segunda-feira, 25 de julho de 2016

Tales & Fables: A Ilha Primordial #4

O tempo é uma grandeza matemática, com valores lógicos, científicos, que apresenta-se na natureza como algo imutável, que toma seu curso independente da interferência do não-divino. Entretanto, a percepção dele, do passar desse tempo, pode variar de acordo com nossos sentimentos. Cinco minutos tornam-se horas quando se está numa situação ruim, e cinco anos tornam-se aqueles breves momentos entre o resgate de um abissal ferido e o agora. Nesses cinco anos, Alice e o íncubo, Terak, construíram algo que, numa sociedade como a nossa, poderia chamar-se amizade. No entanto, tendia mais ao respeito, com um toque de confiança e curiosidade correspondida.

A luta pela sobrevivência contra as ameaças naturais da ilha ficou mais fácil com a nova companhia, mas multiplicaram-se os inimigos militares, afinal agora eram dois desertores. As incursões no encalço deles tornaram-se cada vez mais frequentes e mortíferas. Ambos os lados da guerra já haviam tomado conhecimento dos dois andarilhos e de suas ambições, mas o lado celestial parecia ter mais afinco nessa caça. A cada dia que passava, Alice ficava mais próxima de encontrar o Primórdio. Por algum motivo, parecia que a magia primordial do ambiente estava lentamente ligando-se ao corpo dela. Era como se estivesse tornando-se uma com o lugar, uma parte da ilha, mesclando-se à sua essência.

- Parem agora mesmo. Vocês estão cercados, então rendam-se e entreguem o Primórdio. - ordenou o solar, enquanto um grupo de devas a seu comando cercava Alice e Terak.

Solares eram os guerreiros de mais alta patente no exército celestial. Sua glória e poder eram tão grandiosos, que até mesmo os princípes demônios titubeavam perante sua presença. O fato de um estar ali, liderando pessoalmente a busca, demonstrava o grande interesse dos deuses na questão.

- Um solar? Poderia jurar que os deuses não se enganavam tão levianamente. Obviamente não temos o que procura. - respondeu Alice, já preparada para uma inevitável e inútil resistência.

- Você caiu muito, deva. Mentindo, rebelando-se, desertando e até mesmo misturando-se com abissais. Você desonra sua espécie. Não demonstrarei misericórdia, mas os matarei com a mesma velocidade com que me entregarem o Primórdio. Quanto mais demorarem, mais sofrerão. - disse o solar, indiferente.

Terak então caiu de joelhos. Para um abissal de baixa patente como ele, a pressão da presença de um ser tão poderoso quanto aquele solar era suficiente para tirar-lhe todas as forças. Alice sabia que algo como aquilo poderia acontecer com Terak, assim como sabia que mesmo juntos não tinham chances contra os inimigos ao seu redor.

- Terak! - exclamou, preocupada, enquanto inclinava-se para segurar o íncubo caído. - Olhem, eu posso sentir que o Primórdio não está longe, mas não sei a localização exata dele, tudo que... - disse, sendo logo interrompida pelo solar.
- Nós sabemos. Você é o Primórdio. - disse, enquanto sacava sua espada grande, apontando-a para Alice.

Ao ouvir aquilo, Alice não entendeu exatamente o que ele queria dizer com tais palavras, mas sabia que a vida dela acabaria no momento em que se entregasse. Lembrando-se de seu juramento, ela então sacou suas espadas e saltou contra os devas, atacando-os num intenso frenesi. Ela era muito mais forte que um deva comum, mas não resistiria à soma das forças individuais daquele grupo. Eliminando um por um, era observada atentamente pelos olhos penetrantes do solar. Ela dançava, com movimentos precisos e potentes, atravessando os inimigos numa rajada ensandecida de fogo e aço fazendo os que assistiam recuarem com medo da morte certa pelas mãos de Alice. Porém, após derrotar catorze deles sozinha, ela já começara a demonstrar sinais de cansaço. Vendo que a guarda dela estava um pouco mais baixa, um dos devas inimigos voou em disparada contra Terak, mirando sua espada contra o indefeso íncubo, num claro sinal de covardia. Alice, que estava ainda engajada em combate, percebeu a movimentação e, numa impressionante demonstração de reflexos, girou suas espadas de forma a desarmar o deva contra quem lutava e voou em direção ao covarde que tentava contra vida de seu companheiro.

- Covarde! - gritou.

Alice era rápida e ágil, mesmo durante voo. Seu crescimento na ilha a presenteara com habilidades invejáveis. Entretanto, no momento em que mais precisava colocar sua técnica em prática, ela falhou. A espada do deva atravessou cruelmente o peito de Terak, que estava deitado ao chão. Alice, vendo aquilo, entrou em estado de ódio tão profundo que largou suas espadas e saltou contra o assassino do íncubo, quebrando-lhe o pescoço com as mãos nuas.

- Teraaaaak! Você está bem? Responda, Terak! - estava desesperada, seus olhos começaram a encher de lágrimas e suas mãos, manchadas com o escarlate sangue que jorrava do peito dele, tremiam.

- Es-tá tu-tu-do bem. Nós *tosse*, nós sabíamos que ter-mi-na-ria a-a-assim.. - respondeu, usando toda força que lhe restava, expirando logo em seguida.

- Aaaaaaahhhh!!! -  gritou Alice, com todas as suas forças, virando-se logo em seguida para o solar. - Arrancarei seu coração com minhas próprias mãos, maldito!

O solar, ouvindo aquilo, teletransportou-se para frente dela e, num movimento rapido demais para que ela sequer pensasse em tentar acompanhar, atravessou-lhe o peito com sua espada.

- Acabou. - disse, enquanto certificava-se de ter sido letal.

- Você é só uma marionete dos deuses, solar.

Alice, cuspindo muito sangue, levantou sua mão e, num último movimento desesperado, agarrou o pescoço do solar, tentando enforcá-lo. Ele, indiferente diante aquele gesto, fez um último e decisivo movimento com sua espada, cortando com ela em direção ao coração de Alice.

Em seus últimos segundos ainda viva, ela deu-se conta de que não conseguira realizar seu sonho, mas de que fora fiel a seu juramento. Os deuses pareciam ser inalcançáveis, guarnecidos em seus palácios místicos, dando ordens e pondo sua injustiça em prática. Era, de qualquer forma, impossível. Assim ela pensou, pois tudo, até aquele momento, dava a entender isso.

Quando efetivamente faleceu, seus olhos e boca começaram a brilhar, com um intenso feixe de luz. Energia mágica borbulhava loucamente em volta dela e o ambiente começava a alterar-se, como se o espaço estivesse sendo retorcido por tal demonstração de poder. Vendo isso, o solar imediatamente retirou sua espada do corpo de Alice e ordenou a retirada de todos que ali estavam. Só que era tarde. O acúmulo de energia chegou a níveis críticos tais, que colapsou numa grandiosa explosão de magia primordial, engolfando toda a ilha numa nuvem de morte, fogo e danação. A magnitude foi tal, que a Ilha Primordial começou a afundar, levando consigo toda sua magia, que servira como pólvora, alimentando as labaredas de destruição.

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