Com isso, fez a proposta que salvou milhares de vidas civis: um acordo de paz em troca da mão da jovem princesa. 

Aquele fora um dia deveras exaustivo para Shien, então, sabendo dos malefícios da privação de sono, resolveu que seria melhor voltar todo o seu esforço às frustrantes tentativas de cair no sono - obtendo sucesso após alguns tortuosos minutos.

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