sexta-feira, 22 de julho de 2016

Tales & Fables: A Espada Dançarina

Era um dia festivo em Cavekeeper, pois comemorava-se o trigésimo oitavo aniversário do rei Trevor. Todo o reino estava mergulhado em um grande feriado, onde a alegria e a música faziam-se presentes em cada rua e esquina. E não era diferente no palácio real, onde o rei preparara um pomposo banquete, convidando todos os nobres e demais figuras importantes do reino.

Eu sou Trevor, da casa Chronier, quarto de meu nome, a espada dançarina, rei de Cavekeeper e senhor dos guardiões do portal. É com grande honra que recebo-vos aqui para esta grande comemoração em minha homenagem. Desejo a todos um bom divertimento e agora, sintam-se livres para comer o quanto quiserem.

Nisso, dois soldados que estavam ali, trabalhando na segurança do evento, conversavam despreocupadamente, não temendo que algo pudesse acontecer de ruim numa festividade tão tranquila.

- Espada dançarina. Sabe o porquê dele ter esse título? - perguntou um deles.

- Dizem que é porquê a espada é mágica. Um presente de seu pai, entregue antes dele morrer. Num único comando de voz, ela consegue sair por aí lutando sozinha, flutuando. Tudo seguindo a vontade do rei. - respondeu o outro.

- Nah. Isso é o que o rei quer que pensemos. Eu ouvi uma história no mercado goblin, lá no subterrâneo, que diz que a verdade é bem diferente.

- Diferente? Como?

- Bem, foi assim que aconteceu realmente:

O príncipe Trevor, na época ainda não havia sido coroado, foi com um pequeno grupo de soldados numa expedição para explorar a caverna ao norte do Pico Cavekeeper. Quando chegaram, entraram esquecendo de tomar as medidas preventivas para não se perderem lá dentro, o que acabou por impedí-los de voltar. Ficaram três semanas vagando, sem rumo, dentro da caverna escura, comendo morcegos e bebendo a própria urina. Estavam já prontos para morrer quando, já sem tochas para iluminar o caminho, depararam-se com um abismo e caíram dentro dele. Todos os soldados morreram, mas o pequeno príncipe sobreviveu.

Nos túneis dessa galeria subterrânea, descoberta da pior forma possível, ele vagou por mais cinco dias, em total escuridão. Só que no sexto dia, viu uma luz ao longe. Seguiu em direção à ela, com os olhos doendo devido à luminosidade da qual se aproximava, até que chegou em um pequeno altar. Lá quatro braseiros queimavam com chama mágica e uma elegante espada repousava sobre o empoeirado mármore.

- Quem se aproxima de meu altar? - uma voz perguntou, ecoando por toda caverna e atiçando os morcegos que repousavam na área.

Ao ouvir aquela voz e o som do bater de asas das centenas de morcegos, o princípe se abaixou rapidamente, pegou uma pedra no chão e disse em alta voz:

- Comida! - arremessando a pedra em direção à nuvem de morcegos que se agitava ao alto.

- Comida? - perguntou a voz.

Nisso, todos os morcegos, espantados novamente pela voz, tomaram outro rumo e saíram do alcance das pedras do príncipe, sumindo no breu da caverna.

- Satisfeito? - perguntou. - Você espantou eeee... - disse, em tom de indignação, até que percebeu que tinha uma voz macabra falando com ele.

Num pulo, ele afastou-se do altar. Deu-se conta do que estava acontecendo e pegou mais uma pedra, dessa vez não para os morcegos.

- Eu posso tirar você daqui mas, para isso, primeiro precisa me ajudar. - argumentou a voz misteriosa.

- Apareça demônio, não tenho medo de ti! - gritou, já com lágrimas ameaçando brotar do canto de seus olhos.

- Não sou um demônio. - retrucou.

- Não vai me enganar, não. Sei que tá aí, sai de reto, coisa ruim. - gritou. - Devo estar ficando maluco, isso sim. - murmurou logo depois, ao perceber as circunstâncias nas quais se encontrava.

- Sou eu, a espada. Eu que estou falando. Se me tirar desse altar, mostro-lhe o caminho para sair daqui. - a voz começou a mudar o tom, como se estivesse perdendo a paciência.

- Espada? - perguntou, enquanto aproximava-se. - Ha! Como se eu fosse acreditar nisso! - desdenhou. - Revele-se espírito das trevas!

- Oh, seu pedaço de #censurado#. Sou eu, sou eu. Vai me tirar daqui ou não? - esbravejou a voz.

O príncipe então arregalou os olhos, esfregou-os e fitou a espada. Não tinha mais como negar que a voz vinha da espada. Então um grande sorriso estampou seu rosto. Surpreso, apontou pra espada e disse:

- Ahhhh, então é aí que você está, cabrunco. Em nome de Pelor, sai dessa espada que não lhe pertence, coisa ruim. - gritou. - Eu disse que não me enganaria.

- Quer saber? Desisto. Vai, some. Moleque #censurado#.

Depois de duas horas de tentativas fracassadas de exorcismo por parte do príncipe, ele finalmente entendeu que o que estava ali era somente uma espada mágica, com senciência. Então, retirou a espada do altar e esta o guiou até o lado de fora da caverna, iluminando o caminho com magia e fazendo-o voar por entre o abismo.

- Tu me paga... - resmungou a espada, em voz baixa.

- Oi? Disse alguma coisa? - perguntou Trevor, não tendo ouvindo o que a espada tinha dito.

- Não, nada. -  respondeu.

Quando voltaram ao reino, a espada começou a mostrar o seu lado vingativo. Forçava o príncipe a serví-la, tendo que usar nada mais que um saco de farinha como vestimenta, sempre que tivesse que entrar em sua presença. Caso não obedecesse, a espada flutuava e num ataque ensandecido de fúria, ela rasgava tudo que via pela frente, inclusive Trevor. Ninguém no castelo conseguia pará-la. Dizem que seu passatempo favorito era fazer o jovem príncipe dançar nu por horas, junto com ela, lá no salão maior do castelo. Surgindo daí o nome "espada dançarina".

Isso durou até que ele conseguiu dominar a espada usando seu...

- Uhm, bela história. - disse o rei Trevor, agora no presente, interrompendo o homem que a contava. - Vamos continue.

- MAJESTADE! Mil perdões, meu rei. - clamou, enquanto ajoelhava-se rapidamente. - É uma história que os velhos contam para amenizar sua própria mediocridade, todo mundo sabe que não são verdades. Perdoe-me rei, eu aceito qualquer punição, mas peço que poupe minha vida.

- Corte a cabeça dele, Trevor. - disse uma voz, que não sabe-se de onde veio.

O rei logo caiu na gargalhada, ordenou que o soldado voltasse ao serviço e então voltou as festividades. Nunca saberemos a verdade sobre o que aconteceu ali, e muito menos a verdade sobre como a espada foi obtida. Dizem que a voz no dia do banquete não passava de uma brincadeira do rei, mas há quem diga que a própria espada falou.

Só Vecna pra saber com certeza.
Enquanto ele não revela para nós, o mistério continua.

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