domingo, 31 de julho de 2016

Tales & Fables: A Ilha Primordial #5

Depois da explosão, Alice viu-se num lugar branco e iluminado, que parecia estender-se infinitamente para todas as direções. Não havia ninguém além dela naquele lugar,  somente a solidão do vácuo. Seu corpo flutuava suavemente em meio ao nada, estando sem nenhum vestígio dos ferimentos que sofrera na luta contra seus perseguidores. Ela não sabia nem ao mesmo dizer há quanto tempo estava ali. Enquanto questionava-se sobre o que estava ocorrendo, ouviu uma voz masculina, suave e delicada, que ecoava de todas as direções, dizendo:

- Não tema, Alice.

- Quem é você? Onde estou? Terak, onde está Terak? O que aconteceu conosco? - questionou, surpresa.

- Eu sou tudo, assim como não sou nada. Eu sou quem cria, assim como sou quem destrói. Eu sou a vida, assim como sou a morte. Eu sou quem sou, assim como sou você e os outros seres. Eu sou a própria magia primordial, mas ela flui através de meu corpo independentemente. Bem... Sobre minha existência, existem diversos paradoxos - ela própria, por sinal, é um enorme paradoxo. Eu existo, mas também não existo. É confuso... Nomes? Hmm, possuo vários. Entretanto, o mais conhecido seria o de "Grande Supremo". É assim que a maioria me chama. É ainda mais confuso eu tentar justificar minha fracassada apresentação neste momento discorrendo sobre a frequência das visitas por aqui, sendo que eu estou em todo lugar, de tudo sei e tudo eu sou... Bem, acho que eu já disse essa parte. Deixe-me explicar o que aconteceu. Você foi selecionada pela própria magia primordial para ser um recipiente. - respondeu, calmamente e em tom simpático.

- Grande... Supremo? Você diz, o Grande Supremo, o deus acima dos deuses? - perguntou, falando rapidamente e enrolando-se. - Você é a fonte da magia primordial, é isso? Recipiente? Não entendo....

- Acalma-se. Você está diante desta minha forma para que entenda o que você agora é e o que isso significará para o resto da existência, além do destino de seu sangue perante as próximas eras. - explicou.

- Pode ao menos responder onde está Terak? E... aonde eu estou? -

- Terak seguirá seu próprio caminho. Não como o seu, mas elevado o suficiente. E sobre você, bem... Se eu tivesse que explicar onde você está, teríamos que novamente voltar aos paradoxos, o que levaria algum tempo para que você possa ter a mínima compreensão do que se trata esse lugar. Então digo-lhe que estás segura, assim como Terak. Não há motivos para preocupações nesse momento. Podemos prosseguir?

-... Sim, podemos. - consentiu, ainda um pouco desconfiada.

- Não existem explicações racionais para o Primórdio escolher um recipiente. Ele simplesmente escolhe. Você foi contemplada com isso e agora as consequências se desenrolam. Em termos simples, a Ilha Primordial era como um ovo, que lentamente chocado, daria por fim luz a uma nova deidade. E essa nova cria divina torna-se-ia um ser cuja existência é necessária para a manutenção da Criação. Logo, sendo você um recipiente para a magia da ilha, tornou-se uma deusa.

- O que? Não é possível! - exclamou, atônita. - Isso significa que eu sou uma deusa agora?

- Correto. - confirmou.

- A luta da minha vida foi contra esses seres que se julgam superiores. Jurei lutar contra o jugo deles. E agora...  Eu sou uma deles? Não... Não é isso que quero pra mim. - contestou.

- Você quer paz, você quer livre arbítrio, você quer justiça, você quer equilíbrio. Deuses governam segundo seus aspectos, cada um tendo seu próprio. Você não será diferente. Sobre isso governará. Poder terá para garantir que tais coisas existam e permaneçam. Você não está indo contra o que acredita, pelo contrário: você alcançou o poder que tanto desejava. - disse, dando um pequena pausa antes de continuar. - Mas obviamente houve um preço a se pagar.

- Preço? - suspirou.

- Sim. Deuses não nascem todos do Primórdio. Na realidade, você e seu amigo íncubo são os únicos atualmente.

- Espera... Terak também? - perguntou, assustada.

- Correto, mas não se preocupe. Os aspectos que ele rege não fogem muito dos ideais que você prega.

- Entendo... Mas então que preço foi pago? - Alice estava ficando cada vez mais preocupada.

- Quando um deus primordial nasce, isso afeta a realidade de diversas formas, pois perturba severamente o fluxo de magia primordial no multiverso. Na maioria dos casos, esse efeito gerado é mais negativo do que positivo. Quando o primeiro deus primordial surgiu, os dragões surgiram com ele. Quando você e Terak ascenderam, nasceram com vocês doze de treze abominações. Seres imortais, quase divinos, nutridos pelo ódio puro e primordial. Criaturas deformadas, grotescas e horrivelmente marcadas pela agonia na qual foram criadas. Eles surgiram em diferentes pontos do multiverso e vagam desde então. Cada uma delas possui uma forma diferente, mas todas têm capacidades que as tornam ameaças até para os deuses.

- Doze de treze? - questionou.

- A última surgirá quando o fim do tempo previsto por mim se aproximar. Ele nascerá de um ventre corrupto, e será a mais poderosa abominação. A décima terceira abominação, o terror alado de asas opostas.

- É culpa minha... - lamentou, sentindo-se profundamente culpada.

- Não, não é. A magia primordial decidiu por sua própria conta e risco tornar você um recipiente. Além do mais, como eu já disse anteriormente, também existe um lado positivo. De seus sentimentos e de sua força, uma nova raça mortal nasceu. Eles são fracos e vivem pouco. São inconstantes e muitas vezes mostram-se uma decepção. Porém, eles herdaram seus sentimentos e seu potencial. Nenhuma outra raça jamais será tão vivaz e determinada. Eles amam e odeiam, confiam e traem, eles lutam e conquistam, eles caem e levantam, eles se compadecem e humilham. São únicos, diferentes uns do outros. Nunca se sabe o que eles podem fazer a seguir. São a raça mais numerosa em todo multiverso, estão em todos os planos. Essa é sua maior herança, deva. Você verá e se orgulhará.

- Uma raça livre... - maravilhou-se.

- Não só livre, mas com um grande destino. Foi permitido a mim ver o que sucede a eles no futuro, e eu os vi determinando o destino do multiverso muitas e muitas vezes. Positivamente ou negativamente, eles são os grandes agentes que determinam o curso das coisas que estão por vir. Porém, haverá um dia que um deles se levantará e trará desequilíbrio total ao multiverso, como nunca antes fora visto. Sangue do seu sangue ele será, e sua casa ele destruirá. Tomará para si o destino de tudo e todos, talvez inclusive o meu. Haverão alguns que se erguerão em oposição a ele, mas não posso te dizer o que disso sucederá. Não me é permitido ver o que acontece depois. - disse, dando logo uma curta pausa. - Todavia, não há mais o que ser dito, além das seguintes palavras: eu, conhecido como o Grande Supremo, a nomeio Alice, da casa Balerion, a primeira de seu nome e de sua casa, deusa do equilíbrio e do livre arbítrio, recipiente do Primórdio, senhora das abominações e mãe dos humanos. Que o nome de sua casa seja a marca da profecia que agora profiro.

E essas foram as únicas coisas que Alice conseguiu se lembrar daquele dia. Ela nunca descobriu onde estava e nem o que aconteceu nos momentos que sucederam aquele, mas viu que o que fora dito, aos poucos se cumpria. Tudo que lhe restou foi continuar sua luta, baseada em seu juramento, levando a tão sonhada liberdade aos cativos e olhando por seus filhos que multiplicavam-se e prosperavam por todo o multiverso.

Nenhum comentário:

Postar um comentário