segunda-feira, 25 de julho de 2016

Tales & Fables: Meu Falcão

O reino de Havenholm, por todo reinado Philippe, foi um lugar muito próspero que atraía muitos turistas e mercadores anualmente, alimentando os sonhos dos pequenos comerciantes que desejavam crescer e conquistar algum marco que os fizessem ser lembrados pelas gerações futuras. Em meio a esses sonhadores, estava Clint, proprietário de uma pequena taberna localizada próxima ao mar. O Caneco do Gnomo não era um grande ponto de referência, mas tinha lá seus atrativos, o que somado ao fato de estar localizada numa área com considerável movimentação de pescadores, tornava o lugar suficientemente conhecido para atrair alguns clientes fiéis.

Clint era um homem já velho, um bocado rabugento, mas que aguentava o tranco diário e agradava sua clientela, tendo carisma suficiente para não afastar um cliente mesmo com suas constantes reclamações sobre o insuportável cheiro de peixe que eles traziam consigo. Ele gostava do que fazia. Gostava daquele ambiente onde as pessoas reuniam-se, contavam suas histórias, gabavam-se de seus feitos, compartilhavam seus sonhos e narravam suas aventuras. Era mágico. Um jeito maravilhoso de sentir-se jovem novamente, enquanto ganha dinheiro por isso. Podia parecer simplismo da parte de Clint, mas para ele aquilo era sinônimo de uma vida realizada. Tudo que ele queria estava ao alcance dos ouvidos e de um bom caneco de rum. A única questão era que a idade não perdoava. As veneráveis dores da velhice lembravam-lhe diariamente que precisava de um sucessor, alguém para dar continuidade ao seu sonho. Para isso, ele tinha alguém em mente - sua filha, Melissa -, só que havia um problema.

Melissa era uma linda jovem, com seus vinte e poucos anos, e invejáveis talentos. Determinada e esperta, tinha grandes sonhos e ambições, uma infindável lista de planos que precisava pôr em prática antes de poder declarar-se satisfeita. E eis aqui o dilema na vida de Clint: administrar uma taberna certamente não fazia parte de tais planos. Ela queria viajar, aventurar-se por aí e ver com seus próprios olhos as coisas espetaculares sobre as quais ouvira desde pequena. O que prendia Clint naquele lugar, dava-a motivos de sobra para sair. Entretanto, nunca foi dito que seria fácil para ela conseguir isso. Melissa podia ter um corpo bem ágil e ser especialista em roubar frutas na freira sem ser pega - por pura diversão -, mas isso não a protegeria do feroz mundo que a esperava com suas garras muito bem afiadas. Ela era uma sonhadora, mas não era ingênua.

Certo dia, enquanto auxiliava o pai nos serviços da taberna, deparou-se com um estranho homem que acabara de entrar, vestindo uma negra e imponente armadura de batalha, com um grande dragão de estranhas asas, uma bastante diferente da outra, gravado na região do peitoral. Segurando seu elmo firmemente com uma das mãos e portando em suas costas duas espadas longas, seguramente embainhadas, ele caminhou impetuosamente até um assento disponível ao fundo da taberna. Sua presença era intimidante. Seu olhar, assim como suas espadas, parecia estar pronto para atravessar furiosamente o peito do primeiro homem que se atrevesse a existir. Todavia, isso não assustava Melissa, muito pelo contrário. Ela imediatamente percebeu que aquele homem não era um simples soldado, mas sim um aventureiro, um daqueles grandes guerreiros das histórias que moldaram seus sonhos. Sem demora, ela foi atendê-lo, sendo perseguida pelos olhos preocupados de seu pai e dos apavorados dos outros poucos clientes que estavam ali no momento.

- Bem-vindo ao Caneco do Gnomo. - disse, com bastante entusiasmo. - Como posso ajudar o espadachim?

- Rum. Um barril. - respondeu, com tom severo.

- Um barril? O senhor irá consumir aqui mesmo? - perguntou, surpresa.

- Certamente.

Preferindo não prolongar o questionamento, foi rapidamente até o depósito e, com a ajuda de seu pai, levou o barril até a mesa do homem, que esperava aparentemente impaciente.

- Pronto, espadachim. Aqui está o barril, e um copo. Acho que ainda vai precisar de um. - disse Melissa, em tom provocativo, enquanto seu pai abria o barril.

- O cheiro da bebida...  - disse o homem, respirando profundamente. - Até que enfim.

- É o nosso melhor barril. - gabou-se.

- Saia. - ordenou, já preparando-se para começar a beber.

Melissa rapidamente afastou-se do homem e foi para o balcão da taberna. Pegou então um esfregão e começou a limpar o lugar, disfarçando para poder devanear enquanto admirava o homem que bebia álcool como se fosse leite. Esperou até que ele tivesse bebido cerca de metade do barril, hora essa na qual ele começou a demonstrar sinais de embriaguez, para aproximar-se novamente.

- Espadachim, posso me sentar? - perguntou, não esperando a resposta, já sentando no assento à frente dele.

- Já sentou. - respondeu, num tom muito mais calmo que antes, porém ainda com aquele toque ameaçador.

- Vou ser direta, espadachim. Tenho grande ambição em sair deste lugar, conhecer o mundo, viver experiências marcantes, me tornar forte... Tantas coisas. Porém, não posso fazer nada disso sem alguma ajuda inicial. Tenho uma boa quantia em dinheiro em mãos e estou disposta a dar-te para que me leve em suas viajens e me auxilie nesse início. O que me diz? - perguntou, em tom firme.

O homem, ao ouvir aquilo reclinou-se contra parede, e a fitou por alguns instantes. Seu olhar era profundo e sua expressão vazia, como se estivesse em uma espécie de transe. Melissa sentiu um grande desconforto ao presenciar aquilo, como se a própria alma dela estivesse sendo revirada, num redemoinho lento, mas ainda sim poderoso.

- Não é a mim que você procura. - respondeu finalmente o homem, voltando a sua expressão normal.

- Eu realmente tenho o dinheiro, se é isso que tem dúvida. Quatrocentas peças de ouro. - retrucou, indignada.

- Não é a mim que você procura. Quem você procura irá aparecer logo e vocês tornarão-se um. Então, você conseguirá o que deseja.

- Aparecer logo? Tornar-se um? Do que você está falando? Aceite o dinheiro, eu preciso dessa ajuda. - insistiu.

- Quando o falcão a marreta portar e a morte ele aqui desafiar, então quem você procura encontrado terá.

- Isso não faz sentido. Aceite o dinheiro. Posso conseguir mais cem peças de ouro, se necessário.

- Saia. Agora. - respondeu, em um tom tão ameaçador que até a indômita Melissa recuara.

- Agradeço sua atenção, senhor. - respondeu, saindo apressadamente.

Cinco anos depois, durante uma grande celebração, um princípio de tumulto tomara início na taberna. Para os olhos comuns que viam aquilo no meio das pessoas que cantavam e dançavam, não havia nada além das rotineiras brigas que vez ou outra tomavam conta de um ambiente cheio de homens alcoolizados. Porém, Melissa ao ver o que acontecia, percebeu algo diferente. Viu o que ninguém além dela poderia ter visto. Como se por magia, contemplou a mera cena de dois homens discutindo com um músico que ali trabalhava como algo totalmente além das aparências mais óbvias. Ela tinha, naquele instante, compreendido o que o homem, cinco anos atrás, havia dito. Então, sem perceber, disse:

- Meu Falcão.

--------------------------------------------------------------

Essa história é dedicada ao meu amigo Lucas Geraldo.

Feliz aniversário, mano. Desejo toda felicidade para ti, além de muitos drops mágicos xD

Espero que goste desse singelo presente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário