sexta-feira, 22 de julho de 2016

Tales & Fables: A Ilha Primordial #3

Ele logo após ouvir aquelas palavras, novamente dormiu. Ainda estava fraco demais para manter-se acordado. Foi e voltou algumas vezes, até que, após três dias, recobrou totalmente os sentidos.

- Deva imunda, tire suas patas de mim. Não ouse se aproximar. - ameaçou o íncubo.

- Acho que você não está em condições de fazer exigências, sabe? Eu te salvei. Esqueça que sou uma celestial. No momento sou só uma criatura qualquer, não lhe desejo mal. Chamo-me Alice.

- Desde quando devas têm nomes? - questionou, enquanto levantava-se lentamente de seu leito, sentindo ainda fortes dores em suas asas.

- Pare, não se mexa muito. Suas asas estão fraturadas. Sem magia de cura adequada, levará algumas semanas até que você melhore. Improvisei algumas talas, mas se você ficar se mexendo tanto, de nada vai adiantar. Se quiser me atacar depois que melhorar, sinta-se a vontade, mas por enquanto só fique deitado. - repreendeu. - Mas, respondendo, sua pergunta: eu não sou uma deva como as outras. Não aceito o jugo dos deuses, quero a liberdade do meu povo, assim como a do seu.

- Besteira. - cuspiu, enquanto deitava-se. - Liberdade é uma piada suja, na qual os suplicantes de Carceri adoram acreditar.

Então passaram-se os dias. A princípio contra a vontade do íncubo, Alice insistiu em manter um diálogo, insistiu em tentar conhecê-lo. Não era algo somente em prol de seu juramento, mas também era curiosidade, em sua forma mais inocente. Ela contou suas histórias e em troca ouviu blasfêmias cheias de imoralidade. Contou sobre o juramento que fizera, sobre as lutas que travara e em troca ouviu desdenhos sarcásticos. Mas então, com o passar do tempo, o íncubo deixou-se levar pela simpatia e determinação de Alice, começou a partilhar da curiosidade dela. Contou suas histórias, murmurou os terrores do abismo e fez questão de explicitar o quão mais tenebrosa era a vida de um abissal.

Os dias de recuperação passaram rapidamente, mas os dois permaneceram juntos. Tornaram-se colegas, começando muito lentamente, a criar uma certa confiança um no outro. Ele a seguiu em seu propósito de alcançar o Primórdio, intrigado pela possibilidade de que as determinadas palavras de Alice fossem trazer a mudança que ela procurava.

- Diga-me, deva. Vo...  - disse o íncubo, sendo logo interrompido.

- Meu nome é Alice. - esclareceu.

- Alice, você não me conhece como pensa. Íncubos seduzem e traem. Você, depois de tantos anos vagando pela ilha, é uma das criaturas que melhor conhece essa área. O que te faz ter a certeza de que não estou simplesmente te manipulando para chegar ao Primórdio? Eu poderia muito bem fazê-lo, sem arrependimento.

-  Você tem razão, não o conheço. Mas acredito em você. Se me trair, mesmo assim não amaldiçoarei o dia em que te resgatei naquela floresta. - respondeu, com olhar terno.

- Você não deveria confiar num abissal. Isso um dia será sua ruína. - disse, com tom melancólico.

- Qual seu nome? - perguntou Alice, como se tentasse inspirar ânimo.

- Sou um íncubo. Íncubos não tem nomes. - retrucou, amargo.

- Você não é "um" íncubo. Artigos indefinidos deveriam ser usados com aquilo que não possui individualidade, com aquilo que não se determina. Você está aqui por conta própria. Não mais como um lacaio de algum tirano maligno de Baator, mas como um único indivíduo, seguindo sua própria vontade. Diga-me, qual o seu nome? - insistiu.

- Não é assim que as coisas funcionam para os abissais, pensei ter te contado algumas histórias, tempos atrás. - argumentou o íncubo, virando o rosto.

- Sim, contou. Mas não te perguntei como as coisas funcionam com os abissais, o que perguntei foi o seu nome. - disse, com um tom bastante autoritário.

- Terak. É como eu gostaria de ser chamado, se um nome eu realmente tivesse.

- Pois bem, Terak. É um prazer. - disse ela, enquanto se aproximava dele e estendia a mão. - Sou Alice.

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