quarta-feira, 24 de agosto de 2016

O Cavaleiro Vingador: Velhos Fantasmas #1

O ambiente estava estranhamente escuro. A névoa, mais densa que de costume. A chuva caía no rosto de Ledier, que estava caído numa poça de lama e sangue. Seu olhar fitava o firmamento, contemplando as gotas que vinham de encontro a seu rosto. A chuva, chocando-se contra a armadura, produzia sons ritmados que se confundiam com os gritos que ecoavam pelo lugar. Ledier já havia se acostumado com aquilo, os gemidos e as súplicas não lhe incomodavam. Seu corpo emanava uma forte energia, que o fazia reluzir como uma tocha dentro daquela armadura, feita de um metal anômalo de cor dourada. Ela possuía detalhes brancos nas bordas, três espinhos pontiagudos nas manoplas e ostentava o símbolo de um sol na região do peitoral - Ledier sempre brincava sobre como Pelor tinha bom gosto para equipamento militar.  Além, da pomposa armadura, ele também portava um martelo bastante peculiar consigo: um que era envolto por uma forte corrente elétrica e disparava raios - no maior estilo "deus do trovão". Mas aquele martelo não estava mais em suas mãos. Onde estava? A resposta é simples: enterrado no que há poucos minutos atrás era o crânio de um bruxo. Um bruxo? Sim, e do tipo bem difícil de matar. Ledier havia lutado contra ele durante muito tempo, restando-lhe agora somente as forças necessárias para encarar o que estava bem diante dos seus olhos. Já não sentia suas pernas ou braços, somente o gosto de sangue em sua língua. Muito aconteceu para que Ledier chegasse àquele estado, então, para que entendamos bem, precisamos voltar alguns anos no tempo...

Os primeiros raios de sol já eram vistos acima da grande muralha de Galbatroh. Ledier já estava de pé; acordara cedo, em preparação para a viagem até Holly Gate Valley, onde compraria matéria-prima para a ferraria - o estoque de Alvor estava chegando ao fim num momento crítico: precisava trabalhar numa grande encomenda para o exército real. O velho ferreiro já não tinha o vigor de antes, quando ia e vinha carregando bigornas como se fossem sacos de plumas; seu corpo cansado não suportaria uma viagem tão longa. Holy Gate Valley, uma cidade de mineradores estranhamente civilizados, situava-se nove luas ao oeste. O lugar era reconhecido por todo o continente como sendo a fonte dos melhores metais, dado o alto teor de mineral de minério nas jazidas. A mineração atraía mercadores, que tornavam o lugar uma importante rota comercial - abastecendo o lugar com vinhos e seda da mais alta qualidade. Era um lugar próspero e vivo; um refúgio para sonhadores menos afortunados.

Ledier atrelou seu cavalo, guardando sua espada e seu escudo ao lado direito do belo  corcel negro - muito semelhante ao de seu pai -; no  lado esquerdo, um cantil com água e algumas  provisões acharam um local onde se esconder.

- Lembro-me de quando você e seu irmão  chegaram aqui: tão quietos e acuados, com aquele olhar assustado. Foi um verdadeiro desafio conquistar a confiança dos dois. Especialmente a sua. - disse Alvor, com um olhar repleto de saudosismo, enquanto  observava Ledier acertando os últimos detalhes antes da partida.

- Está nostálgico hoje, Alvor. O que aconteceu? Andou bebendo?  Não reclame se a úlcera atacar. - gracejou Ledier.

O velho então deu uma ruidosa gargalhada, entregando a Ledier uma bolsa com um pouco de tabaco e uma pequena garrafa de cerveja  preta - Alvor sabia que ele não resistia àquela combinação.

- Ah, venha cá, meu filho! - exclamou Alvor, partindo para um forte abraço em Ledier.

- Cuide-se, Alvor. Volto dentro de alguns dias. - disse, sentindo uma estranha sensação de preocupação em seu peito. Achou que não devia ser nada demais, somente sua imaginação pregando-lhe peças, então ignorou aquele sentimento. - Espero encontrar o estoque de vinho intacto quando voltar de Holy Gate. - disse, dando um último abraço em Alvor. Sem olhar para trás, subiu em seu cavalo e deu uma firme sacudida nas rédeas, pondo-o a marchar.

Ledier cavalgou pelas largas ruas de Galbatroh, enquanto ouvia o ressonante som dos cascos do cavalo colidindo contra a estrada, pavimentada com  pedras. Ele sentiu algo estranho aquele dia, como se algo estivesse fora do normal. Não sabia explicar exatamente o que era, mas parecia como um mal presságio, esgueirando-se em volta dele. Não tendo conseguido atribuir alguma lógica àquilo, preferiu mais uma vez ignorar. Chegando à praça central, viu uma confusão ocorrendo próxima a uma barraca: dois mercadores engalfinhavam-se para decidir quem ficaria com o local mais privilegiado na feira. Enquanto isso, quatro homens, de aparência bastante distinta, transformavam a procura por uma taberna numa balbúrdia, abordando agressivamente os espectadores. Um quinto aproveitava-se da situação para, furtivamente, saquear os pertences dos mercadores arruaceiros - Ledier notou que somente ele havia percebido isso.

Sem esperar pelo desfecho da confusão, ele seguiu em direção ao portão principal, sentindo o delicado toque do vento frio de inverno em seu rosto. Saindo de Galbatroh, olhou para trás e, por alguns segundos, contemplou a magnífica muralha, que fora construída eras atrás, mas permanecia sólida e inabalável - aquele era, sem sombra de dúvida, o maior símbolo da glória do reino. Diante daquela visão, lembrou-se dos tempos em que era somente uma simples criança, quando sonhava em ser um grande soldado, assim como seu pai fora antes dele. Entretanto, Ledier não suportava receber ordens. Ele tinha plena consciência que nunca poderia ser um soldado tendo uma mente tão arredia, mas não se incomodava. Incitando um galope, rapidamente afastou-se da cidade, levantando assim uma nuvem de poeira, que se dispersou no vento da mesma maneira brusca na qual seus sonhos se dispersaram no momento em que seus pais foram mortos.

Ledier viajou durante todo o dia, ora em ritmo apressado, ora em lentas marchas, a fim de não forçar seu cavalo excessivamente. O pôr do sol já estava próximo, quando percebera que estava a poucas léguas de Elnos, um reino élfico vizinho. Não era nada comum elfos receberem  visitantes, mas Ledier incluía-se numa seleta lista de pessoas bem-vindas. Após a guerra, os elfos da floresta de Elnos reforçaram a segurança em suas fronteiras, limitaram a passagem de estrangeiros e cortaram muitas de suas relações diplomáticas. Qualquer intruso que ousasse entrar na floresta sem ter uma autorização formal, corria sério risco de ser vítima de uma flecha perdida. Sendo uma notória exceção à regra, os representantes da casa Domeni eram sempre considerados convidados de honra, dada a eterna gratidão do povo élfico para com Frostborn, pai de Ledier.

A noite, perigosa e traiçoeira, escondia muitas feras, ladrões e outros perigos. Ledier conhecia  aquelas planícies como a palma de sua mão, então tinha plena ciência de que deveria procurar um abrigo seguro, antes que a escuridão tomasse conta do lugar. Apressando a cavalgada, ele, após alguns minutos, viu ao longe um grupo de cerca de oito agitados homens à beira da estrada. Diminuindo o ritmo, decidiu aproximar-se para averiguar o que estava acontecendo. Quando chegou à uma distância satisfatória, percebeu que havia um homem caído ao chão, agonizando conforme era surrado pelos oito covardes de pé.

- Pelas barbas do profeta! Vocês não tem vergonha? Precisam de oito homens para bater em um único homem, que por sinal está desarmado? - disse Ledier, ainda em seu cavalo. - Parem já com essa covardia.

- Vá embora, forasteiro. Mas isso caso não queira ser o próximo. - aconselhou um dos homens, dando logo uma cusparada no rapaz moribundo ao chão.

- Irei avisar uma única vez: parem de atormentar esse pobre coitado e vão embora, antes que eu perca o pouco de paciência que ainda me resta e resolva dar um chute nas bundas de cada um dos senhores. - o tom de Ledier ao falar era de bastante autoridade e confiança.

Os bandidos, irritados com a ameaça, pararam  de bater no rapaz magricela e voltaram toda sua atenção para Ledier. Um deles, munido com uma adaga, correu em direção ao despreocupado cavaleiro, na tentativa de cortá-lo. Saltando rapidamente de seu corcel, ele correu em direção ao agressor e, quando este já estava próximo, inclinou-se para assim desviar de sua investida. Tendo ele passado por Ledier, este o pegou pelo braço e aplicou-lhe um golpe violento em suas costas, claramente quebrando-lhe alguns ossículos e derrubando-o ao chão. Vendo isso, dois bandidos sacaram suas espadas e tomaram a frente numa segunda onda de violência. Ledier, num claro ato de desdém, partiu pra cima deles com as mãos nuas. Num corte horizontal, um dos bandidos tentou cortar seu peito, mas ele abaixou-se destramente, aproveitando então para aplicar uma oportuna rasteira no segundo homem. Caindo e deixando sua espada escapar de suas mãos, o homem atingido rastejou de encontro a sua espada, enquanto seu companheiro tentava devolver o chute de Ledier. Este, num movimento decisivo, conteve o chute usando seu antebraço esquerdo e levantou furiosamente para dar-lhe um soco no queixo, fazendo com que alguns dentes escapassem de sua boca agora ensanguentada.

- Se você colocar esses aí embaixo do travesseiro, talvez a fada dos dentes lhe dê algumas moedas. - zombou Ledier, enquanto ia direção ao outro homem, aplicando-lhe em seguida um chute entre as pernas. - Eu avisei.

- Piedade! - suplicou, aos prantos, o bandido que antes empunhara uma adaga.

- "Piedade!" - imitou, enquanto lhe dava um chute entre as pernas, assim como fizera com o outro.

- Ouch! - gemeu.

- Vocês ouviram isso? Ele disse: "ouch"! - caçoou Ledier, dando um chute de misericórdia no bandido com a boca ensanguentada, que tentava levantar-se. - Você fica quietinho aí.

Àquela altura, quatro dos homens já haviam fugido correndo, restando apenas um "intrépido" patife, que urinava de medo.

- Não se aproxime! Estou dizendo: não se aproxime! Dê um único passo e eu te ataco. - gritou, com a trêmula espada em punho.

- Vamos ver o quão bom espadachim você é. - disse Ledier, sem medo, enquanto sacava sua espada.

Vendo o reflexo escarlate do sol poente na espada dele, o bandido começou a recuar assustado, logo tropeçando em uma pedra e caindo de costas no chão.

- Levante-se de uma vez e vá embora, antes que eu mude de ideia.

Ouvindo aquilo, ele não perdeu tempo; levantou e saiu correndo em disparada, deixando tudo que tinha para trás. Vendo que agora já não havia perigo - os três que ficaram, ou estavam desacordados ou doloridos de mais para levantar -, Ledier aproximou-se do rapaz violentado.

- Acha que pode se levantar? - perguntou.

- Acho que sim... - respondeu, com dificuldade, enquanto esforçava-se para sair do chão.

- Hmm, excelente. Vejo então que pode seguir viagem! - exclamou Domeni, virando as costas e voltando para seu cavalo.

- O senhor vai me deixar aqui? - era claro o tom assustado do agora agachado rapaz. - E se eles voltarem? O que faço?

- "E se eles voltarem?", você pergunta. Eles não  vão voltar, disso tenho certeza. Porém, mesmo que por algum motivo resolvam fazer isso, já não é mais da minha conta o que acontece. Dê seu jeito. - disse, dando comando para seu cavalo seguir viagem.

- Foi incrível a forma como lidou com aqueles homens! - elogiou-o, numa tentativa frustrada de tentar convencer Ledier atacando seu ego. -  Onde aprendeu a lutar daquele jeito tão magnífico? O nobre cavaleiro poderia me ensinar... Eu aprendo rápido. Eu também seria um escudeiro bastante útil, juro. Posso polir sua armadura, cuidar do cavalo, ajudar com a guarda... - insistiu, perseguindo com andar manco os passos do cavalo.

- Está claro agora o motivo de ter apanhado: você fala demais. - disse Ledier, já cansado de ouvir a voz dele.

- Não, meu senhor. Eu apanhava pois devia algumas moedas ao senhor Morrice, de Galbatroh. - explicou, envergonhado. - Conhece o grandioso reino de Galbatroh?

- Sim, inclusive venho de lá. Não acha que está muito distante da cidade? - questionou, enquanto levava à boca um cantil com água, a fim de provocar seu certamente sedento perseguidor.

- Sim, de fato. Eu fugi de lá assim que soube que  o senhor Morrice havia contratado aqueles homens para darem cabo de minha vida, porém em vão. Eles logo me acharam. Se o senhor não tivesse aparecido, certamente estaria morto. Sou eternamente grato ao senhor e a Pelor, por terem misericórdia de um sujeito como eu. Devo-lhe minha vida, nobre cavaleiro. Se tiver alguma coisa que eu possa fazer para lhe agradecer, por favor não hesite em pedir. - disse, em reverência.

- Silêncio já me é suficiente. É muito complicado pensar com você falando desse jeito. É noite e eu ainda estou na estrada e isso por sua causa. Somente sua vida não é suficiente para pagar o que me deve. - Ledier analisava atentamente o horizonte, certificando-se de estar alerta à qualquer ameaça.

- Quer dizer que o senhor então vai me deixar  acompanha-lo? Digo, para pagar toda a dívida. - disse, com um sorriso tão grande no rosto que não parecia ter acabado de ser linchado.

-  Não, não e não! - bradou Ledier, perdendo a paciência. -  Em nenhum momento eu disse  isso. Agora me escute com muita atenção: cale essa boca agora e pare de me seguir, caso contrário desço desse cavalo e termino o que aqueles bandidos começaram. - completou, dando um berro ao cavalo, fazendo-o partir em disparada e deixando para o rapaz ferido nada além de uma nuvem espessa de poeira.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Considerações iniciais: Bushido 6

Olá. Boa tarde a todos os leitores do blog.

Hoje venho aqui trazer aos fãs de Bushido 6 alguns esclarecimentos sobre a história, a fim de situá-los no universo em que Shien e seus companheiros vivem.

Primeiramente, gostaria de deixar claro que a história é uma fanfiction (também chamada de fanfic, ou simplesmente fic, conforme achar preferível). Ela conta uma história baseada nos Six Samurai do card game Yu-Gi-Oh. Eles não possuem uma história oficial, então nada aqui está sendo copiado; a originalidade é o grande destaque de Bushido 6.

Outro ponto que gostaria de destacar é sobre a geografia do lugar onde acontecem os eventos. Como devem ter percebido, muitos lugares coincidem com pontos reais no Japão, mas não necessariamente estão localizados exatamente como no mundo real. Por exemplo, em nosso mundo, o Monte Tokashi está localizado na província de Hokkaido, no extremo norte do Japão; em Bushido 6, está localizado no que seria a província de Kagoshima, no extremo sul. Assim como Kyushu, a terceira maior ilha do Japão, não chega nem a ser uma ilha em Bushido 6. Então, não utilize os dados geográficos do Japão real como referência absoluta na hora de tentar mapear o universo de Bushido 6 - o nome do lugar onde acontece a história nem é "Japão", somente baseia-se nele.

Para finalizar, devo destacar que o mesmo ocorre com as noções políticas e culturais do antigo Japão feudal. Não trate como certo de acontecer algo em Bushido 6 somente por ter conhecimento que se fosse no mundo real aconteceria daquela forma.

Abra sua mente ao ler Bushido 6.

Atenciosamente,
Andrew Ferreira.

Bushido 6: Capítulo 2

CAPÍTULO 2
Silêncio

A província de Ishikawa nunca antes esteve tão agitada. Homens e mulheres corriam incessantemente por todo o canto; ora transportando equipamentos, ora ajudando com os preparativos para o cerco. Não importando o motivo, a única coisa que os movia era o desejo de ter sua liberdade de volta. Invadiram, sem hesitar, o arsenal da província, aprisionaram os guardas e saquearam todo equipamento que encontraram, a fim de aproximar-se do nível inimigo. Os antigos samurais, os que não haviam morrido em batalha ou realizado o seppuku, viam na oportunidade de uma batalha - que tinha como prêmio a derrota eminente - a chance de morrerem com honra. Eles eram homens orgulhosos e habilidosos, portanto, mesmo com o sonho de recuperar a honra tão próximo, não pretendiam morrer sem uma luta feroz - a certeza da morte tornava-os mais eficientes. Shien estava entre esses homens, não só entre eles mas no comando deles.

Shien sabia que seria difícil conseguir lidar com o exército dite, mas esperava com isso inflamar o sentimento de revolta nos cidadãos. Tudo parecia estar de acordo com o previsto, exceto por um impertinente detalhe: eles haviam tomado o prédio pilar, assassinado o governador, assaltado o arsenal e feito reféns - claros atos de guerrilha. Então por que, mesmo após duas semanas de ocupação, ainda não havia sequer sinal de uma represália por parte do governo? Isso incomodava Shien profundamente. Fora o tumulto típico de um local em constante exercício militar, a calmaria era aterrorizante. As repressões eram sempre severas e rapidamente executadas, então, quando ocorreu de não haver uma (possuindo o governo plena capacidade para tal), o suspense instaurou-se. A inquietação crescente com a falta de resposta assustava os menos corajosos, que temiam um genocídio.

- Senhor, o batedor retornou. - disse Shinai, aproximando-se com um olhar desesperançoso.

- Diga de uma vez: alguma notícia importante? - perguntou Shien, enquanto analisava alguns mapas em seu escritório.

- Não, meu senhor. Absolutamente nada. As rotas de comércio permanecem inalteradas, os quartéis de Toyama e Fukui permanecem sem movimentações - nem mesmo defensivas. É como se ignorassem nossa causa. - disse, transparecendo desassossego.

- Dê a ordem para triplicar o número de batedores em campo. Envie espiões às províncias de Nagano e Gifu. Intensifique as rondas e as defesas na fronteira; disponibilizarei dois mil guerreiros. - instruiu Shien, encarando friamente a representação de Hokkaido no mapa. - O que está planejando, Grapha? Nós dois sabemos que você tem algo em mente. - pensou.

- Mais alguma ordem, senhor? - perguntou Shinai, interrompendo a reflexão de Shien.

- Não, Shinai. Obrigado. - disse, sem tirar os olhos do mapa. - Já pode se retirar.

- Então, se me permite. - respondeu, em reverência.

O dia, depois daquilo, arrastou-se preguiçosamente. No quarto do então falecido governador da província, Shien repousava sobre a luxuosa cama e, afligido pela insônia, meditava sobre tudo que estava ocorrendo - fizera questão de dormir justamente no quarto do finado, a fim de representar a tomada de poder. Percorrendo os olhos pelo lugar, deparou-se com sua espada, esquecida sobre uma escrivaninha. Ela tinha sido dada como um presente por seu pai, quando completara oito anos de idade. À época grande demais para o franzino rapaz, hoje servia-lhe como um instrumento indispensável - tanto para a batalha, quanto para a memória.

Shien considerava-se um homem arrasado; consumido pela desgraça. Tudo o que lhe era mais precioso fora tomado. Sua família, sua vida, seus sonhos. A lembrança de seu pai, morto cruelmente, revirava-lhe o estômago; queria poder ter tido a chance de se desculpar por sua insolência. Sua irmã mais nova, Mizuho, estava aprisionada no palácio real dite, em Hokkaido; nas inescrupulosas mãos de Nicolei Grapha. Mizuho era uma mulher determinada, de pulso firme. Quando traçava algum objetivo, não havia homem, mulher ou calamidade capaz de fazê-la mudar de idéia - Mizuho tornava-se a própria calamidade, se necessário. Na Batalha de Kiyose, lá estava ela, no campo de batalha; lutando por sua nação. Kazuki focava sua atenção somente em Shien, não dando à Mizuho os cuidados que aquela doce menina necessitava - ela então cresceu rebelde. Apesar de, naquele fatídico dia, ele ter cumprido seu "papel de pai" - implorando para que ela não fosse à batalha -, já era tarde demais para tal demonstração de preocupação. Mizuho nunca acataria as ordens de seu ausente pai. Além do mais, mal sabia Kazuki, que Mizuho havia tornado-se uma exímia espadachim, bastante confidente em suas habilidades - especialista no uso de foices. Só que foi nesse dia também que os destinos dela e de Grapha se cruzaram. Foi lá, em meio à chacina e ao mar de sangue, que ele a viu, entre tantos outros, e apaixonou-se. Com isso, fez a proposta que salvou milhares de vidas civis: um acordo de paz em troca da mão da jovem princesa. 

Aquele fora um dia deveras exaustivo para Shien, então, sabendo dos malefícios da privação de sono, resolveu que seria melhor voltar todo o seu esforço às frustrantes tentativas de cair no sono - obtendo sucesso após alguns tortuosos minutos.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Hello, It's Me


         

- Posso ajudá-lo? - perguntou, cabisbaixa.

Léo estava especialmente empático diante daquela senhorita à sua frente. Não que fosse uma pessoa marcada pela intromissão na vida alheia, mas ele a havia observado por toda sua estadia na pequena cafeteira; tendo assim aprendido uma coisa ou outra, enquanto a via deixar-se afetar pela música ambiente. Ele podia ser só um qualquer, um desajeitado, mas era um "qualquer" do tipo observador. Sabe aquele jogo do "conte até 3 e vá até o crush"? Pois bem, ele era conhecido por sempre perder - vergonhosamente. Porém, de tanto jogar, adquiriu "habilidades". Nada que realmente o ajudasse com o "jogo", mas algo que talvez o ajudasse a ser humano.

Seu olhar era clínico e seu coração benevolente. Quantas vezes estendeu a mão - e a emoção - a alguém necessitado? Uma centena de vezes. Quantas vezes já havia consolado um amigo após perceber que ele não estava bem - mesmo que não demonstrasse? Já perdera a conta. Quantas vezes abraçou aquele parente, isolado no canto, que precisava muito de uma demonstração de afeto? Isso ele nem chegou a contar. Léo sabia que tinha um grande poder e também que, com esse grande poder, vinha uma grande responsabilidade - havia visto isso em algum filme, adotou logo para si. Todavia, ele nunca havia pensado nisso como algo realmente importante - pelo menos não até o dia de hoje.

- Cafeteria: envolvida pela melancolia de Adele, você deixou-se levar por suas palavras. Num ritmo tal, que pude perceber, através de seus pesares, que não simplesmente seguia sua voz compassadamente, mas ia e vinha nas declarações da arrependida "eu lírica": você fala inglês ou ao menos compreende suficientemente bem. Seu olhar cabisbaixo, querendo achar um fio de esperança ao qual se agarrar, era um sinal claro de que procurava o "tempo" no qual esqueceria - o que, pela forma como se deu, também indicava algo recente. As carícias que dava em sua própria mão direita, focando o dedo anelar, indicavam que certamente perdera seu noivo. Quando ela levantava o tom para declarar que ele "parecia nunca estar em casa", era claro o aumento no acúmulo de umidade ao redor de seus olhos. Creio eu que ele tenha falecido. Quando então ela cita que queria desculpar-se por partir-lhe o coração, pude notar uma pequena pausa na cadeia de reações condicionadas pela letra: vocês estavam bem, quando a tragédia ocorreu. Você levantou apressadamente dali no instante em que ela resolveu deixar claro que "não mais". - disse, docilmente, dando uma curta pausa para observar o pálido rosto dela e seu lacrimejante olhar. - Desculpe-me por invadir sua privacidade, mas não pude me conter. Você não está sozinha, nunca estará. O "tempo" que você procura pode nunca chegar, mas, no poema da sua vida, o "eu lírico" não precisa ater-se a tal forma de métrica. Disque outro número e alguém atenderá. - terminou, dando um sorriso sincero e afetuoso.

- Olá... Sou eu. - disse a jovem, em lágrimas, enquanto olhava para Léo com um triste sorriso em seu rosto.

- Olá. Eu posso te ouvir. - respondeu, abraçando-a fortemente.

Bushido 6: Capítulo 1

CAPÍTULO 1
Reacendendo a Chama

Já haviam se passado 18 anos desde a desastrosa Batalha de Kiyose, que determinou a queda do império e o fim da dinastia Igarashi. Mesmo sendo o mais condecorado e experiente general no extinto exército imperial, Kizan não pôde resistir ao poderoso exército de Nicolei Grapha. Foi obrigado a aceitar o cessar fogo e a assinar o "tratado de paz", que dava aos invasores o controle sobre todo o território. Há quem diga que a batalha foi decidida a favor do inimigo devido a um erro dele; um simples erro que, sozinho, abriu as portas para a vergonha. Porém, os bravos guerreiros que estavam lá naquele momento, no campo de batalha, sabem muito bem o que realmente aconteceu. Eles se lembram do momento em que, estando eles ganhando a batalha, aquela legião de soldados inimigos transformou-se numa horda demoníaca. Homens tornaram-se demônios, que então inverteram o rumo da batalha. Kizan viu-se impotente diante daquilo, tendo que render-se para salvar a vida do máximo possível de pessoas - o que logo se revelou um ato inútil, visto que os samurais não abaixaram suas lâminas, não fugiram da luta; morreram todos lutando por suas casas. Mas isso agora não passa de uma lembrança amarga. Hoje, isolado do mundo, ele busca meios para trazer de volta a glória que presenciara nos tempos de Kazuki.

- Kizan, senhor! - bradou Kageki, enquanto atravessava a porta do pequeno refúgio, de forma ofegante e ruidosa.

O lugar era pequeno, muito pequeno. Após tudo o que aconteceu, ele precisou recuar por sua vida. Engolindo seu orgulho e ignorando seu bushido, ele fugiu para longe de Kiyose, escondendo-se numa pequena casa nas montanhas da região de Odawara; mais especificamente na encosta do Monte Tokashi. O lugar era muito humilde. Quando chovia, não era incomum ter de lidar com infiltrações, além também do risco de tudo vir abaixo, que era bem real. Kizan não se importava; na realidade preferia morrer soterrado num casebre distante de todos, do que ser apontado mais uma vez como o precursor de tanta infelicidade. Seu corpo estremecia sempre que lembrava do único dia em que o grande general Kizan precisou se arrastar para salvar sua vida. O sentimento de revolta das pessoas seria violento caso ele, ao andar pela cidade, fosse reconhecido como o general que entregou a nação aos bárbaros. O caos reinaria absoluto. As pessoas sentem-se fracas e incapazes, então, culpar alguém pela disgraça de muitos torna-se uma espécie de conforto psicológico. É o bom e velho "bode expiatório".

- Kageki, já lhe disse inúmeras vezes para que não mais usasse honoríficos ao falar comigo. - disse Kizan, mantendo seu semblante calmo. - Eu não sou mais seu general, e você já não é mais meu subalterno. Aqui, sob esse teto, somos iguais.

- Desculpe-me, Kizan. - disse Kageki, aproveitando-se da interrupção para respirar fundo, recuperando assim seu fôlego.

- Não se desculpe, Kageki. O que aconteceu para estar tão afobado? - perguntou, curioso.

- Neste momento, está acontecendo uma grande revolta na província de Ishikawa. Os civis, com o apoio de alguns samurais, tomaram o prédio do governador, assassinando-o em seguida. Dizem que eles foram liderados por um samurai que trajava uma armadura vermelha, ostentando a chama do brasão Igarashi em seu peito. Seria essa uma insurreição orquestrada por algum sobrevivente da família imperial? Se for, quem seria esse samurai? Qual será a reação do governo central? Infelizmente, creio que em morte. As repressões a tais intentos são sempre severas e violentas. Entretanto, algo me intriga profundamente: eles conseguiram tomar o prédio pilar. Em todos esses anos, algo assim nunca antes havia acontecido. - explanou Kageki, em tom bastante reflexivo.

Kizan emudecera, ouvindo atentamente cada detalhe. As características daquela armadura lembraram-lhe das de Kazuki - a armadura vermelha simbolizava o poder do xogum. Há anos o imperador já morrera, mas seu filho e herdeiro, estava desaparecido. Seria o homem de armadura vermelha, Shien? Kizan conhecia-o desde pequeno, tendo especial apreço por ele, dada sua grande determinação e força de vontade. Ele enxergava em Shien algo que somente Kazuki também conseguia: o potencial para ser grande, o maior.

Só havia silêncio no lugar. Kageki, perdido em pensamentos, tentava decifrar o enigma. Não conseguia conceber a ideia de alguém se rebelando dessa forma. Quem seria tão corajoso, conhecendo as formas nada convencionais pelas quais o general do segundo batalhão do exército de Grapha, Patrício Cerulli, conseguia fazer as pessoas "colaborarem"? Kageki sabia que esses homens acabariam mortos, assim como todos os outros revoltosos ao longo dos anos, mas algo o fazia se interessar pela história. Talvez porquê, no fundo, sentia inveja deles. Inveja de sua coragem, pois, mesmo sabendo das terríveis consequências, eles ergueram suas espadas e entoaram o cântico de libertação daquele povo oprimido. Ou quem sabe, talvez havia sido somente o sol quente de verão, afetando seu privilegiado cérebro. Precisava da opinião de Kizan.
               
Kizan, assim como ele, estava perdido em pensamentos. Kageki sabia que seu amigo não se preocupava mais com algo tão supérfluo como a morte - para Kizan, sua vida já havia acabado no dia em que teve de fugir rastejando -, então, ir colaborar com aqueles "heróis" não estava fora de cogitação; mas, para isso, Kageki precisava de respostas. Se fosse para partir em busca delas, precisava do apoio de Kizan, pois, apesar de tão habilidoso e inteligente, Kageki não era uma pessoa reconhecida por seu ímpeto. Então resolveu, finalmente, interromper a reflexão de Kizan.

- Kizan! - exclamou, em voz mais alta do que de costume, pois estava um pouco nervoso.

- A armadura vermelha... O brasão Igarashi... Só consigo pensar em uma única pessoa que possa atender à tais características. Interessante... Creio que o pequeno menino tenha tornado-se um homem. - murmurou Kizan.

- Você sabe quem é o homem que está liderando a rebelião? - Kageki foi tomado de uma curiosidade sem precendentes; precisava saber.

- Sim, creio eu. - disse Kizan, enquanto andava em direção à janela, recordando-se do velho hábito de Shien. - A armadura vermelha do xogum. Ela era guardada no Salão Solar, lugar onde o pequeno filho do imperador adorava passar seu tempo. Aquela armadura passou de geração em geração na família Igarashi. Com a morte de Kazuki, ela pertence agora a Shien, por direito. Talvez o jovem rapaz tenha planos para reacender a outrora ardente chama Igarashi.
               
- Sim, sim... Faz sentido! - exclamou Kageki, com olhar eufórico.

Kageki logo encontrou as peças que faltavam em seu quebra-cabeça; tudo agora se encaixava. Ao tomar o trono, Grapha ordenou a seus demônios que executassem Kazuki em praça pública, para mostrar a todos sua autoridade e poder. Sua cabeça ficou lá, empalada numa estaca, até os corvos terminarem de dar conta da carne putrefata. Era mais do que claro para Kageki que, se Shien ainda estivesse vivo, o sentimento de ódio e de rancor pelo ato brutal de Grapha seria intenso no coração daquele filho.

- Estive pensando... - ponderou Kageki, sentindo uma forte necessidade de expor sua opinião. - Estamos aqui há muitos anos: sempre planejando, sempre arquitetando, sempre esperando. Quando tomaremos uma atitude real? Quando vingaremos nosso lar? Esquecemos nosso bushido há tempos; arrependo-me muito disso. Não temos honra; se Grapha é a escória, nós somos piores que a escória: nós fugimos, por medo. Shien, aquele menino, agora luta bravamente em Ishikawa, enquanto nos encolhemos aqui. Precisamos agir!

Kizan concordava totalmente com ele, com cada palavra do que dissera. Entretanto, para ele, tratava-se de algo muito maior que vingança: tratava-se de redenção. Mesmo tendo consciência de seus atos, ele se culpava pelo que ocorrera. Queria trazer justiça à memória de Kazuki, mas temia falhar novamente - a marca da derrota foi deveras muito profunda. Mas, aquele brilho nos olhos de Kageki, impediu-o de recusar o chamado. Lembrou-se dos olhos de Shien, incendiados pelo desejo de realizar seus sonhos. Kageki fora a única pessoa que restara ao seu lado. Ele era o único em quem confiava; era o único que sempre acreditou nele e que nunca o traira - para ele, essa era a definição mais perfeita e utópica de "amigo leal".

- Como faremos? - perguntou Kizan, para a alegria de Kageki.

Kageki era um bom homem. Excessivamente esperançoso, mas lhe faltava iniciativa. Aquelas duas palavrinhas que saíram da boca de Kizan serviram-lhe como um imenso alívio.

- Soube que eles estão preparando as defesas necessárias para aguentar até mesmo um cerco à província. - respondeu Kageki, disfarçando um pequeno sorriso. - Aquele garoto é realmente ousado. Ele realmente espera sustentar um cerco de demônios? Provavelmente irá demorar cerca de três semanas até que cheguemos lá. É bastante tempo, espero que consigamos a tempo.

- Entendo. - disse Kizan, enquanto caminhava em direção à uma empoeirada espada pendurada na parede. - Vamos iniciar os preparativos para a viagem agora mesmo, pois partiremos amanhã.


domingo, 21 de agosto de 2016

Tales & Fables: Tempos de Bonança #2

Dentro da pequena casa, um punhado de lenha crepitava nas chamas de uma rústica lareira, amenizando o intenso frio característico das montanhas árticas de Midreth. O homem, que havia sido covardemente agredido, repousava próximo ao calor. Apesar de seu estado de saúde crítico, negava-se à própria morte, em lutas e estertores agonizava. Sua mulher, segurando sua mão, rezava aos deuses por sua vida. A fé era a única saída que lhe restara, haja vista que não possuía o conhecimento necessário para tratar de seu companheiro.

- A ti, Pelor, ó grande deus-sol, deposito minha súplica. Covardes são os homens; maus e vis eles são. Mas tu, grande radiante, é misericordioso; não fecha seus olhos diante dos oprimidos. Tu abominas toda forma de mal; Foi compassivo: enviaste seu servo para nos salvar da morte. Sei que não sou digna de fazer mais pedidos a ti, mas peço que estenda sua misericórdia à vida de meu marido; salva-o, pois padece. Abra os céus de Celestia, deixe sua doce luz recair sobre seu servo; livra-lhe da morte. Aquele que... - clamou a mulher, de joelhos, sendo logo interrompida.

- Eu, servo de Pelor? - disse Taran, após dar o último gole em sua cerveja. - Fi-lo porquê qui-lo: já dizia o polêmico governante, e assim também digo eu. Salvei-os por piedade; Pelor nada tem com isso. Não se iluda achando que os deuses se importam com os pequenos mortais. Eles só intervêm realmente quando os interesses deles entram em jogo; o resto - as pequenas ações - é tão somente para manter seguidores, sua principal fonte de poder. Esse homem o qual você chama de marido morrerá hoje.

- Sua falta de fé é perturbadora. O que lhe aconteceu para que seja assim? - perguntou a mulher, um pouco irritada, pois Taran acabara de negar-lhe seu último recurso.

- Eu vi e vivi a verdade. - respondeu, virando-se para mulher e olhando-a com desdém. - Eles dizem governar sobre aspectos tais, que os moldam e assim determinam cada uma de suas ações, todavia eu conheço a verdade. Como eu já disse antes: eu vi e vivi a verdade. O poder corrompe, mulher. Dê poder a um homem e ele mostrará sua verdadeira face, mas torne-o um deus e ele te mostrará a essência da corrupção. Vocês, servos iludidos desses falsos deuses, não passam de marionetes. Pelor, o deus do bem, da vida e da cura não foi misericordioso com aquela mãe que decidiu ir contra tudo que nasceu pra ser, esforçando-se para salvar seu amado filho. Ele não hesitou quando tiraram-lhe a vida e aniquilaram sua alma, para que jamais fosse ressuscitada. Muito pelo contrário: ele próprio participou da carnificina. Sentiu-se aliviado quando a criança foi jogada para morte. Declarou como "justo" o exílio do pai dela. - argumentou, com os olhos queimando num brilho intenso, que demonstrava seu grande desprezo.

- Às vezes não entendemos as coisas que os deuses fazem, mas é porquê nossas mentes são tão simplórias... Eles estão lá em cima, vendo e ouvindo tudo. Eles sabem o que precisa ser feito, pois enxergam coisas que nós nem sequer imaginamos. Nós realmente não somos nada diante do poder deles, mas eles ainda sim se importam. Não sei exatamente o que aconteceu contigo, mas eu tenho fé que Pelor nunca faria algo ruim, caso não fosse realmente necessário.

- Ele só tinha medo, assim como os outros. Julgaram a mulher por sua espécie, condenaram-na por algo que não tinha culpa. - Taran cuspia as palavras, enquanto batia na mesa com seu punho cerrado. - Para eles, aquela criança era uma ameaça. Tinham medo de que, quando crescesse, ela desejasse destronar-lhes. Não há justiça quando os que deveriam ser juízes estão corrompidos. Não há amor quando os que deveriam ser os representantes de tão nobre sentimento viram de ombros para tamanha demonstração de amor materno. Não há compaixão quando o poder é mais importante que uma vida. Não há... - disse Taran, sendo então interrompido pelos braços da mulher, que se achegavam por detrás dele. Ele estava tão consumido pelos sentimentos negativos que não percebera a aproximação da mulher.

- Você sofreu muito... Eu sinto sua dor. - disse, em lágrimas, num gesto de profunda empatia.

- O que pensa que está fazendo, mulher? - bradou, enquanto tentava desvencilhar-se dela. - Solte-me agora.

- Acalme-se. - disse enquanto o abraçava mais forte, arqueando-se e aproximando então seu rosto ao dele, falando-lhe ao ouvido. - Todos nós passamos por momentos difíceis em nossas vidas, momentos esses que nos marcam profundamente. Sentimos ódio; somos tomados pela cólera. Entristecemo-nos e choramos. Sentimo-nos tão impotentes, tão fracos, tão inúteis. Somos, todos os dias, abatidos pela injustiça. Mas, também podemos ter alguma felicidade nesse mundo. Podemos nos divertir, podemos cantar e dançar. Podemos compartilhar momentos alegres com pessoas fantásticas. Podemos viajar e conhecer lugares magníficos. Podemos amar e sermos amados. Esse mundo é muito grande para se ficar sozinho, sendo consumido pela negatividade. Não digo que não devamos buscar a nossa justiça, quando necessário, mas não devemos deixar que sejamos consumidos por ela. Em algum lugar, certamente existe alguém disposto a estender a mão ao cavaleiro, mas essa mão precisa ser aceita quando oferecida. Pode ser a mão de uma amorosa companheira, talvez as de valorosos amigos ou, quem sabe, a de um deus. Só tenha certeza que um dia ela surgirá com seu convite de socorro, então esteja preparado para aceitá-lo. Como um forte cavaleiro que chega e derruba seus opressores, salvando-lhe da morte certa, assim essa mão chegará até você, trazendo-lhe paz.

Ao ouvir aquilo, Taran foi tomado por um súbito sentimento de esperança e conforto. A confusão que assolava seu viver cessou e seu ódio foi extinto. O calor dos braços daquela mulher, o suave afago de sua bochecha e suas palavras gentis serviram como uma poderosa ferramenta, que tirava o peso das cansadas costas de Taran.

- Devo ir embora. - disse Taran, enquanto levanta-se calmamente, libertando-se do abraço. - Há provisões para algumas semanas aqui. Quando o tempo melhorar, vá até a capital de Midreth, com seu marido e seu filho, e procure por Ikymn, da casa Tribulus. Entregue este documento a ele, pois assim receberão abrigo e trabalho. - acrescentou, retirando um tubo de madeira de sua mochila.

- Mas já vai, meu senhor? Uma tempestade certamente se aproxima. - perguntou, olhando para ele com uma expressão preocupada. - Nem ao menos me disse seu nome.

- Sou Taran, da casa Balerion. - respondeu. - E vocês, quais são seus nomes?

- Sou Elizabeth Linai. O homem ferido é meu marido, Kyle Linai, e o menino que dorme ao lado dele é nosso filho, Alexander Linai.

- É um prazer conhecê-la, senhora Linai. - disse, em tom cortês, enquanto estendia sua mão em direção ao homem deitado. - Seu marido irá ficar bem; há uma mão indo até ele. - completou, desaparecendo no ar logo em seguida.

Ao voltar até onde seu marido estava, Elizabeth então percebeu que ele estava totalmente curado. Suas feridas haviam fechado, seus hematomas haviam desaparecido. Ele dormia tranquilamente, como se nada tivesse acontecido. Transbordando de alegria, ela gritou em comemoração e saltou sobre o marido, abraçando-o num gesto de amor e felicidade plena.

- Foi um prazer conhecê-lo, Taran, da casa Balerion. - disse, olhando ternamente para a caneca vazia de Taran, que repousava sobre a mesa.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Bushido 6: Prólogo

PRÓLOGO
Pai, filho e pôr do sol 

Para Shien, aquela era uma tarde como qualquer outra. A mesma rotina, os mesmos rostos, os mesmos lugares. Como raramente tinha a oportunidade se sair do palácio, ele gostava de apreciar as pequenas coisas que as janelas lhe mostravam. Entre tudo que podia ver dali, o que mais lhe encantava era o pôr do sol, que já estava prestes a acontecer. Shien sempre realizava uma pausa em seu treinamento, para admirar o espetáculo criado pela natureza, sentindo na pele a sensação de paz e tranquilidade que aquela linda paisagem trazia à província. Esse precioso momento era muito importante para ele porquê, além da maravilhosa visão que proporcionava, era a hora do dia na qual as crianças que moravam próximas dali passavam pela rua, voltando às suas casas, após um divertido dia de brincadeiras e travessuras. Ver a alegria no rosto das crianças trazia à tona um sentimento de inveja em Shien, que se questionava diariamente se um dia poderia estar entre elas.

Shien era um menino forte e inteligente, pelo menos acima da média entre as crianças de onze anos de idade. Dotado de uma grande força de vontade, ele treinava duramente com sua espada, dia após dia, achando que se ele conseguisse mostrar para seu pai que já havia se tornado um espadachim de verdade, talvez este o deixasse brincar com os outros. Era um menino tímido, bastante reservado. Nunca questionava as ordens de seu pai, pois, apesar de Kazuki ser tão rígido, tinha um sentimento de intenso respeito por ele, além de todo amor que um filho poderia sentir pelo pai. Sua mãe, Hana, havia morrido quando Shien possuía apenas cinco anos, deixando um profundo vazio em seu coração.

Após alguns minutos, o Sol já começara a dar seus últimos suspiros, desaparecendo majestosamente no horizonte. Esse era o sinal que alertava Shien que ele devia voltar para seu treinamento. Ele sempre treinava até tarde - tarde demais mesmo para os adultos -, esforçando seu corpo ao limite. Seu pai, um homem sério e de poucas palavras, era muito rigoroso com os horários e obrigações de Shien. Treinava-o de forma exaustiva, pois para ele um homem Igarashi deveria superar o auge de seu progenitor ainda na juventude. Mas Kazuki não era um homem insensível. Sabia demonstrar afeto e carinho para seu filho, mas sempre dosava esses sentimentos, para que ele crescesse um homem forte. Quando Shien se feria, Kazuki cuidava dos ferimentos dele pessoalmente, dando-lhe a atenção devida. Costumava dedicar sempre um período do dia para conversar com Shien, contando-lhe histórias e lendas: a do grande dragão dos céus era sua favorita - ficava fascinado quando Kazuki descrevia o quão maravilhosa era a criatura, dizendo que os céus retorciam e os trovões rugiam, sinalizando a chegada dela, do amanhecer de verdadeiro poder e glória.

- Shien, já é noite. - disse Kazuki, entrando na sala onde Shien fazia suas pausas. - Hora de voltar ao treinamento. Mais duas sessões antes de dormir.

Percebendo a chegada do pai, Shien esboçou um olhar preocupado. Queria muito perguntar algo ao pai, fazia algum tempo, mas tinha receio de como ele reagiria. Sabia que precisava ser corajoso ou nunca conseguiria. Então, num súbito acesso de intrepidez, foi até seu pai, levando consigo seu questionário.

- Pai, posso fazer uma pergunta ao senhor? - o olhar de Shien demonstrava o quão receoso estava naquele momento.

- Sim, meu filho. - respondeu, analisando a postura de Shien e percebendo assim os sentimentos do filho.

- Desculpe-me por fazer tal questionamento, mas eu gostaria de saber o porquê do senhor ser tão rigoroso quanto ao meu treinamento? Eu queria ao menos poder brincar um pouco com as outras crianças de minha idade, nem que fosse um pouco. O senhor sabe que de maneira nenhuma eu questionaria suas ordens. Não pretendo parar de treinar, nunca. Só queria poder sair e me divertir um pouco de vez em quando. As crianças da janela parecem tão felizes... - disse Shien, com visível medo da resposta de seu pai.

Kazuki não se surpreendeu com a fala de seu filho. Sabia que uma hora essa pergunta surgiria e, sendo assim, estava pronto para respondê-la. Kazuki, apesar de sua vida atarefada, era um homem doente. Sofria de uma doença a qual debilitara grandemente seu corpo. Não conseguia mais realizar atividades físicas, pois seu corpo estava fraco e cansado. Ele permanecia na cama a maior parte do dia, governando o império de dentro de seu quarto. Suas incessantes e cada vez mais graves crises de tosse e sua febre corriqueira, indicavam que não possuía mais muito tempo de vida. Precisava de um sucessor.

- Venha comigo, meu filho. - disse Kazuki, caminhando lentamente até à janela.

Aquela sala era o lugar predileto de Shien, em todo palácio, por um motivo: o lugar era lindo. As paredes eram adornadas com pinturas magníficas, que cobriam todo o lugar. Nelas eram retratadas as quatro maiores batalhas nas quais o império havia participado, desde sua fundação - estando uma em cada parede. Podia-se ver em uma das paredes os samurais antigos cruzando espadas embaixo da mais violenta tempestade, lutando para expulsar invasores bárbaros. Em outra, podia-se ver toda a grandeza do grande dragão alado, que mesmo tendo poder para governar sobre tudo que era místico, caiu diante dos bravos guerreiros que lutavam por suas famílias. Todo o chão era forrado por uma admirável peça de tapeçaria, ostentando o brasão real ao centro e os brasões das outras casas nobres ao redor. Ao fundo, próximo à pintura do dragão alado, uma imponente armadura de batalha, vermelha como o sangue, repousava. Sempre que Shien a via, admirava-a com muito orgulho. Era a armadura de seu pai, a mesma que usou em todas as grandes batalhas nas quais participara. Ele fantasiava, imaginando seu pai cruzando a campina, cortando seus inimigos, vencendo a batalha e dedicando a vitória à sua família.

Ao olhar pela janela, viu a paz que reinava pela província. Ouviu o som das pessoas cantando e conversando alegremente, não encontrando em nenhuma voz resquícios de preocupação. O império vivia momentos de prosperidade, proporcionados pela competente administração de Kazuki. Ele fazia questão de garantir que todos tivessem boas condições de vida e que os samurais ao seu serviço pudessem sempre ter momentos cordiais com seus familiares.

- Percebe Shien, o quão magnífico é esse lugar? As pessoas vivem bem, não há nada que lhes falte. Elas podem ir e vir, sem medo. Podem cantar e dançar, podem rir e celebrar. Tudo isso é fruto de anos de esforço. Fruto do trabalho de nossa família, que manteve a ordem durante gerações. Os Igarashi lutaram bravamente, deram suas vidas pelo império, para podermos então desfrutar da beleza de um pôr do sol. - disse Kazuki, com um tom bastante sério em sua vez. - Entretanto, existem coisas que você não sabe. Nas fronteiras, as incursões bárbaras intensificam-se a cada dia, tornando cada vez mais difícil manter o cordão de isolamento. O crescente declínio no comércio de grãos está fazendo com que tamanhos que realizar cortes no orçamento. As relações diplomáticas com as potências ocidentais estão cada vez mais difíceis de se manter. A estiagem prejudicou o cultivo da soja, trazendo dificuldades no cumprimento dos prazos. - argumentou, dando uma pequena pausa para recuperar o fôlego. - Tudo isso poderia ser mais facilmente resolvido se eu tivesse condições de estar mais presente, mas, como pode ver, não me resta muito tempo. Estou cada vez mais decrépito. Filho... Seu rígido treinamento irá torná-lo um homem forte. Seus estudos, tornar-lhe-ão sábio. E seu bom coração... Bem, fará de ti um líder amado por todos.

Shien estava deveras espantado com o tom de seu pai. Apesar de estar acostumado com sua fala dura, nunca havia presenciado tamanha inquietação da parte dele. Kazuki falava de forma rápida e eloquente, gesticulando enquanto expunha seus pensamentos. Estava tão centrado em seu discurso, que não percebera que o esforço que fazia para falar daquela forma era demais para seu corpo, dado sua frágil condição física. Suas palavras logo se tornaram afiadas, saindo de sua garganta como adagas recém-amoladas. Não demorou até uma crise de tosse ter início.

- Pai! - exclamou Shien, preocupado. - O senhor está bem?

- Não se preocupe, meu filho. - disse Kazuki, sendo logo conduzido por Shien a sentar-se num dos zabutons ao centro da sala. - Nós dois já sabemos que não me resta muito tempo. Você, Shien, é o futuro do império! Você será meu sucessor. Será o grande xogum que, sob o nome Igarashi, aniquilará todos os inimigos que ousarem levantar-se contra o império. Esse treinamento...

- Mas por que tem de ser assim, pai? Eu só queria poder ser um menino normal. Queria brincar com as outras crianças, conhecer o mundo lá fora. Eu não nasci para ser líder! Mizuho é muito mais inteligente que eu. Ela quer isso. Ela ama esse lugar e quer protegê-lo. Eu só quero viver... Essa é a verdade pai. -  disse Shien, chorando amargamente, sabendo que aquilo entristeceria seu pai. Ele simplesmente não aguentou guardar aquele sentimento dentro de si, expondo assim toda a verdade que escondia em seu peito. - Por favor, pai. Eu quero descobrir o que tem além daquele pôr do sol, mas não posso estando preso a esse lugar. Deixe-me...

- Não, meu filho! - interrompeu, levantando a voz e voltando a tossir freneticamente. - Vo-você não sabe o que diz.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Entre Deuses e Homens: Capítulo 2

ENTRE DEUSES E HOMENS
CANÇÃO DO DESEQUILÍBRIO


CAPÍTULO 2
Derradeira Esperança


Ledier era um homem robusto e bastante ágil. Seus movimentos, suaves e fluídos, contrastavam com o peso que carregava em forma de armadura e armamento. Todavia,  vigor não era a única coisa que se destacava em Ledier: sua presença transmitia uma sensação de paz e tranquilidade, como se uma aura de positividade o envolvesse. Porém, era como se essa aura também emitisse uma pressão sobrenatural, indicando que aquele homem não era uma pessoa com a qual se devesse brincar. Para Tobias, que tinha uma afinidade com magia de procedência divina, sentir o poder envolvendo Ledier era uma tarefa simples. Ele não demorou a perceber que aquela pessoa que o salvara, certamente devia ser um paladino,  que fora abençoado grandemente por sua divindade.

- Ainda não acabou! - gritou Ledier, enquanto levantava-se e preparava seu ataque.

Canalizando o poder de Pelor em sua espada, ele saltou contra o besteiro rapidamente, num movimento inacreditável, cortando com um movimento letal seu peito e seu fôlego vital. Os outros cavaleiros, vendo que agora estavam em desvantagem numérica e técnica, começaram a gritar palavras incompreensíveis, enquanto olhavam ao redor, como se estivessem tentando chamar a atenção dos abissais ali presentes.

- É o idioma infernal. Eles estão oferecendo dinheiro aos mezzoloths por nossas cabeças. - explicou Ledier. - Precisamos sair daqui imediatamente. Como estão seus ferimentos? - perguntou, tendo em vista Paimei.

- Pffft! Você diz esses arranhões aqui? - desdenhou Paimei, arqueado, enquanto apontava para a lança fincada em suas costas. - Isso não é nada! - ele então puxou as lanças com bastante força, retirando-as de seu corpo, mas bambeando em seguida, perdendo os sentidos pouco depois, devido ao intenso sangramento.

- Temos um amigo lá fora capaz de nos teleportar daqui. Entrarei em contato com ele através de telepatia. - argumentou Tobias, enquanto abaixava-se para socorrer Paimei. - Pode me conseguir algum tempo? Preciso prestar os primeiros socorros.

- Os mezzoloths não estão convencidos de que aqueles homens podem lhes pagar. Temos algum tempo, mas seja breve. - disse Ledier, concentrado nos cavaleiros.

Dito isto, Tobias retirou um tubo de marfim de sua sacola, onde um pergaminho antigo em papiro se escondia. Nele haviam inscrições rúnicas, elaborando um místico texto. Tobias então começou a ler aquilo, de forma fluída, fazendo com que as runas ali escritas desaparecessem conforme as lia.

- Houston... Digo, Calter, temos um problema.  - disse Tobias, em pensamento.

Lá fora, Gillion e Calter engalfinhavam-se ferozmente com os mezzoloths - o grupo de insetóides. O falcão Mardallis, mais experiente em combate corporal, usava seu arco como uma espécie de porrete, tentando manter os cinco inimigos afastados do vulnerável bruxo. Calter, não estando em uma posição favorável para tentar conjurar algo, tentava ajudar Gillion da maneira que podia, atacando com pedras.

- Nós também não estamos nada bem. - respondeu Calter a Tobias, através da conexão telepática. - Era uma emboscada. Estamos sendo atacados por cinco inimigos, não estou em condições de conjurar.

- Há um paladino aqui que parece ser um aliado; sinto uma aura benigna nele. Ele nos salvou do ataque dos cavaleiros, mas Paimei acabou sendo ferido; está inconsciente. - resumiu. - Dois inimigos já estão mortos, mas os outros dois estão tentando contratar os insetóides para irem contra nós.

- Entendi. Então, acho que situações desesperadas pedem medidas desesperadas. - finalizou Calter, levantando-se e partindo correndo para dentro da fortaleza. - Gillion, preciso agir. - deu o alerta ao falcão, que estava tendo dificuldades.

- Faça... - bradou Gillion, enquanto golpeava com seu arco na face de um mezzoloth. - Como... - acrescentou, agachando-se e assim desviando de uma estocada inimiga. - Quiser. - completou, sendo então acertado de raspão no ombro.

Ao entrar, Calter viu o pomposo paladino digladiando contra um dos cavaleiros - desmontado de seu pesadelo -, em uma luta equilibrada. O segundo vociferava para os abissais, recebendo uivos e vaias em troca. Já Tobias, estava ajoelhado diante Paimei, com suas mãos estendidas sobre ele, emanando uma tênue luz esverdeada.

- Tobias! Estou aqui. - comunicou Calter, gritando com sua voz telepática.

- Ei, mais baixo. Estou tentando me concentrar aqui, se não se importa. - repreendeu. - E como está Gillion?

- Ele dá conta. - respondeu, em tom de descaso. - Por ora, preciso que mande seu amigo se afastar.

- O que pretende fazer?

- Esquentar as coisas. - respondeu, com um sorriso suspeito em seu rosto.

- Você está com aquela cara que sempre faz quando está prestes a fazer algo estúpido, não está? - indagou Tobias, preocupado.

- Não, relaxa. - disse, com uma expressão maníaca em seu rosto. - Só, por favor, faça o que pedi.

- Ledier, afaste-se do cavaleiro! Agora! - gritou Tobias, em alta voz.

Ouvindo aquilo, Ledier não pensou duas vezes: protegendo-se com seu escudo, investiu velozmente contra o corpo do cavaleiro, fazendo-o perder o equilíbrio. Aproveitando então esse momento, Ledier desengajou da batalha, recuando rapidamente. Assim que percebeu que ele havia tomado distância suficiente, Calter retirou de sua mochila um punhado de enxofre batido em guano de morcegos, manipulou aquilo com as mãos e então recitou algumas palavras místicas, transformando assim aquela fétida massa em uma esfera ardente de fogo, que eclodiu furiosamente, projetando-se na direção dos cavaleiros.

- Queime, queime tudo! - exclamou Calter, gargalhando ensandecidamente.

Ao perceber aquilo, o cavaleiro montado parou imediatamente de negociar com os mezzoloths, reclinando-se em seu pesadelo e beneficiando-se assim de suas habilidades sobrenaturais, que tornavam ambos resistentes ao fogo. Já seu companheiro, desamparado, foi atingido sem poder esboçar reação, queimando agonizantemente até a morte. Após aquilo, um silêncio profundo tomou conta do lugar. Todos que ali estavam passaram a fitar Calter, numa rajada de olhares penetrantes.
 
- Está louco, Calter? - reclamou Tobias, telepaticamente. - Uma bola de fogo, sério mesmo?

- Pelo menos obtive resultados. - retrucou.
Ainda atônito, o cavaleiro então ergueu sua espada e começou a bradar com todo seu fôlego, dirigindo-se aos abissais, em sua língua.

- Problemas! Não há mais tempo! Temos que sair daqui, AGORA! - gritou Ledier.

- Calter, teleporte todos para fora! - ordenou Tobias telepaticamente, compreendendo rapidamente a gravidade da situação.

- Não! - gritou Paimei, com voz rouca, enquanto recobrava a consciência e segurava Tobias pelo braço. - Eu conheço esse olhar. Eu não vou sair daqui sem levar esses pangarés do tinhoso comigo! Se não quiser levá-los, deixe-me aqui que dou meu jeito.

- Espere, Calter. - disse Tobias, por telepatia. - Está louco, Paimei? Não temos tempo. O inimigo parece já estar convencendo os abissais a nos atacarem. Ficar é morte certa. Você não está em condições de fazer algo sozinho. Até pouco tempo atrás estava jorrando sangue.

- Não saio sem eles. - disse firmemente, com um olhar incendiado pela determinação de suas palavras. - Você por acaso tem noção do que vai acontecer quando eu chegar no baile montado em um desses? As novinhas vão ficar loucas, vão perder a linha. Mano... Não saio sem eles.

Entendendo que Paimei não mudaria de ideia, Tobias, canalizando toda sua energia em suas palavras, começou a conjurar sua mais poderosa magia curativa. Uma forte luz então preencheu o lugar, enquanto os ferimentos de Paimei cicatrizavam e seu fôlego era restaurado.

- Dei tudo de mim nisso. Agradeça a Helm por sua infinita misericórdia. Até que eu recupere minhas forças, não poderei curar ninguém com magia. - murmurou Tobias, ofegante. - Espero que você tenha um plano. Há vidas em jogo.

- Plano? Pra que plano? - desdenhou Paimei, levantando-se num pulo. - O papai está de volta, filhão! - completou Paimei, partindo em disparada na direção dos pesadelos, que vagueavam pelo lugar, sem seus mestres.

- Ledier, vamos! - gritou Tobias. - Calter, você também. - acrescentou, telepaticamente.

Nesse momento, todos os mezzoloths ali presentes sacaram suas armas e partiram, gritando furiosamente e proferindo blasfêmias, em seu idioma profano. Ledier, vendo que a hora era chegada, clamou o nome de Pelor e, em um poderoso golpe, acertou o chão com sua espada, causando uma onda destrutiva, imbuída de energia divina, que se propagou em todas as direções. O choque dessa onda derrubou diversos mezzoloths ao chão, que passaram a cair um por cima do outro, criando um verdadeiro dominó de insetóides. O cavaleiro, diante de tanto poder, acabou caindo de seu pesadelo, que empinara assustado. Já as criaturas aladas de aparência demoníaca que ali estavam, permaneceram em seus lugares, neutros naquele confronto. Não eram mercenários. Ledier sabia disso e, para não provocá-los, não deixou que sua magia os afetasse - assim como não deixou afetar seus aliados.

- Por que não disse antes que podia fazer isso? - questionou Tobias, já próximo de Ledier.

- Um bom paladino nunca revela seus truques. - respondeu, com um sorriso orgulhoso em seu rosto.

Não demorou para que chegassem até Calter, seguindo assim os três em direção à entrada. Olhando para trás, viam aquele mar de mezzoloths se pisoteando, enquanto os demônios alados zombavam deles ruidosamente.

- Hi-yoooo, Silveeeer! - gritou Paimei, galopando pelo ar em um pesadelo, enquanto segurava outro pela rédea. - Vamos em frente, pois atrás vem gente!

Saindo do lugar, encontraram Gillion jogado sobre o cadáver surrado de um mezzoloth, com uma de suas grevas nas mãos. Ele estava bastante ferido, mas ainda vivo e consciente. Seu arco estava jogado ao chão, em pedaços. Já as flechas de sua aljava, todas partidas.

- Só corre, Gillion. Só corre. - aconselhou Calter, enquanto passava por correndo por ele. - Não quero nem saber o que aconteceu aqui fora.

Da entrada, Gillion conseguia ouvir os gritos cheios de ódio das criaturas que, já tendo levantado, corriam atrás deles.

- Entrega para Gillion Mardallis! - gritou Paimei, enquanto saia abruptamente de dentro da fortaleza. - Monte nele, rápido!

Sem perder tempo, Gillion levantou-se e subiu no pesadelo, dando comando para que ele seguisse em frente. Os outros três corriam apressadamente pelas terras úmidas, com Ledier à frente. Quando chegaram na porta, os mezzoloths atropelaram uns aos outros, tentando forçar a passagem, todos ao mesmo tempo. Mais uma vez cairam ao chão, num movimento pouco inteligente - para a diversão dos demônios dentro da fortaleza, que assistiam atentamente ao espetáculo. Os que permaneceram de pé, simplesmente desistiram de continuar a perseguição. Olharam então para trás e viram o cavaleiro que os havia convencido com um olhar de cobrança, alimentado pela raiva: alguém tinha que pagar por aquilo.

Horas depois, os cinco homens reuniram-se para descansar e tratar de suas feridas. Paimei, apesar de ter sido curado, desfaleceu de exaustão, devido ao estresse físico. Acendendo uma fogueira e dividindo a comida que levava consigo com os aventureiros, Ledier começou então a se apresentar e a explicar o que fazia naquele lugar.

- Senhores, sou Ledier, da casa Domeni. Conhecido como o campeão da justiça e cavaleiro vingador. Sou um paladino fiel a Pelor, enviado aqui para cumprir seus desígnios. Vossa Santidade enviou-me aqui, em missão, para que eu os encontrasse. Foi dito a mim que eu vos acharia no Bastião da Derradeira Esperança, então lá esperei. Quando vi vocês, imediatamente reconheci que eram as pessoas certas, por isso os ajudei.

- Por que motivo Pelor o enviaria até nós? - perguntou Tobias, desconfiado.

- A vontade de Pelor está muito além do que mentes mortais podem compreender. Vossa Santidade não me detalhou seus propósitos, mas certamente minha presença aqui tem relação a Atrocitus.

- Atrocitus!? - bradou Gillion. - O que sabe sobre ele? Que relação é essa? É melhor escolher bem suas palavras daqui pra frente, paladino.

- Acalme-se. - disse, em tom manso. - O que você sabe é que Atrocitus adquiriu um poder antigo e aliou-se a Vecna. O que você não sabe é que seu objetivo é eliminar os deuses, tendo ele iniciado campanhas militares grandiosas no plano material, a fim de adquirir poder para tal. Ele tornou-se uma divindade, mas não se deu por satisfeito. Pelor preocupa-se com a crescente ganância de Atrocitus e repudia seus atos cruéis. Por algum motivo, Vossa Santidade acredita que vocês possam ajudar a pará-lo, mas precisam de minha ajuda nessa tarefa.

- Isso é coisa demais para processar assim. O que temos com Pelor? Absolutamente nada. - argumentou Calter. - Queremos nos vingar, mas Carceri nos mantém reféns. Assim como mantém você. Não há como sair desse lugar, acredite. Há dois anos tentamos, sem sucesso. Não fale como se você ou seu deus fossem grande coisa aqui. 

- Por ser domínio do maligno Nerull, Pelor não pode nos tirar daqui. Porém, não acredito que Pelor me enviaria aqui sem que fosse possível sair. Atrocitus está no plano material, não em Carceri. - retrucou Ledier. - E acredito que Vossa Santidade já tenha indicado a saída para essa questão.

- Que seria...? - perguntou Tobias.

- Foi-me dito que, após encontrar com vocês, alguém viria a nosso encontro. Alguém que luta pela mesma causa de Pelor, mas não necessariamente seu aliado: um enviado de outro deus. - respondeu.

- De que deus? - a desconfiança de Gillion não diminuía.

- Não sei responder, pois isso que disse é tudo o que sei. - explicou. - Resta a nós somente esperar.

E assim foi: esperaram durante alguns dias, caminhando por Carceri, fugindo de seus perigos; até finalmente o enviado surgir diante deles. Foi durante uma de suas paradas para descanso que avistaram um homem encapuzado, andando calmamente em direção a eles. Ledier e Tobias imediatamente perceberam a intensa aura benigna que o envolvia, tranquilizando assim todo grupo. O homem tinha a aparência de um senhor de idade bastante avançada, com barba e cabelos brancos. Em volta dele, sete esferas luminosas flutuavam, num ritmo sincronizado. Os aventureiros o fitaram quietos e passivos, mas atentos a qualquer atividade suspeita. Quando o homem finalmente chegou até onde eles estavam, abriu um grande sorriso e saudou-os dizendo:

- Que a graça de Bahamut esteja sobre vós.

Considerações iniciais: Não-canônico

Bom dia a todos os leitores!

Este presente post tem como objetivo explicar a finalidade da nossa nova seção do blog: "Não-canônico".

O termo cânone, no contexto de um universo ficcional, refere-se ao conjunto de romances, histórias, filmes e outros considerados genuínos ou oficialmente sancionados, bem como aos eventos, personagens e cenários considerados como existentes dentro do universo ficcional.

Para que um cenário pareça coerente, de modo a evitar problemas de continuidade, especialmente em obras de ficção que contêm partes múltiplas, os seus criadores e o público por vezes crêem útil definir o que "realmente ocorreu" naquele universo.

Sendo assim, os elementos tidos como "não-canônicos" são histórias cujos eventos nunca aconteceram no universo ficcional. Por exemplo, no post não-canônico "Fatos sobre Paimei #1", as façanhas contadas não são tidas como verdadeiras no universo de Entre Deuses e Homens.

Atente-se ao marcador de "não-canônico". Sempre que houver esse marcador em um post, o conteúdo do mesmo não terá validez para o universo do qual se originou.

Agradeço a todos que leem regularmente nosso blog. Toda a equipe do Hiken & Devaneios agradece a sua visita.

Caso tenha alguma dúvida, não deixe de entrar em contato conosco.

Lorde Sarratina: Fatos sobre Paimei #1

1. Paimei só possui duas licenças: para matar e para sarrar.

2. Diz o ditado popular que toda pessoa tem sua cara-metade. Também é fato que cada chute de Paimei está reservado para uma cara-metade que se tornará uma cara-em-pedaços.

3. Todo o ano Paimei recebe um prêmio como o melhor em várias áreas relacionadas a desafios físicos. Os segundos colocados recebem a tal da Bênção por Excelência, de Kord.

4. Paimei frequentemente faz questão de mostrar a todos as injustiças e falácias dos deuses. Não exatamente por se preocupar com as pessoas ao seu redor, mas para que fique bem claro que, se esses defeitos dos deuses trazem riscos à vida mortal, quem traz riscos aos deuses é Paimei.

5. Na casa de Paimei, um sarrada de ladinho equivale a um aperto de mão.

6. Paimei diz... E você apenas ouve.

7. Paimei se barbeia usando machados de guerra, mas tem de trocá-los com frequência, pois a lâmina geralmente quebra.

8. Paimei pode voar, andar sobre as águas e arremessar uma bola de fogo pela boca. Não são apenas afirmações, mas uma prova de que as leis da física ou da magia jamais ousariam se aplicar à ele.

9. Os mortais querem se tornar deuses. Os deuses querem se tornar Paimei.

10. Quando Paimei diz que uma coisa é verdade, é bom pra ela que seja verdade mesmo.

11. Uma vez Paimei levou um golpe de espada no olho. A espada ficou cega.

12. Paimei não lê livros, ele os encara até conseguir toda a informação que precisa.

13. Paimei só passa as noites com alguma fonte de luz acesa. Não, Paimei não tem medo do escuro, o escuro tem medo de Paimei.

14. Paimei não tem casa. Ele escolhe uma casa e seus moradores se mudam.

15. Paimei só se enganou uma única vez: quando pensou estar enganado.

16. Se Paimei se atrasar, é melhor o tempo andar mais devagar.

17. Paimei não cozinha, ele simplesmente diz para comida que é melhor que ela não esteja crua.

18. Quando alguém morre, é levado pelo ceifeiro. Quando o ceifeiro morre, Paimei que o leva.

19. Paimei nunca vai morrer de ataque cardíaco. Seu coração não é tolo o bastante para "atacar" Paimei.

20. Paimei não segue as regras. As regras seguem Paimei. 

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Lorde Sarratina: O Monge Sarrador #2

Paimei andava lado a lado de seu mestre Chou Deji, dando passos firmes e decididos, sem sequer olhar para trás ou lamentar por tudo aquilo que deixara em Bellrock Valley: casa, família, amigos e, não podemos esquecer, novinhas. Vendo aquilo, Chou Deji admirou-se com a determinação daquele jovem rapaz, pois em seu olhar não havia arrependimento - somente a certeza de que alcançaria seus objetivos.

Os dois caminharam por vários dias, passando por paisagens que mudavam constantemente: florestas tão densas, onde nem mesmo a luz ousava entrar, planícies tão vastas que era possível ver o horizonte a quilômetros de distância. Paimei estava muito ansioso e cheio de perguntas para fazer a Chou, mas também estava acanhado. Seu mestre era um homem claramente bastante sábio, um membro veterano do Clã da Sarradas Aéreas; Paimei não queria decepcioná-lo, então resolver permanecer em silêncio. Sendo assim, todo o início da viagem foi tomado por esse infindável silêncio. Quando Chou Deji finalmente deu sinais de que ia dizer algo, Paimei imediatamente voltou toda sua atenção para ouvir o que seu mestre teria a dizer:

- Você precisa ter mais atenção, meu jovem. Quando, por exemplo, dirá seu nome? - disse Chou Deji, em tom de repreensão, mas deixando escapar um leve sorriso. - Saiu com tanta pressa do vilarejo que esqueceu de se apresentar.

- Tem razão, mestre. Perdoe-me, por favor. Meu nome é Paimei. - respondeu, preocupado com a impressão que havia passado a seu mestre.

Ao ouvir o nome, Chou Deji imediatamente se lembrou de um antigo aprendiz, e velho amigo, o outrora grande Paimei, conhecido por suas incríveis habilidades com a sarrada - era um forte candidato a conseguir reproduzir a lendária sarrada aérea. Lembrou-se que, em seu auge, Paimei tinha poder para sarrar até os mais antigos dragões e mais poderosos abissais.

- Recebi o mesmo nome que meu avô, ele também foi um monge do seu clã. - acrescentou Paimei, muito sorridente.

Chou logo teve certeza que sua parada em Bellrock Valley não fora mera coincidência, mas sim uma obra do destino. Naquele dia, eles caminharam incessantemente, do nascer do sol ao nascer da lua. Quando Chou avistou um bom lugar para acampar, fez um sinal de pausa, virando-se para Paimei e dizendo:

- Mostre-me.

Paimei rapidamente entendeu do que se tratava: largou seus pertences no chão e pôs-se a sarrar. Sarrou para a esquerda e sarrou para a direita, sarrou o chão e sarrou as árvores, sarrou as pedras e seus pertences. Ao ver tal demonstração, Chou Deji ficou bastante impressionado. Era incrível que, mesmo após caminhar tanto, Paimei ainda conseguisse desferir sarradas daquele nível. Seus movimentos eram impecáveis. Seu ritmo? Vigoroso, mas com uma precisão cirúrgica. Era incansável. Chou Deji estava maravilhado. Era lindo. Suas sarradas eram rápidas e cheias de vida. Completamente espetaculares. E o que tornava tudo ainda mais fantástico era o fato de Paimei nunca ter recebido algum tipo de treinamento especial. Após testemunhar as sarradas de Paimei e ter a certeza de que o rapaz era um sarrador nato, Chou Deji não se permitiu esboçar reação, não disse sequer um elogio. Apesar de ter talento, era certo que Paimei ainda tinha muito a aprender, além de um longo caminho a percorrer até alcançar seu objetivo de tornar-se um monge sarrador.

Após terminar a exibição de sarradas, os dois começaram a preparar o acampamento. Paimei agora estava mais à vontade para falar com seu mestre, não perdendo a oportunidade de fazer uma enxurrada de perguntas quando teve a oportunidade.

- Você chegou a conhecer meu avô no clã? Para onde estamos indo? Vai demorar muito para chegarmos lá? E como é o lugar? Como são as pessoas que vivem por lá? O que o senhor irá me ensinar? Irá ensinar-me algo sobre a sarrada lendária? Quanto temp... - perguntou Paimei, sendo abruptamente interrompido por Chou.

- Mais atenção Paimei! Você precisa ter mais atenção! - advertiu Chou Deji, mostrando-lhe que novamente perdera o foco, distraindo-se e deixando-se levar pela curiosidade. - Mas respondendo sua pergunta: sim, eu conheci o seu avô. Ele foi meu aprendiz, além de ter sido um grande amigo.

Ao ouvir aquilo, Paimei esboçou um sorriso cheio de dentes. Estava muito orgulhoso. Sua felicidade por ter a honra de treinar com o mesmo mestre que seu avô era tanta, que nem deixou-se abater pela advertência que recebera.

- E sobre as outras dúvidas, bem... Seja calmo e paciente, pois todas elas serão respondidas em seu devido tempo. - completou Chou Deji, enquanto deitava e preparava-se para dormir. - Já sobre a sarrada lendária: ela não é algo que eu possa ensinar, você terá que descobri-la por conta própria.

Paimei entendeu que aquele dia acabara ali e que precisava descansar para caminhar novamente, logo ao amanhecer. Antes disso, recolheu seus pertences, tirando um pedaço generoso de pão de seu saco e pegando o cantil de água. Enquanto se alimentava, Paimei olhou para Chou Deji, que já dormia tranquilamente, impressionando-se com a resistência dele: haviam caminhado durante todo o dia, mas ele não havia comido ou bebido nada, nem sequer uma migalha de pão. Após a refeição, Paimei tombou e dormiu tão profundamente que parecia ter sido atingido por uma magia de sono - estava exausto.

Na manhã seguinte, Paimei ainda dormia, quando começou a ser cutucado por seu mestre, que tentava acordá-lo.

- Ei garoto, acorda! Já é dia! - exclamou Chou Deji.

Ainda sonolento, Paimei revirou-se no chão, resmungando algumas palavras, como se pedisse mais alguns minutos, voltando a dormir logo em seguida. Presenciando essa cena lamentável, Chou Deji, desferindo um poderoso chute, levantou o rapaz do chão.

- VAMOS EM FRENTE, POIS ATRÁS VEM GENTE! - gritou, para o espanto de Paimei.

Paimei, como um gato assustado, caiu de pé,cheio de pedaços de grama em seu rosto e uma marca de pé em sua costela. Já seu mestre, gargalhava como uma criança, divertindo-se com o susto que Paimei havia levado. Acanhado, Paimei desculpou-se com seu mestre, recolhendo em seguida seus pertences. Seguiram adiante com a viagem, sem mais delongas.

- Mestre, posso fazer-lhe duas perguntas? - perguntou Paimei, respeitosamente, após alguns minutos de caminhada.

Chou Deji, acenando com a cabeça, permitiu as perguntas. Percebeu que Paimei já começara a se policiar, para não cometer os mesmos erros de antes.

- Como o senhor pode ter sido mestre do meu avô, haja vista que ele morreu há muitos anos atrás? - perguntou, bastante intrigado. - Além disso, como o senhor pode passar um dia inteiro caminhando incessantemente, sem ao menos comer ou beber e ainda assim ter tanta força e disposição?

Chou Deji apenas deu olhar para ele, sorriu e voltou a andar. Paimei não entendeu o motivo daquilo, mas lembrou-se do que seu mestre havia dito antes: que todas as dúvidas que tinha seriam respondidas em seu devido tempo. Então, voltou a andar, pensando no quanto queria chegar logo ao seu destino, para assim poder começar seu treinamento o quanto antes. Todavia, mal sabia Paimei que seu treinamento já havia começado.

O Cavaleiro Vingador: Dores da Perda #4

O tempo então passou, escorrendo lentamente. A cada dia eles lembravam da dor que sentiram anos atrás, como se aquilo tivesse acabado de acontecer. Alimentados pelo desejo de vingança, eles cresceram fortes e robustos. Treinaram incessantemente, dedicando-se ao aperfeiçoamento de suas habilidades físicas e mentais. Beldarak tornou-se um mestre com adagas e arcos, além de um excelente caçador. Era sorrateiro e inteligente, conseguindo alcançar seus inimigos antes que notassem sua presença. Já Ledier seguiu o caminho do espadachim, conquistando habilidades tais que beiravam a perfeição. Mas era com a adição do uso de escudos que seu verdadeiro potencial era trazido à tona. Espada e escudo: Ledier tornou-se um guerreiro letal e resiliente. Apesar de ser tão talentoso, ele possuía uma fraqueza, decorrente do trauma que sofrera quando era mais jovem: sempre que via alguém se ajoelhando, lembrava-se da cena de seus pais sendo cruelmente assassinados, enquanto assistia impotente naquele armário escuro.

Todo o ódio guardado durante aqueles anos, precisava ser descarregado, mas o único jeito de fazer isso seria cumprindo a promessa que haviam feito. Quando se completaram exatos quinze anos desde a morte de seus pais, os dois concordaram que a hora de por a vingança em prática havia chegado. Viajaram então para a Floresta de Fharengard, deixando tudo para trás, focados em sua missão. Ao chegarem, assustaram-se grandemente. No lugar onde outrora havia aquela floresta bela e cheia de vida, agora existiam somente troncos retorcidos e um forte cheiro de lodo e morte. Caminharam então cuidadosamente pelo lugar, avançando pelo território fétido, buscando alguma pista do mago. Não deixaram que a aparência pútrida do lugar os impedisse de honrar a lembrança de seus amados pais.

- Ledier, estamos sendo seguidos. Movimentação às quatro horas. - sussurrou Beldarak, sendo bastante sutil.

- Entendido. Interceptá-lo-emos à margem do rio. - respondeu Ledier.

- Ok.

Os dois seguiram adiante, atentos, até chegarem a um pequeno rio lamacento. Beldarak então, fingindo abaixar-se para recolher alguma água do rio, sacou uma flecha rapidamente, tensionou a corda de seu arco e disparou contra o nada. Por um segundo, o silêncio predominou, sendo logo interrompido pelo barulho de algo caindo ao chão. Aproximando-se para verificar, os irmãos logo encontraram o corpo sem vida de um macaco do pântano, com uma flecha cravada em seu crânio.

-  Já pode ser considerado um caçador de macacos. Beldarak, o monkeyslayer. Soa bem. - zombou Ledier, rindo ruidosamente.

Após mais algumas horas de caminhada,  encontraram algo que parecia ser uma espécie de covil: uma pequena caverna, na face de uma grande pedra, com duas estacas no chão adornadas com penduricalhos e crânios em seu exterior. Isso chamou a atenção deles, fazendo-os crer que estivessem na direção correta. Dentro do lugar o mal odor era quase que insuportável, como se algo ali estivesse em um estado de putrefação bastante avançado. Beldarak logo avistou uma criatura ao fundo da caverna, de pé em frente à uma mesa muito rústica. Ela estava manipulando alguns estranhos frascos, misturando o que pareciam ser líquidos e acrescentando folhas e ervas. As únicas fontes de iluminação no lugar, eram as velas aromáticas (de um tipo bastante fétido) espalhadas pelo lugar, postas em cima de crânios humanos, além do feixe de luz que provinha da entrada. Beldarak, não deixando que o ódio o impedisse de pensar, avaliou o lugar rapidamente com um olhar e, prevendo que Ledier poderia perder o controle, não o avisou de suas intenções, tirando assim uma flecha de sua aljava, que estava previamente imbuída com veneno de basilisco atroz - é dito que tal veneno pode paralisar até o mais forte dos dragões -, e preparou-se para o ataque. Ele sabia que, para segurança sua e de seu irmão, precisava ser rápido como um guepardo e preciso como um falcão. Seu rosto suava,  suas pés e mãos ameaçavam tremer e a cena da morte de seus pais repetia-se em sua cabeça. Nesse momento de hesitação, Ledier logo avistou a criatura. Seus olhos então enegreceram de ódio, seu coração palpitava descontroladamente, como se estivesse prestes a sair pela boca. Antes que Beldarak fizesse algo, ele empunhou sua machadinha e a arremessou em direção à criatura. Tudo que ele foi capaz de ouvir nos segundos em que sua machadinha rodopiava pelo ar era o som de sua mãe, em prantos, nos últimos momentos de sua vida. A arma logo acertou em cheio as costas da criatura, fazendo-a uivar de dor. O som de seus ossos estilhaçando ecoou por toda caverna, abafando o som da flecha de Beldarak, que vinha em seguida. A flecha acertou o ombro da criatura, que já estava arqueada, paralisando seu corpo e fazendo-a perder a consciência.

Ao acordar, a criatura viu-se amarrado de cabeça para baixo com a boca amordaçada. Era realmente o mago negro, que friamente matara seus pais anos atrás - Ledier e Beldarak já haviam percebido assim que sentiram o odor característico na hora de entrar na caverna, afinal nunca conseguiram esquecer. Quando Ledier percebeu que ele já estava acordado, cortou a corda que o prendia no alto da caverna com sua espada. O mago então começou a cair em direção ao chão mas, antes que seu corpo tocasse o chão, Ledier acertou um chute tão violento nele que quebrou-lhe o nariz.

- Diga-me seu nome, verme! - ordenou Ledier, enquanto chorava amargamente, devido à lembrança de seus pais.

Não obtendo resposta, Ledier começou a ficar irritado. Andou de um lado a outro dentro da caverna, imaginando meios brutais de praticar sua vingança.

- Qual seu nomeeee, Vermeee? - perguntou, em tom furioso.

Ele repetiu a pergunta várias vezes, mas sempre sem resposta. Entre uma e outra,  Ledier chutava-o com força, descontando a dor da perda de seus pais. O resultado do interrogatório veio na forma de várias costelas quebradas e um braço deslocado. Ledier, vendo que só aquilo era inútil, soltou as amarras. Vendo aquilo, o mago ousou pronunciar algo, mas foi silenciado por Beldarak, que desferiu-lhe um golpe com seu machado, cortando assim uma das pernas da odiosa criatura. Ledier, em fúria, pegou sua espada em seguida e cortou o peito do mago, espirrando sangue imundo por todo o lugar. Pelo corte que fizera, Ledier enfiou bruscamente sua mão, arrancando o coração da criatura e assim tirando-lhe a vida.

- O nome dela era Elga! - sussurrou Ledier, tendo aproximado-se do ouvido do cadáver.

- O nome dele era Frostborn! - completou Beldarak, desferindo um violento chute contra o defunto.

Após completarem sua vingança, voltaram ao lugar onde antes ficava sua antiga casa e ali fizeram um memorial em homenagem aos seus pais:

Em memória de Elga Salazard Frind.
Mãe amada, dedicada e gentil.

Em memória de Frostborn Domeni.
Pai atencioso, carinhoso e leal.

Anos após aquilo, muio aconteceu na vida daqueles dois irmãos. Beldarak foi para o norte, além da nevada Cordilheira de Ether, juntando-se a um clã de assassinos. Ficou conhecido pelo título de: Beldarak Salazard, da casa Domeni, o andarilho das sombras, aquele que não pode ser visto. Sua fama tornou-se tão grande que muitos ainda hoje acreditam que ele não passa de lenda. Já Ledier teve um destino diferente. A vida dele estava envolvida em coisas muito grandes, tornando-se ele, talvez, peça chave nos eventos que decidiriam o destino de toda Criação. Houveram notícias de que ele esteve nas Profundezas Tártaras de Carceri, o plano prisão; e de que ele hoje monta dragões. Há quem diga também que ele possa ser o cavaleiro prateado da antiga profecia, o órfão destinado a levantar a espada que cortaria o mal do mundo.

Será que algum dia os irmãos Domeni lutarão lado a lado novamente? Isso só o futuro dirá, cabendo o simples ato de orar aos deuses, rogando pela vida dos dois.