segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Bushido 6: Capítulo 1

CAPÍTULO 1
Reacendendo a Chama

Já haviam se passado 18 anos desde a desastrosa Batalha de Kiyose, que determinou a queda do império e o fim da dinastia Igarashi. Mesmo sendo o mais condecorado e experiente general no extinto exército imperial, Kizan não pôde resistir ao poderoso exército de Nicolei Grapha. Foi obrigado a aceitar o cessar fogo e a assinar o "tratado de paz", que dava aos invasores o controle sobre todo o território. Há quem diga que a batalha foi decidida a favor do inimigo devido a um erro dele; um simples erro que, sozinho, abriu as portas para a vergonha. Porém, os bravos guerreiros que estavam lá naquele momento, no campo de batalha, sabem muito bem o que realmente aconteceu. Eles se lembram do momento em que, estando eles ganhando a batalha, aquela legião de soldados inimigos transformou-se numa horda demoníaca. Homens tornaram-se demônios, que então inverteram o rumo da batalha. Kizan viu-se impotente diante daquilo, tendo que render-se para salvar a vida do máximo possível de pessoas - o que logo se revelou um ato inútil, visto que os samurais não abaixaram suas lâminas, não fugiram da luta; morreram todos lutando por suas casas. Mas isso agora não passa de uma lembrança amarga. Hoje, isolado do mundo, ele busca meios para trazer de volta a glória que presenciara nos tempos de Kazuki.

- Kizan, senhor! - bradou Kageki, enquanto atravessava a porta do pequeno refúgio, de forma ofegante e ruidosa.

O lugar era pequeno, muito pequeno. Após tudo o que aconteceu, ele precisou recuar por sua vida. Engolindo seu orgulho e ignorando seu bushido, ele fugiu para longe de Kiyose, escondendo-se numa pequena casa nas montanhas da região de Odawara; mais especificamente na encosta do Monte Tokashi. O lugar era muito humilde. Quando chovia, não era incomum ter de lidar com infiltrações, além também do risco de tudo vir abaixo, que era bem real. Kizan não se importava; na realidade preferia morrer soterrado num casebre distante de todos, do que ser apontado mais uma vez como o precursor de tanta infelicidade. Seu corpo estremecia sempre que lembrava do único dia em que o grande general Kizan precisou se arrastar para salvar sua vida. O sentimento de revolta das pessoas seria violento caso ele, ao andar pela cidade, fosse reconhecido como o general que entregou a nação aos bárbaros. O caos reinaria absoluto. As pessoas sentem-se fracas e incapazes, então, culpar alguém pela disgraça de muitos torna-se uma espécie de conforto psicológico. É o bom e velho "bode expiatório".

- Kageki, já lhe disse inúmeras vezes para que não mais usasse honoríficos ao falar comigo. - disse Kizan, mantendo seu semblante calmo. - Eu não sou mais seu general, e você já não é mais meu subalterno. Aqui, sob esse teto, somos iguais.

- Desculpe-me, Kizan. - disse Kageki, aproveitando-se da interrupção para respirar fundo, recuperando assim seu fôlego.

- Não se desculpe, Kageki. O que aconteceu para estar tão afobado? - perguntou, curioso.

- Neste momento, está acontecendo uma grande revolta na província de Ishikawa. Os civis, com o apoio de alguns samurais, tomaram o prédio do governador, assassinando-o em seguida. Dizem que eles foram liderados por um samurai que trajava uma armadura vermelha, ostentando a chama do brasão Igarashi em seu peito. Seria essa uma insurreição orquestrada por algum sobrevivente da família imperial? Se for, quem seria esse samurai? Qual será a reação do governo central? Infelizmente, creio que em morte. As repressões a tais intentos são sempre severas e violentas. Entretanto, algo me intriga profundamente: eles conseguiram tomar o prédio pilar. Em todos esses anos, algo assim nunca antes havia acontecido. - explanou Kageki, em tom bastante reflexivo.

Kizan emudecera, ouvindo atentamente cada detalhe. As características daquela armadura lembraram-lhe das de Kazuki - a armadura vermelha simbolizava o poder do xogum. Há anos o imperador já morrera, mas seu filho e herdeiro, estava desaparecido. Seria o homem de armadura vermelha, Shien? Kizan conhecia-o desde pequeno, tendo especial apreço por ele, dada sua grande determinação e força de vontade. Ele enxergava em Shien algo que somente Kazuki também conseguia: o potencial para ser grande, o maior.

Só havia silêncio no lugar. Kageki, perdido em pensamentos, tentava decifrar o enigma. Não conseguia conceber a ideia de alguém se rebelando dessa forma. Quem seria tão corajoso, conhecendo as formas nada convencionais pelas quais o general do segundo batalhão do exército de Grapha, Patrício Cerulli, conseguia fazer as pessoas "colaborarem"? Kageki sabia que esses homens acabariam mortos, assim como todos os outros revoltosos ao longo dos anos, mas algo o fazia se interessar pela história. Talvez porquê, no fundo, sentia inveja deles. Inveja de sua coragem, pois, mesmo sabendo das terríveis consequências, eles ergueram suas espadas e entoaram o cântico de libertação daquele povo oprimido. Ou quem sabe, talvez havia sido somente o sol quente de verão, afetando seu privilegiado cérebro. Precisava da opinião de Kizan.
               
Kizan, assim como ele, estava perdido em pensamentos. Kageki sabia que seu amigo não se preocupava mais com algo tão supérfluo como a morte - para Kizan, sua vida já havia acabado no dia em que teve de fugir rastejando -, então, ir colaborar com aqueles "heróis" não estava fora de cogitação; mas, para isso, Kageki precisava de respostas. Se fosse para partir em busca delas, precisava do apoio de Kizan, pois, apesar de tão habilidoso e inteligente, Kageki não era uma pessoa reconhecida por seu ímpeto. Então resolveu, finalmente, interromper a reflexão de Kizan.

- Kizan! - exclamou, em voz mais alta do que de costume, pois estava um pouco nervoso.

- A armadura vermelha... O brasão Igarashi... Só consigo pensar em uma única pessoa que possa atender à tais características. Interessante... Creio que o pequeno menino tenha tornado-se um homem. - murmurou Kizan.

- Você sabe quem é o homem que está liderando a rebelião? - Kageki foi tomado de uma curiosidade sem precendentes; precisava saber.

- Sim, creio eu. - disse Kizan, enquanto andava em direção à janela, recordando-se do velho hábito de Shien. - A armadura vermelha do xogum. Ela era guardada no Salão Solar, lugar onde o pequeno filho do imperador adorava passar seu tempo. Aquela armadura passou de geração em geração na família Igarashi. Com a morte de Kazuki, ela pertence agora a Shien, por direito. Talvez o jovem rapaz tenha planos para reacender a outrora ardente chama Igarashi.
               
- Sim, sim... Faz sentido! - exclamou Kageki, com olhar eufórico.

Kageki logo encontrou as peças que faltavam em seu quebra-cabeça; tudo agora se encaixava. Ao tomar o trono, Grapha ordenou a seus demônios que executassem Kazuki em praça pública, para mostrar a todos sua autoridade e poder. Sua cabeça ficou lá, empalada numa estaca, até os corvos terminarem de dar conta da carne putrefata. Era mais do que claro para Kageki que, se Shien ainda estivesse vivo, o sentimento de ódio e de rancor pelo ato brutal de Grapha seria intenso no coração daquele filho.

- Estive pensando... - ponderou Kageki, sentindo uma forte necessidade de expor sua opinião. - Estamos aqui há muitos anos: sempre planejando, sempre arquitetando, sempre esperando. Quando tomaremos uma atitude real? Quando vingaremos nosso lar? Esquecemos nosso bushido há tempos; arrependo-me muito disso. Não temos honra; se Grapha é a escória, nós somos piores que a escória: nós fugimos, por medo. Shien, aquele menino, agora luta bravamente em Ishikawa, enquanto nos encolhemos aqui. Precisamos agir!

Kizan concordava totalmente com ele, com cada palavra do que dissera. Entretanto, para ele, tratava-se de algo muito maior que vingança: tratava-se de redenção. Mesmo tendo consciência de seus atos, ele se culpava pelo que ocorrera. Queria trazer justiça à memória de Kazuki, mas temia falhar novamente - a marca da derrota foi deveras muito profunda. Mas, aquele brilho nos olhos de Kageki, impediu-o de recusar o chamado. Lembrou-se dos olhos de Shien, incendiados pelo desejo de realizar seus sonhos. Kageki fora a única pessoa que restara ao seu lado. Ele era o único em quem confiava; era o único que sempre acreditou nele e que nunca o traira - para ele, essa era a definição mais perfeita e utópica de "amigo leal".

- Como faremos? - perguntou Kizan, para a alegria de Kageki.

Kageki era um bom homem. Excessivamente esperançoso, mas lhe faltava iniciativa. Aquelas duas palavrinhas que saíram da boca de Kizan serviram-lhe como um imenso alívio.

- Soube que eles estão preparando as defesas necessárias para aguentar até mesmo um cerco à província. - respondeu Kageki, disfarçando um pequeno sorriso. - Aquele garoto é realmente ousado. Ele realmente espera sustentar um cerco de demônios? Provavelmente irá demorar cerca de três semanas até que cheguemos lá. É bastante tempo, espero que consigamos a tempo.

- Entendo. - disse Kizan, enquanto caminhava em direção à uma empoeirada espada pendurada na parede. - Vamos iniciar os preparativos para a viagem agora mesmo, pois partiremos amanhã.


2 comentários:

  1. Respostas
    1. Olá, Ândreas!
      Ficamos muito felizes em saber que gostou de nossa história!

      Em breve os próximos capítulos de Bushido 6 estarão disponíveis no blog e já posso adiantar: vem coisa grande por aí!

      Qualquer dúvida, sugestão ou crítica, basta acessar a aba "Colabore" do blog! Lá temos os nossos contatos para deixar seu parecer (inclusive WhatsApp).

      Atenciosamente,
      Andrew Ferreira.

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