domingo, 31 de julho de 2016

Tales & Fables: O Orbe Trovejante

Já era noite em Cavekeeper. A maioria dos cidadãos já haviam se recolhido em suas casas, fugindo da escuridão da noite, onde a vibrante luz acinzentada da lua cheia e as poucas tochas espalhadas pelas ruas serviam como uma gentil mão, que levemente erguia o véu do breu absoluto. As festividades recentes, em comemoração ao feriado da Alabarda Ultrajante, - uma antiga tradição, que lembrava a todos das grandes proezas do rei George, o intrépido, na batalha de Monte White - certificaram-se de deixar todos bêbados e cansados demais para vaguearem pelas ruas. Os poucos que se aventuravam, logo caíam de sono numa poça qualquer ou eram "educadamente" conduzidos a seus lares pelos guardas da patrulha.

Tudo isso contribuía para que o ecoante som do piar das corujas-da-montanha tornasse-se a canção de ninar mais ouvida por ali. Peter não gostava disso, aliás odiava corujas. Tinha medo delas desde que fora atacado por uma, quando tinha apenas seis anos de idade. Saiu dessa situação sem nada além de arranhões, mas para uma criança, aquilo foi bastante traumático. Ele preferia os dias rotineiros, onde não haviam patrulhas tão severas, nem toque de recolher, onde era possível ouvir os barulhos dos arruaceiros cantando e do vizinho ferreiro martelando em sua bigorna - a casa de Peter era a próxima a ferraria do Karl do Aço, um velho excêntrico, obcecado por prazos.

- Ainda não dormiu, Peter? Você precisa acordar cedo amanhã para pegar os legumes mais frescos na feira. Seu pai ficará irritado. - advertiu a avó de Peter, que acabara de entrar no quarto.

- Não consigo dormir, já tentei. Culpe as corujas. - respondeu baixo e em tom desanimado, virando-se na cama, tentando esconder o rosto.

- Você já tem treze anos. Está grandinho para ter medo disso. - lembrou-lhe, sentando na beira da cama de Peter, ajeitando-lhe os lençóis.

- Conte uma história, assim eu durmo. - disse entusiasmado, virando-se novamente para a direção dela, num giro rápido.

- Também está grande para histórias.

- Só uma, por favor. - insistiu.

- Uma. - cedeu, com um pequeno sorriso esboçado no rosto. - Conhece a história do grande feiticeiro Isarus e de seu Orbe Trovejante? De como ele, sozinho, derrotou o grande lorde demônio Taru'ukhan?

- Não! - respondeu firme, mostrando-se claramente empolgado com a história que estava prestes a ouvir. - Por favor, conta! Conta!

- Pois bem...

Há muito tempo atrás, no reinado do rei Johnson, o severo, um grande mal desceu sobre o continente. Taru'ukhan, o grande lorde demônio, foi libertado, por uma entidade desconhecida, de seu confinamento eterno no nono abismo de Baator. Ele era um ser de pura maldade e devassidão, sedento por poder e sangue. Mesmo depondo todos os senhores das nove camadas do inferno e conquistando o controle total sobre o plano, ele não se satisfez. Ele tinha algo mais em mente. Algo que era um tabu enorme entre os grandes pretensiosos, algo que ninguém jamais havia conseguido: o controle total sobre Plano Material.

O Plano Material era o pilar de toda criação, de onde os outros planos partiam e se estruturavam. Era como se fosse o esqueleto do multiverso, dando a sustentação para a manutenção do equilíbrio em toda realidade - e disso, nem os reinos distantes estavam livres. Conseguir o controle sobre a coluna vertebral do multiverso significava ter o controle da própria criação. Então, alguém que tivesse tamanha ambição em mente, atraía a atenção dos mais poderosos deuses e, em certo ponto, até mesmo a do Grande Supremo.

Taru'ukhan já havia tentado antes, por isso estava aprisionado. Foi jogado lá por Helm, Pelor e Boccob que, juntos, aniquilaram seu exército maligno, humilharam-no e escolheram não matá-lo, para que se arrependesse por toda eternidade do pecado que cometera. Isso certamente foi um terrível engano. Taru'ukhan jurou vingar-se, jurou que traria ruína para aqueles deuses que o haviam feito se ajoelhar e danação eterna para todo o resto da criação. Entretanto, era claro e evidente que ele não tinha meios para isso e que se ele tentasse novamente seria mais uma vez derrotado. Só que não era tão simples assim. A entidade que havia ido até ele em sua prisão lhe dara como presente não somente liberdade, mas também uma arma. Tal arma era um artefato místico, criado por forças que até mesmo os maiores deuses desconheciam. Era uma grande espada, com poderes inimagináveis e capacidade para até mesmo cortar deuses. A Espada Vorpal, esse era seu nome.

Foi através do poder dela que ele uniu os nove infernos, montando assim um gigantesco exército de corruptores. Marchando depois em direção ao Material, arrasando tudo pelo caminho. Taru'ukhan tornou-se um deus. Conquistou dois terços dos reinos do continente, não demostrando  piedade alguma. Há quem diga que lava jorrava como gêiser onde ele pisava e que o céu escurecia e rasgava numa tempestade violenta por onde ele voava. Não parecia haver esperança para as pessoas que no continente habitavam. O silêncio dos deuses foi cruel.

O reino de Huan, foi então o palco da última e decisiva tentativa de resistência contra Taru'ukhan. Havia sido formada uma aliança entre os reinos ainda de pé, para tentar ir contra o exército maligno. Era o maior exército mortal jamais formado contra o maior exército de demônios - isso sem contar todo o poder da lâmina Vorpal.

Foram cinco dias inteiros, digladiando brutalmente pelas planícies áridas da região de Huan. Muitos demônios caíram. Era clara a vantagem do exército que lutava em nome do Material. A chama da esperança havia reacendido. Havia uma chance de vitória. Mas, infelizmente, todo esse sentimento de confiança, toda essa fé e toda a esperança reunida foram simplesmente transformadas em desespero e pavor no instante que Taru'ukhan decidiu que era hora de interfir pessoalmente nos rumos da batalha. Consumido pela fúria, mergulhado no frenesi da batalha, ele planou sobre o exército mortal, cortando batalhões com um simples balançar da Vorpal. Nem mesmo seus próprios soldados escapavam de sua ira. O restante de fé que sobrara nos poucos sonhadores que permaneceram de pé foi logo consumida quando Taru'ukhan, com palavras cheias de blasfêmia, fez descer do céu uma gigantesca esfera de fogo. Ela era tão grande que cobriu toda a planície, tão intensa que queimou todo o oxigênio em quilômetros, tão impiedosa que só permitiu que Taru'ukhan, glorioso, permanecesse de pé em meio ao mar de carne e aço fundidos. E desde então, essa batalha ficou conhecida como A Batalha dos Dois Sóis.

Conquistar todo o Material era certamente um grande feito, mas efetivamente controlá-lo era algo que os deuses não acreditavam que Taru'ukhan fosse capaz. Logo, permaneceram calados, distantes. Estavam temerosos do poder da Espada Vorpal, então escondiam-se atrás de desculpas para não descerem suas mãos em auxílio aos mortais. Entretanto, um deus decidiu se envolver. Um único deus resolveu que precisava intervir e salvar a humanidade. Seu nome? Terak.

Terak fora um íncubo que ascendera a divindade, através dos poderes de uma magia muito antiga e misteriosa. Seus sentimentos e ideais o levaram a se tornar o deus maior da justiça e da igualdade. Tendo em vista que não haviam mais alternativas, ele convocou seu mais poderoso seguidor, um exímio feiticeiro, de nome Isarus, para enviá-lo até a presença de Taru'ukhan. Obviamente, mesmo possuindo grandes dotes arcanos, Isarus não era páreo para o grande lorde demônio. Pensando nisso, Terak, por motivos que vão muito além do conhecimento humano, sacrificou sua própria vida, sua essência e seu poder para tornar a si mesmo numa arma. Essa arma era o Orbe Trovejante, um artefato de poder insano, que transbordava com a mesma magia que tornara Terak uma deidade. A energia era tão concentrada e intensa, que parecia estar pronta para explodir a qualquer momento. Ela retorcia-se e emitia sons semelhantes aos de trovões, num tom ensurdecedor. O poder era tamanho, que ninguém que não tivesse o sangue dos seres, que há muito controlaram a magia ancestral, correndo em suas veias poderia sequer se aproximar daquilo. Isarus possuía tal sangue.

Ele então, seguindo a ordem de seu mestre, foi até Taru'ukhan. Uma batalha de proporções divinas então logo teve início, retorcendo a terra, fazendo jorrar fogo dos céus, alterando a realidade e apresentando o verdadeiro significado de danação eterna. Até os deuses, que assistiam atônitos, tremeram em seus distantes tronos perante o que seus sentidos testemunhavam. Apesar da severidade da batalha, ela não demorou muito. O poder de Taru'ukhan e sua espada eram imensos, mas o Orbe Trovejante possuía um poder muito além daquele. Tendo derrotado Taru'ukhan, Isarus o matou imediatamente, obliterando sua alma para que jamais voltasse a causar dano novamente. Após isso, tomou a Espada Vorpal e a dividiu em três pedaços, selando-os em diferentes cantos do multiverso, para que ela jamais fosse usada novamente para tais propósitos.

E assim, mesmo com as pesadíssimas baixas, a vida no Plano Material conseguiu se reerguer lentamente, com o passar tempo. Graças a isso, que agora posso te contar essa história, enquanto relaxamos pacificamente na tranquilidade de Cavekeeper. E esse é o magnífico fim da grande história de Isarus, da casa Balerion, o primeiro de seu nome, servo de Terak, descendente dos antigos, portador do Orbe Trovejante e Grande Libertador.

- Fim? Como assim: "esse é o fim"? O que aconteceu com Isarus? E com o Orbe Trovejante? - perguntou Peter, bastante inconformado.

Quanto a Isarus, o feiticeiro, bem... A história diz que mesmo possuindo o sangue dos ancestrais e sendo já bastante poderoso por si só, o corpo dele não tinha capacidade para aguentar o uso daquele poder. Ele morreu pouco tempo depois, tendo envelhecido rapidamente, consumido pela magia. Entretanto, morreu feliz e realizado. Havia cumprido os propósitos de seu mestre e salvo inúmeras vidas. O sacrifício dele e do deus Terak nos salvou, nos permitiu viver.

Já o Orbe, não se sabe ao certo o que aconteceu com ele. Há quem diga que ele, sem alguém para controlá-lo, não suportou a própria massa de energia e colapsou sobre si mesmo, explodindo num grande feixe de energia mágica - inclusive dizem que o Cânion dos Sussurros, à leste de Huan, é resultado dessa explosão. Porém, há também quem diga que o Orbe Trovejante ainda existe por aí, oculto, adormecido, esperando que alguém com o sangue ancestral possa encontrá-lo e usá-lo para combater algum outro grande mal que possa assolar nosso plano.

- Mas se ele tinha tanto poder, com o uso do Orbe, por que não destruiu de uma vez a Espada Vorpal, assim como fez com Taru'ukhan?

- Isso já é uma história para outro dia... Agora só vá dormir. - disse a anciã, enquanto dava um beijo de boa noite em seu neto e o cobria.

- Só mais essa pergunta, vai... - insistiu.

- Boa noite, Peter. - encerrou, levantando e caminhando lentamente porta a fora.


2 comentários:

  1. Terak virou deus e acabou desse jeito. Pq alice não ajudou ele? Pensei q fossem companheiros

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    1. Boa tarde!

      Alice é a deusa do equilíbrio e do livre arbítrio. Sendo assim, ela busca manter certa neutralidade em relação aos eventos que ocorrem no multiverso. Ela certamente sofreu vendo seu amigo se sacrificar, mas entendeu que precisava manter-se afastada. Terak busca a justiça - também de forma neutra, mas sempre intervindo quando necessário.

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