terça-feira, 26 de julho de 2016

Entre Deuses e Homens: Capítulo 1

ENTRE DEUSES E HOMENS
CANÇÃO DO DESEQUILÍBRIO


CAPÍTULO 1
Eu sou Ledier Domeni


Recobrando a consciência, os aventureiros perceberam que realmente estavam em outro plano de existência. Tudo que conseguiam ver ao longe, eram planícies lamacentas e pântanos fétidos. No céu, não havia sol ou lua, mas uma tênue luz acinzentada encarregava-se de iluminar o ambiente. Todo o lugar trabalhava em harmonia para transmitir uma sensação de desespero e desilusão. Pesadelos voavam livremente pelos céus, galopando e cuspindo fogo a esmo. Era possível ouvir os gemidos dos suplicantes ecoando pelo vento, como uma canção tenebrosa que certificava-se em ser ouvida na forma de um gélido arrepio na espinha.

- Sim, é assim mesmo. Exatamente como nos livros. - resmungou Tobias. - Maldito, ele realmente nos mandou para cá.

- As Profundezas Tártaras de Carceri. - completou Calter, com dificuldade. Ainda estava muito abalado fisica e mentalmente da possessão que sofrera.

Aquele era um lugar de exílio e aprisionamento, para onde os ostracizados eram enviados para agonizar durante o eterno. Paixões e traições mesclavam-se formando uma escura neblina de terror mágico, que profanava as mentes dos que ali habitavam. Por entre o fétido e o sólido, um grande rio fluía, como uma profunda e lenta massa de ódio líquido. E o mais assustador nisso tudo era a impossibilidade de usar magia para sair dali. Por ser um plano-prisão, a estrutura da teia mágica do lugar fora manipulada por forças primordiais para impedir que quem entrasse pudesse sair depois. Não parecia haver esperança.

Entretanto, o maior dos problemas não era o ambiente inóspito, perigoso e enlouquecido, mas sim o que vivia ali. Diabos e demônios vagavam livremente, usando o plano como palco para a interminável Guerra do Sangue. Não era só uma questão de resistir às seduções da loucura, mas de sobreviver às incursões abissais.

Foram longos dois anos, dia após dia lutando para simplesmente poder abrir os olhos mais uma vez. Caminhando sem rumo, à procura de uma chance, por mais remota que seja, de escapar dali. Apoiando-se uns aos outros, resistiram à loucura, resistiram aos abissais e tornaram-se assim, homens mais fortes do que eram naquele dia, há dois anos, em que a traição tornou-se a protagonista no palco das planícies de Galbatroh.

As coisas só começaram a mudar quando, em uma de suas peregrinações diárias depararam-se com um grupo de quatro humanóides, montados em pesadelos, voando rapidamente em direção ao nada.

- Olhem ao alto! - alertou Gillion, sempre atento. - Humanóides! E não parecem ser abissais. Seriam... humanos?

- Acho que a loucura finalmente fritou seu cérebro. Não vejo nada. - resmungou Calter, não conseguindo enxergar os cavaleiros que voavam em meio ao cinza.

- Ele tem razão, Calter. Meus olhos não são tão bons quanto os do falcão, mas... - retrucou Tobias, dando-se conta logo em seguida do que estava acontecendo ali. - Por Helm! Esses podem ser os primeiros não-abissais que vemos por aqui! O que estamos esperando? Temos que seguí-los, ver se conseguimos alguma informação!

- Eu sou muito mais rápido que vocês. Seguirei-os, tentando manter minha presença oculta. Deixarei um rastro. - disse Paimei, apressadamente, disparando rapidamente logo em seguida para a direção em que os cavaleiros iam.

Paimei era um atleta nato. Haviam poucas criaturas na Criação capazes de ultrapassar suas rápidas passadas ou de imitar suas impressionantes acrobacias. Há quem diga que ele uma vez subiu uma montanha tão rápido que seu corpo entrou em combustão, tendo parado para meditar - ainda em chamas - logo que chegou no topo. Quando questionado sobre a veracidade disso, ele respondia que o segredo para os atos improváveis estava no controle da mente sobre o corpo.

- Santo Helm! Paimei pode ser um excelente lutador, mas é péssimo quando o assunto é usar a cabeça. Acho que ele se esqueceu de pensar como faria pra deixar rastros num pântano desses. - reclamou Tobias, enquanto observava a grande faixa inundada a sua frente.

- Deixe comigo. - disse Calter, enquanto puxava de sua mochila um pequeno espelho de prata, recitando em seguida algumas palavras e fazendo gestos misteriosos. - Agora saberemos onde ele está.

O espelho logo começou a brilhar e a produzir uma imagem. Era a imagem de Paimei correndo alucinadamente, como um basilisco, sobre as águas. Assim que percebera estar sendo observado pela magia de Calter, ele imediatamente começou a mandar beijos e a acenar para o nada.

- Mãe, põe pra gravar porquê eu tô na Globo! Ah, e avisa ao pai que os carinhas ali são humanos mesmo. - disse, mandando segundos depois um duplo twist carpado para se exibir. - Deal with it. - terminou, em tom orgulhoso, concentrando-se novamente na perseguição.

Paimei teve que correr por vários minutos até que pudesse finalmente descansar -  momento esse proporcionado pela chegada ao destino final de seus perseguidos cavaleiros. A sua frente via uma grande fortaleza, esculpida em rocha ígnea negra, ao pé de um montanha. O lugar parecia ter somente uma única e grande entrada, com a forma semelhante a de uma grande rã demoníaca. Paimei estava escondido, por entre arbustos próximos, esperando paciente pela chegada de seus companheiros. Já os quatro homens haviam seguido fortaleza a dentro, ainda montados em seus sinistros pesadelos - criaturas assombrosas, semelhantes a cavalos, mas negras como a noite, com fogo no lugar de suas crinas e rabos.

Uma hora depois, chegaram os outros aventureiros que, com a exceção de Gillion, estavam completamente exauridos da corrida.

- Isso que dá ficar só nos livros, sem treinar o físico. Eu e Gillion não nos cansamos com tão pouco. - desdenhou Paimei. - Mas se bem que Gillion desmaiou que nem um senhor de idade,  quando o esqueletão aéreo apareceu. Ele não aguentou. Depois ficou só murmurando sobre o quanto queria umas minas lá com ele e tal. Nem daria conta delas na hora. - completou, em tom sarcástico e com um grande sorriso no rosto.

- Nem responda Gillion, não é hora pra brincadeiras. - disse Tobias, ofegante. - Onde eles estão?

- Entraram lá, com aqueles, cavalos cabulosos. Mano do céu, ainda pego um daqueles pra mim! - respondeu, entusiasmado.

- Foco, Paimei. Foco. - repreendeu Tobias. 

- Eles não saíram de lá até agora. Só existe aquela entrada ali, por sinal bastante cabulosa também.

- Vamos entrar. - disse Gillion, já caminhando para a entrada.

- Como assim: "vamos entrar"? Você nem sabe o que tem lá dentro. Quem garante que não estamos indo de encontro a uma legião de abissais? - Tobias mostrava-se bastante meticuloso.

- Estão ouvindo essa voz? - perguntou Gillion, levando o dedo ao ouvido, fazendo sinal para que escutassem.

- Não ouço nada. - respondeu Tobias, que atentamente observava ao redor, procurando o que quer que fosse que estivesse fazendo o som ouvido por Gillion.

- Então prestem mais atenção, pois essa voz é a voz do meu arco, que diz: "morte rápida aos meu inimigos". - disse Gillion, correndo despreocupadamente para a entrada.

- Odeio quando ele faz isso. - disse Tobias, desapontado consigo mesmo, por ter mais uma vez caído nas piadas dele.

- Odeia? Mano, eu ADORO quando ele faz isso! - retrucou Paimei, correndo em disparada atrás de Gillion.

- É melhor irmos, Tobias. Vamos ficar muito para trás. - alertou Calter.

- Eles fazem isso, mas é sempre a gente que tem que chegar depois para o resgate heróico. Por Helm, isso cansa! - desabafou Tobias.

- Mas não é? - completou Calter, com um sorriso escapando de seus lábios.

Quando os dois mais apressados chegaram na entrada, viram que ela dava acesso a um grande salão, iluminado pela luz trêmula de tochas. Lá haviam criaturas, perambulando e murmurando, numa procissão macabra. Eram em sua maioria de aparência insetóide, do tamanho de humanos, com olhos vermelhos, placas grossas pelo corpo e quatro braços com garras afiadas. Em menor número, viam-se criaturas humanóides com grandes asas vermelhas, semelhantes as de um demônio. Apesar da aparente tranquilidade que o lugar demonstrava, a sensação no ambiente era pesada. Era como se aquilo fosse um imenso amontoado de palha, esperando a faísca que iniciaria o incêndio.

- Uma legião de abissais... Ele tinha razão. - disse Gillion, enquanto analisava a situação.

- Eu sempre tenho razão. - completou Tobias, que acabara de chegar à entrada.

- Qual o plano então, Sherlock? - desdenhou Gillion.

- Entremos eu e Paimei. Você fique aqui fora, com Calter, dando-nos cobertura. Se algo acontecer, Paimei é rápido o suficiente para correr em fuga e eu posso me teletransportar para fora. Você certifique-se de manter o caminho livre. - disse, virando-se então para Calter. - Já você, fique atento para selar a entrada quando passarmos ou nos teleportar daqui, caso algo saia errado.

- Certo. Até que não é um plano ruim. Vamos lá. - consentiu Gillion.

Assim que poram os pés dentro da fortaleza, Tobias e Paimei foram fulminados pelos olhares desconfiados das criaturas. Elas não esboçaram nenhuma reação ofensiva contra eles, mas seus olhos eram vigilantes. Lá dentro era como uma enorme sala de reuniões, com várias cadeiras e mesas, também esculpidas em rocha, onde as criaturas presentes discutiam seus próprios assuntos escusos. O lugar era maior do que aparentava ao ser visto de fora, devia ter pelo menos alguns poucos quilômetros quadrados, sem nenhum recinto além daquele grande salão. O cheiro forte de enxofre preenchia o lugar, oferecendo um nauseante presente aos seus recém-chegados convidados.

Dentre os muitos ali presentes, eles não viram nenhuma figura humana, somente as mesmas criaturas de antes. Parecia ser somente um refúgio tranquilo para as mentes maléficas poderem planejar suas incursões maquiavélicas, longe dos insuportáveis enxames de mosquitos que infestavam os pântanos de Carceri.

- Tem certeza que eles não saíram daqui? - perguntou Tobias, desconfiado de Paimei. - Você se distrai muito facilmente, afinal.

- Claro que tenho. Fiquei vigiando o tempo todo, com toda atenção. Eu perceberia se eles tivessem saído, ainda mais com aqueles cavalos da hora. Mano, eu quero um daqueles! Imagina o quão tenso seria chegar no templo lá montado num daqueles... - respondeu Paimei, perdendo-se em pensamentos.

- Foco, Paimei. Foco. Precisamos de informações.

- Opa, deixa comigo. - respondeu, enquanto dirigia-se a um dos seres insetóides próximos.

- Não acho boa ideia. - repreendeu Tobias. 

- O seu problema Tobias, é que você pensa demais.

- Pensar demais nos mantêm vivos.

- Só relaxa enquanto eu faço a mágica acontecer. Observe...

Com a aproximação de Paimei, o insetóide deu uma pequena recuada, como se estivesse se preparando para o que quer que fosse acontecer. Adotou uma postura mais intimidadora e seus olhos vermelhos começaram a brilhar mais intensamente.

- Isso não vai prestar...  - cochichou Tobias,  que ia um pouco atrás de Paimei, vigilante.

- O que deseja, escória desprezível? - perguntou a criatura, falando como se cuspisse as palavras com nojo.

O idioma que usava não era o comum, falado por Tobias e Paimei, mas sim o idioma infernal, próprio dos abissais. Por sorte, Paimei tinha habilidades muito específicas que lhe permitiam compreender e se comunicar em outros idiomas que não o dele. Para esse fim, ele fazia a leitura do chi que fluía no corpo de todos os seres vivos, descobrindo o que estava sendo dito pela mera contemplação de tal fluxo e sintonizando-se numa frequência similar de chi, para então responder no idioma da criatura. Tobias, ao contrário, estava totalmente perdido, não entendendo nada, e bastante preocupado em deixar a diplomacia nas mãos de Paimei.

- Você viu por aqui quatro humanos montados em pesadelos? Estamos procurando por eles. - perguntou Paimei, em infernal.

- Quanto pagaria pela informação, lixo humano? - respondeu o insetóide, enquanto analisava Paimei com o olhar.

- O necessário. Diga seu preço.

- Cem peças de ouro. - disse, desconfiado.

- Cem peças de ouro!? - respondeu, em tom de desdém, bastante surpreso pelo alto preço pela informação deveras simples. - Ele quer cem peças de ouro pela informação, acredita? - perguntou pra Tobias, agora falando no idioma comum.

- Eu disse que isso não ia prestar. É um abissal afinal...  Apenas pague. Todos aqui devem fazer esse mesmo tipo de exigência mesquinha, se não pior. - respondeu Tobias, com aparente nojo.

Dito isto, um virote veio voando na direção do insetóide, acertando-o em cheio. Logo depois, ouviram-se os gritos de ataque e os relinchos tenebrosos dos pesadelos. Surgindo do nada, os quatro homens, três armados com lanças e um com uma grande besta, cavalgaram em direção aos dois. Gillion e Calter, percebendo isto, prepararam-se para entrar em ação. Empunhando seu arco, Gillion mirou para dentro do salão, mas quando estava prestes a realizar o disparo contra um dos cavaleiros, um grupo de insetóides surgiu repentinamente atrás deles, todos armados com tridentes, atacando-os com a guarda baixa. Era claramente uma emboscada.

Tendo sido pegos de surpresa, Paimei e Tobias não conseguiram reagir a tempo. Dois dos cavaleiros, já em cima de Paimei, atacaram-lhe com as lanças, arremessando-as contra ele. Quando ele deu-se conta realmente do que estava acontecendo, já era tarde demais. Uma das lanças havia acertado em cheio sua panturrilha, fazendo-o cair de joelhos, enquanto a outra acertara sua costas, fazendo-o perder a consciência por alguns segundos, no choque. Já Tobias, pouco habilidoso em combate corporal, ficou imóvel diante da grandiosa investida que estava sendo realizada contra ele, temendo o pior. Nisso, uma adaga passou zunindo por ele, acertando precisamente a garganta do cavaleiro, derrubando-o. Vendo isto, o cavaleiro com a besta logo disparou contra Tobias, que ainda confuso, continuou parado. Parecia que aquele virote rodopiando em sua direção era a última coisa que veria em vida, até que um homem, trajando uma elegante armadura de batalha, saltou em sua frente, protegendo-o com o escudo que portava em sua mão esquerda.

- O-oque está acontecendo? Quem é você? - perguntou Tobias ao homem, estando ainda perplexo com o que acabara de acontecer.

- Não há motivo para pânico. Eu sou Ledier Domeni, o servo de Pelor e estou aqui para aniquilar esse mal que vos assola.

2 comentários:

  1. Muito bom, estou aguardando os próximos capítulos !!!

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  2. kkkkkkkkkk ansioso por mais, muito legal

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