domingo, 31 de julho de 2016

Tales & Fables: A Ilha Primordial #5

Depois da explosão, Alice viu-se num lugar branco e iluminado, que parecia estender-se infinitamente para todas as direções. Não havia ninguém além dela naquele lugar,  somente a solidão do vácuo. Seu corpo flutuava suavemente em meio ao nada, estando sem nenhum vestígio dos ferimentos que sofrera na luta contra seus perseguidores. Ela não sabia nem ao mesmo dizer há quanto tempo estava ali. Enquanto questionava-se sobre o que estava ocorrendo, ouviu uma voz masculina, suave e delicada, que ecoava de todas as direções, dizendo:

- Não tema, Alice.

- Quem é você? Onde estou? Terak, onde está Terak? O que aconteceu conosco? - questionou, surpresa.

- Eu sou tudo, assim como não sou nada. Eu sou quem cria, assim como sou quem destrói. Eu sou a vida, assim como sou a morte. Eu sou quem sou, assim como sou você e os outros seres. Eu sou a própria magia primordial, mas ela flui através de meu corpo independentemente. Bem... Sobre minha existência, existem diversos paradoxos - ela própria, por sinal, é um enorme paradoxo. Eu existo, mas também não existo. É confuso... Nomes? Hmm, possuo vários. Entretanto, o mais conhecido seria o de "Grande Supremo". É assim que a maioria me chama. É ainda mais confuso eu tentar justificar minha fracassada apresentação neste momento discorrendo sobre a frequência das visitas por aqui, sendo que eu estou em todo lugar, de tudo sei e tudo eu sou... Bem, acho que eu já disse essa parte. Deixe-me explicar o que aconteceu. Você foi selecionada pela própria magia primordial para ser um recipiente. - respondeu, calmamente e em tom simpático.

- Grande... Supremo? Você diz, o Grande Supremo, o deus acima dos deuses? - perguntou, falando rapidamente e enrolando-se. - Você é a fonte da magia primordial, é isso? Recipiente? Não entendo....

- Acalma-se. Você está diante desta minha forma para que entenda o que você agora é e o que isso significará para o resto da existência, além do destino de seu sangue perante as próximas eras. - explicou.

- Pode ao menos responder onde está Terak? E... aonde eu estou? -

- Terak seguirá seu próprio caminho. Não como o seu, mas elevado o suficiente. E sobre você, bem... Se eu tivesse que explicar onde você está, teríamos que novamente voltar aos paradoxos, o que levaria algum tempo para que você possa ter a mínima compreensão do que se trata esse lugar. Então digo-lhe que estás segura, assim como Terak. Não há motivos para preocupações nesse momento. Podemos prosseguir?

-... Sim, podemos. - consentiu, ainda um pouco desconfiada.

- Não existem explicações racionais para o Primórdio escolher um recipiente. Ele simplesmente escolhe. Você foi contemplada com isso e agora as consequências se desenrolam. Em termos simples, a Ilha Primordial era como um ovo, que lentamente chocado, daria por fim luz a uma nova deidade. E essa nova cria divina torna-se-ia um ser cuja existência é necessária para a manutenção da Criação. Logo, sendo você um recipiente para a magia da ilha, tornou-se uma deusa.

- O que? Não é possível! - exclamou, atônita. - Isso significa que eu sou uma deusa agora?

- Correto. - confirmou.

- A luta da minha vida foi contra esses seres que se julgam superiores. Jurei lutar contra o jugo deles. E agora...  Eu sou uma deles? Não... Não é isso que quero pra mim. - contestou.

- Você quer paz, você quer livre arbítrio, você quer justiça, você quer equilíbrio. Deuses governam segundo seus aspectos, cada um tendo seu próprio. Você não será diferente. Sobre isso governará. Poder terá para garantir que tais coisas existam e permaneçam. Você não está indo contra o que acredita, pelo contrário: você alcançou o poder que tanto desejava. - disse, dando um pequena pausa antes de continuar. - Mas obviamente houve um preço a se pagar.

- Preço? - suspirou.

- Sim. Deuses não nascem todos do Primórdio. Na realidade, você e seu amigo íncubo são os únicos atualmente.

- Espera... Terak também? - perguntou, assustada.

- Correto, mas não se preocupe. Os aspectos que ele rege não fogem muito dos ideais que você prega.

- Entendo... Mas então que preço foi pago? - Alice estava ficando cada vez mais preocupada.

- Quando um deus primordial nasce, isso afeta a realidade de diversas formas, pois perturba severamente o fluxo de magia primordial no multiverso. Na maioria dos casos, esse efeito gerado é mais negativo do que positivo. Quando o primeiro deus primordial surgiu, os dragões surgiram com ele. Quando você e Terak ascenderam, nasceram com vocês doze de treze abominações. Seres imortais, quase divinos, nutridos pelo ódio puro e primordial. Criaturas deformadas, grotescas e horrivelmente marcadas pela agonia na qual foram criadas. Eles surgiram em diferentes pontos do multiverso e vagam desde então. Cada uma delas possui uma forma diferente, mas todas têm capacidades que as tornam ameaças até para os deuses.

- Doze de treze? - questionou.

- A última surgirá quando o fim do tempo previsto por mim se aproximar. Ele nascerá de um ventre corrupto, e será a mais poderosa abominação. A décima terceira abominação, o terror alado de asas opostas.

- É culpa minha... - lamentou, sentindo-se profundamente culpada.

- Não, não é. A magia primordial decidiu por sua própria conta e risco tornar você um recipiente. Além do mais, como eu já disse anteriormente, também existe um lado positivo. De seus sentimentos e de sua força, uma nova raça mortal nasceu. Eles são fracos e vivem pouco. São inconstantes e muitas vezes mostram-se uma decepção. Porém, eles herdaram seus sentimentos e seu potencial. Nenhuma outra raça jamais será tão vivaz e determinada. Eles amam e odeiam, confiam e traem, eles lutam e conquistam, eles caem e levantam, eles se compadecem e humilham. São únicos, diferentes uns do outros. Nunca se sabe o que eles podem fazer a seguir. São a raça mais numerosa em todo multiverso, estão em todos os planos. Essa é sua maior herança, deva. Você verá e se orgulhará.

- Uma raça livre... - maravilhou-se.

- Não só livre, mas com um grande destino. Foi permitido a mim ver o que sucede a eles no futuro, e eu os vi determinando o destino do multiverso muitas e muitas vezes. Positivamente ou negativamente, eles são os grandes agentes que determinam o curso das coisas que estão por vir. Porém, haverá um dia que um deles se levantará e trará desequilíbrio total ao multiverso, como nunca antes fora visto. Sangue do seu sangue ele será, e sua casa ele destruirá. Tomará para si o destino de tudo e todos, talvez inclusive o meu. Haverão alguns que se erguerão em oposição a ele, mas não posso te dizer o que disso sucederá. Não me é permitido ver o que acontece depois. - disse, dando logo uma curta pausa. - Todavia, não há mais o que ser dito, além das seguintes palavras: eu, conhecido como o Grande Supremo, a nomeio Alice, da casa Balerion, a primeira de seu nome e de sua casa, deusa do equilíbrio e do livre arbítrio, recipiente do Primórdio, senhora das abominações e mãe dos humanos. Que o nome de sua casa seja a marca da profecia que agora profiro.

E essas foram as únicas coisas que Alice conseguiu se lembrar daquele dia. Ela nunca descobriu onde estava e nem o que aconteceu nos momentos que sucederam aquele, mas viu que o que fora dito, aos poucos se cumpria. Tudo que lhe restou foi continuar sua luta, baseada em seu juramento, levando a tão sonhada liberdade aos cativos e olhando por seus filhos que multiplicavam-se e prosperavam por todo o multiverso.

Tales & Fables: O Orbe Trovejante

Já era noite em Cavekeeper. A maioria dos cidadãos já haviam se recolhido em suas casas, fugindo da escuridão da noite, onde a vibrante luz acinzentada da lua cheia e as poucas tochas espalhadas pelas ruas serviam como uma gentil mão, que levemente erguia o véu do breu absoluto. As festividades recentes, em comemoração ao feriado da Alabarda Ultrajante, - uma antiga tradição, que lembrava a todos das grandes proezas do rei George, o intrépido, na batalha de Monte White - certificaram-se de deixar todos bêbados e cansados demais para vaguearem pelas ruas. Os poucos que se aventuravam, logo caíam de sono numa poça qualquer ou eram "educadamente" conduzidos a seus lares pelos guardas da patrulha.

Tudo isso contribuía para que o ecoante som do piar das corujas-da-montanha tornasse-se a canção de ninar mais ouvida por ali. Peter não gostava disso, aliás odiava corujas. Tinha medo delas desde que fora atacado por uma, quando tinha apenas seis anos de idade. Saiu dessa situação sem nada além de arranhões, mas para uma criança, aquilo foi bastante traumático. Ele preferia os dias rotineiros, onde não haviam patrulhas tão severas, nem toque de recolher, onde era possível ouvir os barulhos dos arruaceiros cantando e do vizinho ferreiro martelando em sua bigorna - a casa de Peter era a próxima a ferraria do Karl do Aço, um velho excêntrico, obcecado por prazos.

- Ainda não dormiu, Peter? Você precisa acordar cedo amanhã para pegar os legumes mais frescos na feira. Seu pai ficará irritado. - advertiu a avó de Peter, que acabara de entrar no quarto.

- Não consigo dormir, já tentei. Culpe as corujas. - respondeu baixo e em tom desanimado, virando-se na cama, tentando esconder o rosto.

- Você já tem treze anos. Está grandinho para ter medo disso. - lembrou-lhe, sentando na beira da cama de Peter, ajeitando-lhe os lençóis.

- Conte uma história, assim eu durmo. - disse entusiasmado, virando-se novamente para a direção dela, num giro rápido.

- Também está grande para histórias.

- Só uma, por favor. - insistiu.

- Uma. - cedeu, com um pequeno sorriso esboçado no rosto. - Conhece a história do grande feiticeiro Isarus e de seu Orbe Trovejante? De como ele, sozinho, derrotou o grande lorde demônio Taru'ukhan?

- Não! - respondeu firme, mostrando-se claramente empolgado com a história que estava prestes a ouvir. - Por favor, conta! Conta!

- Pois bem...

Há muito tempo atrás, no reinado do rei Johnson, o severo, um grande mal desceu sobre o continente. Taru'ukhan, o grande lorde demônio, foi libertado, por uma entidade desconhecida, de seu confinamento eterno no nono abismo de Baator. Ele era um ser de pura maldade e devassidão, sedento por poder e sangue. Mesmo depondo todos os senhores das nove camadas do inferno e conquistando o controle total sobre o plano, ele não se satisfez. Ele tinha algo mais em mente. Algo que era um tabu enorme entre os grandes pretensiosos, algo que ninguém jamais havia conseguido: o controle total sobre Plano Material.

O Plano Material era o pilar de toda criação, de onde os outros planos partiam e se estruturavam. Era como se fosse o esqueleto do multiverso, dando a sustentação para a manutenção do equilíbrio em toda realidade - e disso, nem os reinos distantes estavam livres. Conseguir o controle sobre a coluna vertebral do multiverso significava ter o controle da própria criação. Então, alguém que tivesse tamanha ambição em mente, atraía a atenção dos mais poderosos deuses e, em certo ponto, até mesmo a do Grande Supremo.

Taru'ukhan já havia tentado antes, por isso estava aprisionado. Foi jogado lá por Helm, Pelor e Boccob que, juntos, aniquilaram seu exército maligno, humilharam-no e escolheram não matá-lo, para que se arrependesse por toda eternidade do pecado que cometera. Isso certamente foi um terrível engano. Taru'ukhan jurou vingar-se, jurou que traria ruína para aqueles deuses que o haviam feito se ajoelhar e danação eterna para todo o resto da criação. Entretanto, era claro e evidente que ele não tinha meios para isso e que se ele tentasse novamente seria mais uma vez derrotado. Só que não era tão simples assim. A entidade que havia ido até ele em sua prisão lhe dara como presente não somente liberdade, mas também uma arma. Tal arma era um artefato místico, criado por forças que até mesmo os maiores deuses desconheciam. Era uma grande espada, com poderes inimagináveis e capacidade para até mesmo cortar deuses. A Espada Vorpal, esse era seu nome.

Foi através do poder dela que ele uniu os nove infernos, montando assim um gigantesco exército de corruptores. Marchando depois em direção ao Material, arrasando tudo pelo caminho. Taru'ukhan tornou-se um deus. Conquistou dois terços dos reinos do continente, não demostrando  piedade alguma. Há quem diga que lava jorrava como gêiser onde ele pisava e que o céu escurecia e rasgava numa tempestade violenta por onde ele voava. Não parecia haver esperança para as pessoas que no continente habitavam. O silêncio dos deuses foi cruel.

O reino de Huan, foi então o palco da última e decisiva tentativa de resistência contra Taru'ukhan. Havia sido formada uma aliança entre os reinos ainda de pé, para tentar ir contra o exército maligno. Era o maior exército mortal jamais formado contra o maior exército de demônios - isso sem contar todo o poder da lâmina Vorpal.

Foram cinco dias inteiros, digladiando brutalmente pelas planícies áridas da região de Huan. Muitos demônios caíram. Era clara a vantagem do exército que lutava em nome do Material. A chama da esperança havia reacendido. Havia uma chance de vitória. Mas, infelizmente, todo esse sentimento de confiança, toda essa fé e toda a esperança reunida foram simplesmente transformadas em desespero e pavor no instante que Taru'ukhan decidiu que era hora de interfir pessoalmente nos rumos da batalha. Consumido pela fúria, mergulhado no frenesi da batalha, ele planou sobre o exército mortal, cortando batalhões com um simples balançar da Vorpal. Nem mesmo seus próprios soldados escapavam de sua ira. O restante de fé que sobrara nos poucos sonhadores que permaneceram de pé foi logo consumida quando Taru'ukhan, com palavras cheias de blasfêmia, fez descer do céu uma gigantesca esfera de fogo. Ela era tão grande que cobriu toda a planície, tão intensa que queimou todo o oxigênio em quilômetros, tão impiedosa que só permitiu que Taru'ukhan, glorioso, permanecesse de pé em meio ao mar de carne e aço fundidos. E desde então, essa batalha ficou conhecida como A Batalha dos Dois Sóis.

Conquistar todo o Material era certamente um grande feito, mas efetivamente controlá-lo era algo que os deuses não acreditavam que Taru'ukhan fosse capaz. Logo, permaneceram calados, distantes. Estavam temerosos do poder da Espada Vorpal, então escondiam-se atrás de desculpas para não descerem suas mãos em auxílio aos mortais. Entretanto, um deus decidiu se envolver. Um único deus resolveu que precisava intervir e salvar a humanidade. Seu nome? Terak.

Terak fora um íncubo que ascendera a divindade, através dos poderes de uma magia muito antiga e misteriosa. Seus sentimentos e ideais o levaram a se tornar o deus maior da justiça e da igualdade. Tendo em vista que não haviam mais alternativas, ele convocou seu mais poderoso seguidor, um exímio feiticeiro, de nome Isarus, para enviá-lo até a presença de Taru'ukhan. Obviamente, mesmo possuindo grandes dotes arcanos, Isarus não era páreo para o grande lorde demônio. Pensando nisso, Terak, por motivos que vão muito além do conhecimento humano, sacrificou sua própria vida, sua essência e seu poder para tornar a si mesmo numa arma. Essa arma era o Orbe Trovejante, um artefato de poder insano, que transbordava com a mesma magia que tornara Terak uma deidade. A energia era tão concentrada e intensa, que parecia estar pronta para explodir a qualquer momento. Ela retorcia-se e emitia sons semelhantes aos de trovões, num tom ensurdecedor. O poder era tamanho, que ninguém que não tivesse o sangue dos seres, que há muito controlaram a magia ancestral, correndo em suas veias poderia sequer se aproximar daquilo. Isarus possuía tal sangue.

Ele então, seguindo a ordem de seu mestre, foi até Taru'ukhan. Uma batalha de proporções divinas então logo teve início, retorcendo a terra, fazendo jorrar fogo dos céus, alterando a realidade e apresentando o verdadeiro significado de danação eterna. Até os deuses, que assistiam atônitos, tremeram em seus distantes tronos perante o que seus sentidos testemunhavam. Apesar da severidade da batalha, ela não demorou muito. O poder de Taru'ukhan e sua espada eram imensos, mas o Orbe Trovejante possuía um poder muito além daquele. Tendo derrotado Taru'ukhan, Isarus o matou imediatamente, obliterando sua alma para que jamais voltasse a causar dano novamente. Após isso, tomou a Espada Vorpal e a dividiu em três pedaços, selando-os em diferentes cantos do multiverso, para que ela jamais fosse usada novamente para tais propósitos.

E assim, mesmo com as pesadíssimas baixas, a vida no Plano Material conseguiu se reerguer lentamente, com o passar tempo. Graças a isso, que agora posso te contar essa história, enquanto relaxamos pacificamente na tranquilidade de Cavekeeper. E esse é o magnífico fim da grande história de Isarus, da casa Balerion, o primeiro de seu nome, servo de Terak, descendente dos antigos, portador do Orbe Trovejante e Grande Libertador.

- Fim? Como assim: "esse é o fim"? O que aconteceu com Isarus? E com o Orbe Trovejante? - perguntou Peter, bastante inconformado.

Quanto a Isarus, o feiticeiro, bem... A história diz que mesmo possuindo o sangue dos ancestrais e sendo já bastante poderoso por si só, o corpo dele não tinha capacidade para aguentar o uso daquele poder. Ele morreu pouco tempo depois, tendo envelhecido rapidamente, consumido pela magia. Entretanto, morreu feliz e realizado. Havia cumprido os propósitos de seu mestre e salvo inúmeras vidas. O sacrifício dele e do deus Terak nos salvou, nos permitiu viver.

Já o Orbe, não se sabe ao certo o que aconteceu com ele. Há quem diga que ele, sem alguém para controlá-lo, não suportou a própria massa de energia e colapsou sobre si mesmo, explodindo num grande feixe de energia mágica - inclusive dizem que o Cânion dos Sussurros, à leste de Huan, é resultado dessa explosão. Porém, há também quem diga que o Orbe Trovejante ainda existe por aí, oculto, adormecido, esperando que alguém com o sangue ancestral possa encontrá-lo e usá-lo para combater algum outro grande mal que possa assolar nosso plano.

- Mas se ele tinha tanto poder, com o uso do Orbe, por que não destruiu de uma vez a Espada Vorpal, assim como fez com Taru'ukhan?

- Isso já é uma história para outro dia... Agora só vá dormir. - disse a anciã, enquanto dava um beijo de boa noite em seu neto e o cobria.

- Só mais essa pergunta, vai... - insistiu.

- Boa noite, Peter. - encerrou, levantando e caminhando lentamente porta a fora.


terça-feira, 26 de julho de 2016

Entre Deuses e Homens: Capítulo 1

ENTRE DEUSES E HOMENS
CANÇÃO DO DESEQUILÍBRIO


CAPÍTULO 1
Eu sou Ledier Domeni


Recobrando a consciência, os aventureiros perceberam que realmente estavam em outro plano de existência. Tudo que conseguiam ver ao longe, eram planícies lamacentas e pântanos fétidos. No céu, não havia sol ou lua, mas uma tênue luz acinzentada encarregava-se de iluminar o ambiente. Todo o lugar trabalhava em harmonia para transmitir uma sensação de desespero e desilusão. Pesadelos voavam livremente pelos céus, galopando e cuspindo fogo a esmo. Era possível ouvir os gemidos dos suplicantes ecoando pelo vento, como uma canção tenebrosa que certificava-se em ser ouvida na forma de um gélido arrepio na espinha.

- Sim, é assim mesmo. Exatamente como nos livros. - resmungou Tobias. - Maldito, ele realmente nos mandou para cá.

- As Profundezas Tártaras de Carceri. - completou Calter, com dificuldade. Ainda estava muito abalado fisica e mentalmente da possessão que sofrera.

Aquele era um lugar de exílio e aprisionamento, para onde os ostracizados eram enviados para agonizar durante o eterno. Paixões e traições mesclavam-se formando uma escura neblina de terror mágico, que profanava as mentes dos que ali habitavam. Por entre o fétido e o sólido, um grande rio fluía, como uma profunda e lenta massa de ódio líquido. E o mais assustador nisso tudo era a impossibilidade de usar magia para sair dali. Por ser um plano-prisão, a estrutura da teia mágica do lugar fora manipulada por forças primordiais para impedir que quem entrasse pudesse sair depois. Não parecia haver esperança.

Entretanto, o maior dos problemas não era o ambiente inóspito, perigoso e enlouquecido, mas sim o que vivia ali. Diabos e demônios vagavam livremente, usando o plano como palco para a interminável Guerra do Sangue. Não era só uma questão de resistir às seduções da loucura, mas de sobreviver às incursões abissais.

Foram longos dois anos, dia após dia lutando para simplesmente poder abrir os olhos mais uma vez. Caminhando sem rumo, à procura de uma chance, por mais remota que seja, de escapar dali. Apoiando-se uns aos outros, resistiram à loucura, resistiram aos abissais e tornaram-se assim, homens mais fortes do que eram naquele dia, há dois anos, em que a traição tornou-se a protagonista no palco das planícies de Galbatroh.

As coisas só começaram a mudar quando, em uma de suas peregrinações diárias depararam-se com um grupo de quatro humanóides, montados em pesadelos, voando rapidamente em direção ao nada.

- Olhem ao alto! - alertou Gillion, sempre atento. - Humanóides! E não parecem ser abissais. Seriam... humanos?

- Acho que a loucura finalmente fritou seu cérebro. Não vejo nada. - resmungou Calter, não conseguindo enxergar os cavaleiros que voavam em meio ao cinza.

- Ele tem razão, Calter. Meus olhos não são tão bons quanto os do falcão, mas... - retrucou Tobias, dando-se conta logo em seguida do que estava acontecendo ali. - Por Helm! Esses podem ser os primeiros não-abissais que vemos por aqui! O que estamos esperando? Temos que seguí-los, ver se conseguimos alguma informação!

- Eu sou muito mais rápido que vocês. Seguirei-os, tentando manter minha presença oculta. Deixarei um rastro. - disse Paimei, apressadamente, disparando rapidamente logo em seguida para a direção em que os cavaleiros iam.

Paimei era um atleta nato. Haviam poucas criaturas na Criação capazes de ultrapassar suas rápidas passadas ou de imitar suas impressionantes acrobacias. Há quem diga que ele uma vez subiu uma montanha tão rápido que seu corpo entrou em combustão, tendo parado para meditar - ainda em chamas - logo que chegou no topo. Quando questionado sobre a veracidade disso, ele respondia que o segredo para os atos improváveis estava no controle da mente sobre o corpo.

- Santo Helm! Paimei pode ser um excelente lutador, mas é péssimo quando o assunto é usar a cabeça. Acho que ele se esqueceu de pensar como faria pra deixar rastros num pântano desses. - reclamou Tobias, enquanto observava a grande faixa inundada a sua frente.

- Deixe comigo. - disse Calter, enquanto puxava de sua mochila um pequeno espelho de prata, recitando em seguida algumas palavras e fazendo gestos misteriosos. - Agora saberemos onde ele está.

O espelho logo começou a brilhar e a produzir uma imagem. Era a imagem de Paimei correndo alucinadamente, como um basilisco, sobre as águas. Assim que percebera estar sendo observado pela magia de Calter, ele imediatamente começou a mandar beijos e a acenar para o nada.

- Mãe, põe pra gravar porquê eu tô na Globo! Ah, e avisa ao pai que os carinhas ali são humanos mesmo. - disse, mandando segundos depois um duplo twist carpado para se exibir. - Deal with it. - terminou, em tom orgulhoso, concentrando-se novamente na perseguição.

Paimei teve que correr por vários minutos até que pudesse finalmente descansar -  momento esse proporcionado pela chegada ao destino final de seus perseguidos cavaleiros. A sua frente via uma grande fortaleza, esculpida em rocha ígnea negra, ao pé de um montanha. O lugar parecia ter somente uma única e grande entrada, com a forma semelhante a de uma grande rã demoníaca. Paimei estava escondido, por entre arbustos próximos, esperando paciente pela chegada de seus companheiros. Já os quatro homens haviam seguido fortaleza a dentro, ainda montados em seus sinistros pesadelos - criaturas assombrosas, semelhantes a cavalos, mas negras como a noite, com fogo no lugar de suas crinas e rabos.

Uma hora depois, chegaram os outros aventureiros que, com a exceção de Gillion, estavam completamente exauridos da corrida.

- Isso que dá ficar só nos livros, sem treinar o físico. Eu e Gillion não nos cansamos com tão pouco. - desdenhou Paimei. - Mas se bem que Gillion desmaiou que nem um senhor de idade,  quando o esqueletão aéreo apareceu. Ele não aguentou. Depois ficou só murmurando sobre o quanto queria umas minas lá com ele e tal. Nem daria conta delas na hora. - completou, em tom sarcástico e com um grande sorriso no rosto.

- Nem responda Gillion, não é hora pra brincadeiras. - disse Tobias, ofegante. - Onde eles estão?

- Entraram lá, com aqueles, cavalos cabulosos. Mano do céu, ainda pego um daqueles pra mim! - respondeu, entusiasmado.

- Foco, Paimei. Foco. - repreendeu Tobias. 

- Eles não saíram de lá até agora. Só existe aquela entrada ali, por sinal bastante cabulosa também.

- Vamos entrar. - disse Gillion, já caminhando para a entrada.

- Como assim: "vamos entrar"? Você nem sabe o que tem lá dentro. Quem garante que não estamos indo de encontro a uma legião de abissais? - Tobias mostrava-se bastante meticuloso.

- Estão ouvindo essa voz? - perguntou Gillion, levando o dedo ao ouvido, fazendo sinal para que escutassem.

- Não ouço nada. - respondeu Tobias, que atentamente observava ao redor, procurando o que quer que fosse que estivesse fazendo o som ouvido por Gillion.

- Então prestem mais atenção, pois essa voz é a voz do meu arco, que diz: "morte rápida aos meu inimigos". - disse Gillion, correndo despreocupadamente para a entrada.

- Odeio quando ele faz isso. - disse Tobias, desapontado consigo mesmo, por ter mais uma vez caído nas piadas dele.

- Odeia? Mano, eu ADORO quando ele faz isso! - retrucou Paimei, correndo em disparada atrás de Gillion.

- É melhor irmos, Tobias. Vamos ficar muito para trás. - alertou Calter.

- Eles fazem isso, mas é sempre a gente que tem que chegar depois para o resgate heróico. Por Helm, isso cansa! - desabafou Tobias.

- Mas não é? - completou Calter, com um sorriso escapando de seus lábios.

Quando os dois mais apressados chegaram na entrada, viram que ela dava acesso a um grande salão, iluminado pela luz trêmula de tochas. Lá haviam criaturas, perambulando e murmurando, numa procissão macabra. Eram em sua maioria de aparência insetóide, do tamanho de humanos, com olhos vermelhos, placas grossas pelo corpo e quatro braços com garras afiadas. Em menor número, viam-se criaturas humanóides com grandes asas vermelhas, semelhantes as de um demônio. Apesar da aparente tranquilidade que o lugar demonstrava, a sensação no ambiente era pesada. Era como se aquilo fosse um imenso amontoado de palha, esperando a faísca que iniciaria o incêndio.

- Uma legião de abissais... Ele tinha razão. - disse Gillion, enquanto analisava a situação.

- Eu sempre tenho razão. - completou Tobias, que acabara de chegar à entrada.

- Qual o plano então, Sherlock? - desdenhou Gillion.

- Entremos eu e Paimei. Você fique aqui fora, com Calter, dando-nos cobertura. Se algo acontecer, Paimei é rápido o suficiente para correr em fuga e eu posso me teletransportar para fora. Você certifique-se de manter o caminho livre. - disse, virando-se então para Calter. - Já você, fique atento para selar a entrada quando passarmos ou nos teleportar daqui, caso algo saia errado.

- Certo. Até que não é um plano ruim. Vamos lá. - consentiu Gillion.

Assim que poram os pés dentro da fortaleza, Tobias e Paimei foram fulminados pelos olhares desconfiados das criaturas. Elas não esboçaram nenhuma reação ofensiva contra eles, mas seus olhos eram vigilantes. Lá dentro era como uma enorme sala de reuniões, com várias cadeiras e mesas, também esculpidas em rocha, onde as criaturas presentes discutiam seus próprios assuntos escusos. O lugar era maior do que aparentava ao ser visto de fora, devia ter pelo menos alguns poucos quilômetros quadrados, sem nenhum recinto além daquele grande salão. O cheiro forte de enxofre preenchia o lugar, oferecendo um nauseante presente aos seus recém-chegados convidados.

Dentre os muitos ali presentes, eles não viram nenhuma figura humana, somente as mesmas criaturas de antes. Parecia ser somente um refúgio tranquilo para as mentes maléficas poderem planejar suas incursões maquiavélicas, longe dos insuportáveis enxames de mosquitos que infestavam os pântanos de Carceri.

- Tem certeza que eles não saíram daqui? - perguntou Tobias, desconfiado de Paimei. - Você se distrai muito facilmente, afinal.

- Claro que tenho. Fiquei vigiando o tempo todo, com toda atenção. Eu perceberia se eles tivessem saído, ainda mais com aqueles cavalos da hora. Mano, eu quero um daqueles! Imagina o quão tenso seria chegar no templo lá montado num daqueles... - respondeu Paimei, perdendo-se em pensamentos.

- Foco, Paimei. Foco. Precisamos de informações.

- Opa, deixa comigo. - respondeu, enquanto dirigia-se a um dos seres insetóides próximos.

- Não acho boa ideia. - repreendeu Tobias. 

- O seu problema Tobias, é que você pensa demais.

- Pensar demais nos mantêm vivos.

- Só relaxa enquanto eu faço a mágica acontecer. Observe...

Com a aproximação de Paimei, o insetóide deu uma pequena recuada, como se estivesse se preparando para o que quer que fosse acontecer. Adotou uma postura mais intimidadora e seus olhos vermelhos começaram a brilhar mais intensamente.

- Isso não vai prestar...  - cochichou Tobias,  que ia um pouco atrás de Paimei, vigilante.

- O que deseja, escória desprezível? - perguntou a criatura, falando como se cuspisse as palavras com nojo.

O idioma que usava não era o comum, falado por Tobias e Paimei, mas sim o idioma infernal, próprio dos abissais. Por sorte, Paimei tinha habilidades muito específicas que lhe permitiam compreender e se comunicar em outros idiomas que não o dele. Para esse fim, ele fazia a leitura do chi que fluía no corpo de todos os seres vivos, descobrindo o que estava sendo dito pela mera contemplação de tal fluxo e sintonizando-se numa frequência similar de chi, para então responder no idioma da criatura. Tobias, ao contrário, estava totalmente perdido, não entendendo nada, e bastante preocupado em deixar a diplomacia nas mãos de Paimei.

- Você viu por aqui quatro humanos montados em pesadelos? Estamos procurando por eles. - perguntou Paimei, em infernal.

- Quanto pagaria pela informação, lixo humano? - respondeu o insetóide, enquanto analisava Paimei com o olhar.

- O necessário. Diga seu preço.

- Cem peças de ouro. - disse, desconfiado.

- Cem peças de ouro!? - respondeu, em tom de desdém, bastante surpreso pelo alto preço pela informação deveras simples. - Ele quer cem peças de ouro pela informação, acredita? - perguntou pra Tobias, agora falando no idioma comum.

- Eu disse que isso não ia prestar. É um abissal afinal...  Apenas pague. Todos aqui devem fazer esse mesmo tipo de exigência mesquinha, se não pior. - respondeu Tobias, com aparente nojo.

Dito isto, um virote veio voando na direção do insetóide, acertando-o em cheio. Logo depois, ouviram-se os gritos de ataque e os relinchos tenebrosos dos pesadelos. Surgindo do nada, os quatro homens, três armados com lanças e um com uma grande besta, cavalgaram em direção aos dois. Gillion e Calter, percebendo isto, prepararam-se para entrar em ação. Empunhando seu arco, Gillion mirou para dentro do salão, mas quando estava prestes a realizar o disparo contra um dos cavaleiros, um grupo de insetóides surgiu repentinamente atrás deles, todos armados com tridentes, atacando-os com a guarda baixa. Era claramente uma emboscada.

Tendo sido pegos de surpresa, Paimei e Tobias não conseguiram reagir a tempo. Dois dos cavaleiros, já em cima de Paimei, atacaram-lhe com as lanças, arremessando-as contra ele. Quando ele deu-se conta realmente do que estava acontecendo, já era tarde demais. Uma das lanças havia acertado em cheio sua panturrilha, fazendo-o cair de joelhos, enquanto a outra acertara sua costas, fazendo-o perder a consciência por alguns segundos, no choque. Já Tobias, pouco habilidoso em combate corporal, ficou imóvel diante da grandiosa investida que estava sendo realizada contra ele, temendo o pior. Nisso, uma adaga passou zunindo por ele, acertando precisamente a garganta do cavaleiro, derrubando-o. Vendo isto, o cavaleiro com a besta logo disparou contra Tobias, que ainda confuso, continuou parado. Parecia que aquele virote rodopiando em sua direção era a última coisa que veria em vida, até que um homem, trajando uma elegante armadura de batalha, saltou em sua frente, protegendo-o com o escudo que portava em sua mão esquerda.

- O-oque está acontecendo? Quem é você? - perguntou Tobias ao homem, estando ainda perplexo com o que acabara de acontecer.

- Não há motivo para pânico. Eu sou Ledier Domeni, o servo de Pelor e estou aqui para aniquilar esse mal que vos assola.

A Donzela e o Dragão

Oh, grande dragão!
Por que a nós incendeias?
A Bahamut fiz oração,
Aparta-te daqui tuas candeias.

Oh, pequena donzela!
Bahamut está morto,
A ele acendi vela
Com vil desconforto.

Oh, lorde vermelho!
Tu és grande e magnífico,
Então dai-me conselho
Como expulsar-te, oh terrífico?

Oh, pequena dama!
Tu tens ouro e riquezas?
Isso procuro, isso me chama,
Vivo por essas belezas.

Oh, poderoso ancião!
Pouco tenho a oferecer!
Ao povo mostre compaixão,
Deixe-os prevalecer.

Oh, corajosa menina!
Por respeito ao rei rubro,
Venha até mim, franzina.
Se sim, aqui de paz cubro.

Oh, nobre alado!
A ti acompanharei.
Só fique agora postulado
Que ao rubro negarei.

Oh, audaciosa jovem!
Sangue da platina ele é,
Mas pecados o envolvem
Sem remover nossa fé.

Oh, ser acima das leis!
Vamos sem demora,
Pois só assim podereis
Tesouros caçar daqui a fora.


segunda-feira, 25 de julho de 2016

Tales & Fables: A Ilha Primordial #4

O tempo é uma grandeza matemática, com valores lógicos, científicos, que apresenta-se na natureza como algo imutável, que toma seu curso independente da interferência do não-divino. Entretanto, a percepção dele, do passar desse tempo, pode variar de acordo com nossos sentimentos. Cinco minutos tornam-se horas quando se está numa situação ruim, e cinco anos tornam-se aqueles breves momentos entre o resgate de um abissal ferido e o agora. Nesses cinco anos, Alice e o íncubo, Terak, construíram algo que, numa sociedade como a nossa, poderia chamar-se amizade. No entanto, tendia mais ao respeito, com um toque de confiança e curiosidade correspondida.

A luta pela sobrevivência contra as ameaças naturais da ilha ficou mais fácil com a nova companhia, mas multiplicaram-se os inimigos militares, afinal agora eram dois desertores. As incursões no encalço deles tornaram-se cada vez mais frequentes e mortíferas. Ambos os lados da guerra já haviam tomado conhecimento dos dois andarilhos e de suas ambições, mas o lado celestial parecia ter mais afinco nessa caça. A cada dia que passava, Alice ficava mais próxima de encontrar o Primórdio. Por algum motivo, parecia que a magia primordial do ambiente estava lentamente ligando-se ao corpo dela. Era como se estivesse tornando-se uma com o lugar, uma parte da ilha, mesclando-se à sua essência.

- Parem agora mesmo. Vocês estão cercados, então rendam-se e entreguem o Primórdio. - ordenou o solar, enquanto um grupo de devas a seu comando cercava Alice e Terak.

Solares eram os guerreiros de mais alta patente no exército celestial. Sua glória e poder eram tão grandiosos, que até mesmo os princípes demônios titubeavam perante sua presença. O fato de um estar ali, liderando pessoalmente a busca, demonstrava o grande interesse dos deuses na questão.

- Um solar? Poderia jurar que os deuses não se enganavam tão levianamente. Obviamente não temos o que procura. - respondeu Alice, já preparada para uma inevitável e inútil resistência.

- Você caiu muito, deva. Mentindo, rebelando-se, desertando e até mesmo misturando-se com abissais. Você desonra sua espécie. Não demonstrarei misericórdia, mas os matarei com a mesma velocidade com que me entregarem o Primórdio. Quanto mais demorarem, mais sofrerão. - disse o solar, indiferente.

Terak então caiu de joelhos. Para um abissal de baixa patente como ele, a pressão da presença de um ser tão poderoso quanto aquele solar era suficiente para tirar-lhe todas as forças. Alice sabia que algo como aquilo poderia acontecer com Terak, assim como sabia que mesmo juntos não tinham chances contra os inimigos ao seu redor.

- Terak! - exclamou, preocupada, enquanto inclinava-se para segurar o íncubo caído. - Olhem, eu posso sentir que o Primórdio não está longe, mas não sei a localização exata dele, tudo que... - disse, sendo logo interrompida pelo solar.
- Nós sabemos. Você é o Primórdio. - disse, enquanto sacava sua espada grande, apontando-a para Alice.

Ao ouvir aquilo, Alice não entendeu exatamente o que ele queria dizer com tais palavras, mas sabia que a vida dela acabaria no momento em que se entregasse. Lembrando-se de seu juramento, ela então sacou suas espadas e saltou contra os devas, atacando-os num intenso frenesi. Ela era muito mais forte que um deva comum, mas não resistiria à soma das forças individuais daquele grupo. Eliminando um por um, era observada atentamente pelos olhos penetrantes do solar. Ela dançava, com movimentos precisos e potentes, atravessando os inimigos numa rajada ensandecida de fogo e aço fazendo os que assistiam recuarem com medo da morte certa pelas mãos de Alice. Porém, após derrotar catorze deles sozinha, ela já começara a demonstrar sinais de cansaço. Vendo que a guarda dela estava um pouco mais baixa, um dos devas inimigos voou em disparada contra Terak, mirando sua espada contra o indefeso íncubo, num claro sinal de covardia. Alice, que estava ainda engajada em combate, percebeu a movimentação e, numa impressionante demonstração de reflexos, girou suas espadas de forma a desarmar o deva contra quem lutava e voou em direção ao covarde que tentava contra vida de seu companheiro.

- Covarde! - gritou.

Alice era rápida e ágil, mesmo durante voo. Seu crescimento na ilha a presenteara com habilidades invejáveis. Entretanto, no momento em que mais precisava colocar sua técnica em prática, ela falhou. A espada do deva atravessou cruelmente o peito de Terak, que estava deitado ao chão. Alice, vendo aquilo, entrou em estado de ódio tão profundo que largou suas espadas e saltou contra o assassino do íncubo, quebrando-lhe o pescoço com as mãos nuas.

- Teraaaaak! Você está bem? Responda, Terak! - estava desesperada, seus olhos começaram a encher de lágrimas e suas mãos, manchadas com o escarlate sangue que jorrava do peito dele, tremiam.

- Es-tá tu-tu-do bem. Nós *tosse*, nós sabíamos que ter-mi-na-ria a-a-assim.. - respondeu, usando toda força que lhe restava, expirando logo em seguida.

- Aaaaaaahhhh!!! -  gritou Alice, com todas as suas forças, virando-se logo em seguida para o solar. - Arrancarei seu coração com minhas próprias mãos, maldito!

O solar, ouvindo aquilo, teletransportou-se para frente dela e, num movimento rapido demais para que ela sequer pensasse em tentar acompanhar, atravessou-lhe o peito com sua espada.

- Acabou. - disse, enquanto certificava-se de ter sido letal.

- Você é só uma marionete dos deuses, solar.

Alice, cuspindo muito sangue, levantou sua mão e, num último movimento desesperado, agarrou o pescoço do solar, tentando enforcá-lo. Ele, indiferente diante aquele gesto, fez um último e decisivo movimento com sua espada, cortando com ela em direção ao coração de Alice.

Em seus últimos segundos ainda viva, ela deu-se conta de que não conseguira realizar seu sonho, mas de que fora fiel a seu juramento. Os deuses pareciam ser inalcançáveis, guarnecidos em seus palácios místicos, dando ordens e pondo sua injustiça em prática. Era, de qualquer forma, impossível. Assim ela pensou, pois tudo, até aquele momento, dava a entender isso.

Quando efetivamente faleceu, seus olhos e boca começaram a brilhar, com um intenso feixe de luz. Energia mágica borbulhava loucamente em volta dela e o ambiente começava a alterar-se, como se o espaço estivesse sendo retorcido por tal demonstração de poder. Vendo isso, o solar imediatamente retirou sua espada do corpo de Alice e ordenou a retirada de todos que ali estavam. Só que era tarde. O acúmulo de energia chegou a níveis críticos tais, que colapsou numa grandiosa explosão de magia primordial, engolfando toda a ilha numa nuvem de morte, fogo e danação. A magnitude foi tal, que a Ilha Primordial começou a afundar, levando consigo toda sua magia, que servira como pólvora, alimentando as labaredas de destruição.

Tales & Fables: Meu Falcão

O reino de Havenholm, por todo reinado Philippe, foi um lugar muito próspero que atraía muitos turistas e mercadores anualmente, alimentando os sonhos dos pequenos comerciantes que desejavam crescer e conquistar algum marco que os fizessem ser lembrados pelas gerações futuras. Em meio a esses sonhadores, estava Clint, proprietário de uma pequena taberna localizada próxima ao mar. O Caneco do Gnomo não era um grande ponto de referência, mas tinha lá seus atrativos, o que somado ao fato de estar localizada numa área com considerável movimentação de pescadores, tornava o lugar suficientemente conhecido para atrair alguns clientes fiéis.

Clint era um homem já velho, um bocado rabugento, mas que aguentava o tranco diário e agradava sua clientela, tendo carisma suficiente para não afastar um cliente mesmo com suas constantes reclamações sobre o insuportável cheiro de peixe que eles traziam consigo. Ele gostava do que fazia. Gostava daquele ambiente onde as pessoas reuniam-se, contavam suas histórias, gabavam-se de seus feitos, compartilhavam seus sonhos e narravam suas aventuras. Era mágico. Um jeito maravilhoso de sentir-se jovem novamente, enquanto ganha dinheiro por isso. Podia parecer simplismo da parte de Clint, mas para ele aquilo era sinônimo de uma vida realizada. Tudo que ele queria estava ao alcance dos ouvidos e de um bom caneco de rum. A única questão era que a idade não perdoava. As veneráveis dores da velhice lembravam-lhe diariamente que precisava de um sucessor, alguém para dar continuidade ao seu sonho. Para isso, ele tinha alguém em mente - sua filha, Melissa -, só que havia um problema.

Melissa era uma linda jovem, com seus vinte e poucos anos, e invejáveis talentos. Determinada e esperta, tinha grandes sonhos e ambições, uma infindável lista de planos que precisava pôr em prática antes de poder declarar-se satisfeita. E eis aqui o dilema na vida de Clint: administrar uma taberna certamente não fazia parte de tais planos. Ela queria viajar, aventurar-se por aí e ver com seus próprios olhos as coisas espetaculares sobre as quais ouvira desde pequena. O que prendia Clint naquele lugar, dava-a motivos de sobra para sair. Entretanto, nunca foi dito que seria fácil para ela conseguir isso. Melissa podia ter um corpo bem ágil e ser especialista em roubar frutas na freira sem ser pega - por pura diversão -, mas isso não a protegeria do feroz mundo que a esperava com suas garras muito bem afiadas. Ela era uma sonhadora, mas não era ingênua.

Certo dia, enquanto auxiliava o pai nos serviços da taberna, deparou-se com um estranho homem que acabara de entrar, vestindo uma negra e imponente armadura de batalha, com um grande dragão de estranhas asas, uma bastante diferente da outra, gravado na região do peitoral. Segurando seu elmo firmemente com uma das mãos e portando em suas costas duas espadas longas, seguramente embainhadas, ele caminhou impetuosamente até um assento disponível ao fundo da taberna. Sua presença era intimidante. Seu olhar, assim como suas espadas, parecia estar pronto para atravessar furiosamente o peito do primeiro homem que se atrevesse a existir. Todavia, isso não assustava Melissa, muito pelo contrário. Ela imediatamente percebeu que aquele homem não era um simples soldado, mas sim um aventureiro, um daqueles grandes guerreiros das histórias que moldaram seus sonhos. Sem demora, ela foi atendê-lo, sendo perseguida pelos olhos preocupados de seu pai e dos apavorados dos outros poucos clientes que estavam ali no momento.

- Bem-vindo ao Caneco do Gnomo. - disse, com bastante entusiasmo. - Como posso ajudar o espadachim?

- Rum. Um barril. - respondeu, com tom severo.

- Um barril? O senhor irá consumir aqui mesmo? - perguntou, surpresa.

- Certamente.

Preferindo não prolongar o questionamento, foi rapidamente até o depósito e, com a ajuda de seu pai, levou o barril até a mesa do homem, que esperava aparentemente impaciente.

- Pronto, espadachim. Aqui está o barril, e um copo. Acho que ainda vai precisar de um. - disse Melissa, em tom provocativo, enquanto seu pai abria o barril.

- O cheiro da bebida...  - disse o homem, respirando profundamente. - Até que enfim.

- É o nosso melhor barril. - gabou-se.

- Saia. - ordenou, já preparando-se para começar a beber.

Melissa rapidamente afastou-se do homem e foi para o balcão da taberna. Pegou então um esfregão e começou a limpar o lugar, disfarçando para poder devanear enquanto admirava o homem que bebia álcool como se fosse leite. Esperou até que ele tivesse bebido cerca de metade do barril, hora essa na qual ele começou a demonstrar sinais de embriaguez, para aproximar-se novamente.

- Espadachim, posso me sentar? - perguntou, não esperando a resposta, já sentando no assento à frente dele.

- Já sentou. - respondeu, num tom muito mais calmo que antes, porém ainda com aquele toque ameaçador.

- Vou ser direta, espadachim. Tenho grande ambição em sair deste lugar, conhecer o mundo, viver experiências marcantes, me tornar forte... Tantas coisas. Porém, não posso fazer nada disso sem alguma ajuda inicial. Tenho uma boa quantia em dinheiro em mãos e estou disposta a dar-te para que me leve em suas viajens e me auxilie nesse início. O que me diz? - perguntou, em tom firme.

O homem, ao ouvir aquilo reclinou-se contra parede, e a fitou por alguns instantes. Seu olhar era profundo e sua expressão vazia, como se estivesse em uma espécie de transe. Melissa sentiu um grande desconforto ao presenciar aquilo, como se a própria alma dela estivesse sendo revirada, num redemoinho lento, mas ainda sim poderoso.

- Não é a mim que você procura. - respondeu finalmente o homem, voltando a sua expressão normal.

- Eu realmente tenho o dinheiro, se é isso que tem dúvida. Quatrocentas peças de ouro. - retrucou, indignada.

- Não é a mim que você procura. Quem você procura irá aparecer logo e vocês tornarão-se um. Então, você conseguirá o que deseja.

- Aparecer logo? Tornar-se um? Do que você está falando? Aceite o dinheiro, eu preciso dessa ajuda. - insistiu.

- Quando o falcão a marreta portar e a morte ele aqui desafiar, então quem você procura encontrado terá.

- Isso não faz sentido. Aceite o dinheiro. Posso conseguir mais cem peças de ouro, se necessário.

- Saia. Agora. - respondeu, em um tom tão ameaçador que até a indômita Melissa recuara.

- Agradeço sua atenção, senhor. - respondeu, saindo apressadamente.

Cinco anos depois, durante uma grande celebração, um princípio de tumulto tomara início na taberna. Para os olhos comuns que viam aquilo no meio das pessoas que cantavam e dançavam, não havia nada além das rotineiras brigas que vez ou outra tomavam conta de um ambiente cheio de homens alcoolizados. Porém, Melissa ao ver o que acontecia, percebeu algo diferente. Viu o que ninguém além dela poderia ter visto. Como se por magia, contemplou a mera cena de dois homens discutindo com um músico que ali trabalhava como algo totalmente além das aparências mais óbvias. Ela tinha, naquele instante, compreendido o que o homem, cinco anos atrás, havia dito. Então, sem perceber, disse:

- Meu Falcão.

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Essa história é dedicada ao meu amigo Lucas Geraldo.

Feliz aniversário, mano. Desejo toda felicidade para ti, além de muitos drops mágicos xD

Espero que goste desse singelo presente.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Tales & Fables: A Ilha Primordial #3

Ele logo após ouvir aquelas palavras, novamente dormiu. Ainda estava fraco demais para manter-se acordado. Foi e voltou algumas vezes, até que, após três dias, recobrou totalmente os sentidos.

- Deva imunda, tire suas patas de mim. Não ouse se aproximar. - ameaçou o íncubo.

- Acho que você não está em condições de fazer exigências, sabe? Eu te salvei. Esqueça que sou uma celestial. No momento sou só uma criatura qualquer, não lhe desejo mal. Chamo-me Alice.

- Desde quando devas têm nomes? - questionou, enquanto levantava-se lentamente de seu leito, sentindo ainda fortes dores em suas asas.

- Pare, não se mexa muito. Suas asas estão fraturadas. Sem magia de cura adequada, levará algumas semanas até que você melhore. Improvisei algumas talas, mas se você ficar se mexendo tanto, de nada vai adiantar. Se quiser me atacar depois que melhorar, sinta-se a vontade, mas por enquanto só fique deitado. - repreendeu. - Mas, respondendo, sua pergunta: eu não sou uma deva como as outras. Não aceito o jugo dos deuses, quero a liberdade do meu povo, assim como a do seu.

- Besteira. - cuspiu, enquanto deitava-se. - Liberdade é uma piada suja, na qual os suplicantes de Carceri adoram acreditar.

Então passaram-se os dias. A princípio contra a vontade do íncubo, Alice insistiu em manter um diálogo, insistiu em tentar conhecê-lo. Não era algo somente em prol de seu juramento, mas também era curiosidade, em sua forma mais inocente. Ela contou suas histórias e em troca ouviu blasfêmias cheias de imoralidade. Contou sobre o juramento que fizera, sobre as lutas que travara e em troca ouviu desdenhos sarcásticos. Mas então, com o passar do tempo, o íncubo deixou-se levar pela simpatia e determinação de Alice, começou a partilhar da curiosidade dela. Contou suas histórias, murmurou os terrores do abismo e fez questão de explicitar o quão mais tenebrosa era a vida de um abissal.

Os dias de recuperação passaram rapidamente, mas os dois permaneceram juntos. Tornaram-se colegas, começando muito lentamente, a criar uma certa confiança um no outro. Ele a seguiu em seu propósito de alcançar o Primórdio, intrigado pela possibilidade de que as determinadas palavras de Alice fossem trazer a mudança que ela procurava.

- Diga-me, deva. Vo...  - disse o íncubo, sendo logo interrompido.

- Meu nome é Alice. - esclareceu.

- Alice, você não me conhece como pensa. Íncubos seduzem e traem. Você, depois de tantos anos vagando pela ilha, é uma das criaturas que melhor conhece essa área. O que te faz ter a certeza de que não estou simplesmente te manipulando para chegar ao Primórdio? Eu poderia muito bem fazê-lo, sem arrependimento.

-  Você tem razão, não o conheço. Mas acredito em você. Se me trair, mesmo assim não amaldiçoarei o dia em que te resgatei naquela floresta. - respondeu, com olhar terno.

- Você não deveria confiar num abissal. Isso um dia será sua ruína. - disse, com tom melancólico.

- Qual seu nome? - perguntou Alice, como se tentasse inspirar ânimo.

- Sou um íncubo. Íncubos não tem nomes. - retrucou, amargo.

- Você não é "um" íncubo. Artigos indefinidos deveriam ser usados com aquilo que não possui individualidade, com aquilo que não se determina. Você está aqui por conta própria. Não mais como um lacaio de algum tirano maligno de Baator, mas como um único indivíduo, seguindo sua própria vontade. Diga-me, qual o seu nome? - insistiu.

- Não é assim que as coisas funcionam para os abissais, pensei ter te contado algumas histórias, tempos atrás. - argumentou o íncubo, virando o rosto.

- Sim, contou. Mas não te perguntei como as coisas funcionam com os abissais, o que perguntei foi o seu nome. - disse, com um tom bastante autoritário.

- Terak. É como eu gostaria de ser chamado, se um nome eu realmente tivesse.

- Pois bem, Terak. É um prazer. - disse ela, enquanto se aproximava dele e estendia a mão. - Sou Alice.

Tales & Fables: A Espada Dançarina

Era um dia festivo em Cavekeeper, pois comemorava-se o trigésimo oitavo aniversário do rei Trevor. Todo o reino estava mergulhado em um grande feriado, onde a alegria e a música faziam-se presentes em cada rua e esquina. E não era diferente no palácio real, onde o rei preparara um pomposo banquete, convidando todos os nobres e demais figuras importantes do reino.

Eu sou Trevor, da casa Chronier, quarto de meu nome, a espada dançarina, rei de Cavekeeper e senhor dos guardiões do portal. É com grande honra que recebo-vos aqui para esta grande comemoração em minha homenagem. Desejo a todos um bom divertimento e agora, sintam-se livres para comer o quanto quiserem.

Nisso, dois soldados que estavam ali, trabalhando na segurança do evento, conversavam despreocupadamente, não temendo que algo pudesse acontecer de ruim numa festividade tão tranquila.

- Espada dançarina. Sabe o porquê dele ter esse título? - perguntou um deles.

- Dizem que é porquê a espada é mágica. Um presente de seu pai, entregue antes dele morrer. Num único comando de voz, ela consegue sair por aí lutando sozinha, flutuando. Tudo seguindo a vontade do rei. - respondeu o outro.

- Nah. Isso é o que o rei quer que pensemos. Eu ouvi uma história no mercado goblin, lá no subterrâneo, que diz que a verdade é bem diferente.

- Diferente? Como?

- Bem, foi assim que aconteceu realmente:

O príncipe Trevor, na época ainda não havia sido coroado, foi com um pequeno grupo de soldados numa expedição para explorar a caverna ao norte do Pico Cavekeeper. Quando chegaram, entraram esquecendo de tomar as medidas preventivas para não se perderem lá dentro, o que acabou por impedí-los de voltar. Ficaram três semanas vagando, sem rumo, dentro da caverna escura, comendo morcegos e bebendo a própria urina. Estavam já prontos para morrer quando, já sem tochas para iluminar o caminho, depararam-se com um abismo e caíram dentro dele. Todos os soldados morreram, mas o pequeno príncipe sobreviveu.

Nos túneis dessa galeria subterrânea, descoberta da pior forma possível, ele vagou por mais cinco dias, em total escuridão. Só que no sexto dia, viu uma luz ao longe. Seguiu em direção à ela, com os olhos doendo devido à luminosidade da qual se aproximava, até que chegou em um pequeno altar. Lá quatro braseiros queimavam com chama mágica e uma elegante espada repousava sobre o empoeirado mármore.

- Quem se aproxima de meu altar? - uma voz perguntou, ecoando por toda caverna e atiçando os morcegos que repousavam na área.

Ao ouvir aquela voz e o som do bater de asas das centenas de morcegos, o princípe se abaixou rapidamente, pegou uma pedra no chão e disse em alta voz:

- Comida! - arremessando a pedra em direção à nuvem de morcegos que se agitava ao alto.

- Comida? - perguntou a voz.

Nisso, todos os morcegos, espantados novamente pela voz, tomaram outro rumo e saíram do alcance das pedras do príncipe, sumindo no breu da caverna.

- Satisfeito? - perguntou. - Você espantou eeee... - disse, em tom de indignação, até que percebeu que tinha uma voz macabra falando com ele.

Num pulo, ele afastou-se do altar. Deu-se conta do que estava acontecendo e pegou mais uma pedra, dessa vez não para os morcegos.

- Eu posso tirar você daqui mas, para isso, primeiro precisa me ajudar. - argumentou a voz misteriosa.

- Apareça demônio, não tenho medo de ti! - gritou, já com lágrimas ameaçando brotar do canto de seus olhos.

- Não sou um demônio. - retrucou.

- Não vai me enganar, não. Sei que tá aí, sai de reto, coisa ruim. - gritou. - Devo estar ficando maluco, isso sim. - murmurou logo depois, ao perceber as circunstâncias nas quais se encontrava.

- Sou eu, a espada. Eu que estou falando. Se me tirar desse altar, mostro-lhe o caminho para sair daqui. - a voz começou a mudar o tom, como se estivesse perdendo a paciência.

- Espada? - perguntou, enquanto aproximava-se. - Ha! Como se eu fosse acreditar nisso! - desdenhou. - Revele-se espírito das trevas!

- Oh, seu pedaço de #censurado#. Sou eu, sou eu. Vai me tirar daqui ou não? - esbravejou a voz.

O príncipe então arregalou os olhos, esfregou-os e fitou a espada. Não tinha mais como negar que a voz vinha da espada. Então um grande sorriso estampou seu rosto. Surpreso, apontou pra espada e disse:

- Ahhhh, então é aí que você está, cabrunco. Em nome de Pelor, sai dessa espada que não lhe pertence, coisa ruim. - gritou. - Eu disse que não me enganaria.

- Quer saber? Desisto. Vai, some. Moleque #censurado#.

Depois de duas horas de tentativas fracassadas de exorcismo por parte do príncipe, ele finalmente entendeu que o que estava ali era somente uma espada mágica, com senciência. Então, retirou a espada do altar e esta o guiou até o lado de fora da caverna, iluminando o caminho com magia e fazendo-o voar por entre o abismo.

- Tu me paga... - resmungou a espada, em voz baixa.

- Oi? Disse alguma coisa? - perguntou Trevor, não tendo ouvindo o que a espada tinha dito.

- Não, nada. -  respondeu.

Quando voltaram ao reino, a espada começou a mostrar o seu lado vingativo. Forçava o príncipe a serví-la, tendo que usar nada mais que um saco de farinha como vestimenta, sempre que tivesse que entrar em sua presença. Caso não obedecesse, a espada flutuava e num ataque ensandecido de fúria, ela rasgava tudo que via pela frente, inclusive Trevor. Ninguém no castelo conseguia pará-la. Dizem que seu passatempo favorito era fazer o jovem príncipe dançar nu por horas, junto com ela, lá no salão maior do castelo. Surgindo daí o nome "espada dançarina".

Isso durou até que ele conseguiu dominar a espada usando seu...

- Uhm, bela história. - disse o rei Trevor, agora no presente, interrompendo o homem que a contava. - Vamos continue.

- MAJESTADE! Mil perdões, meu rei. - clamou, enquanto ajoelhava-se rapidamente. - É uma história que os velhos contam para amenizar sua própria mediocridade, todo mundo sabe que não são verdades. Perdoe-me rei, eu aceito qualquer punição, mas peço que poupe minha vida.

- Corte a cabeça dele, Trevor. - disse uma voz, que não sabe-se de onde veio.

O rei logo caiu na gargalhada, ordenou que o soldado voltasse ao serviço e então voltou as festividades. Nunca saberemos a verdade sobre o que aconteceu ali, e muito menos a verdade sobre como a espada foi obtida. Dizem que a voz no dia do banquete não passava de uma brincadeira do rei, mas há quem diga que a própria espada falou.

Só Vecna pra saber com certeza.
Enquanto ele não revela para nós, o mistério continua.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Tales & Fables: A Ilha Primordial #2

Daquele dia em diante, Alice começou a mostrar o que aprendera em suas reflexões aos outros devas de seu batalhão, mas sem muito sucesso. Não era como se a trêmula chama da vontade de mudar nunca tivesse queimado nos corações daqueles devas: a questão era que palavras não pareciam bastar e o poder que possuíam fazia questão de declarar constantemente que eles eram demasiadamente fracos para se oporem aos seus superiores, quanto mais para se oporem aos deuses.

Alice era mais forte que eles. Não em poder ou força física, mas em sua determinação. Não desistiu, mesmo vendo-se diante ao aparente fracasso. Continuou falando da liberdade de escolha e da ganância desenfreada dos deuses para todos que queriam ouvir, assim como para os que não queriam. Com o tempo, tornou-se uma excelente oradora, conseguindo alguns seguidores, que se dispuseram a apoiar sua causa. Mas não foi suficiente.

É difícil convencer um ser quase imortal de que ele precisa mudar. Meses e anos são como dias, o tempo arrasta-se, mas a tradição permanece. E foram dezenas de anos para Alice. Dezenas de anos tentando fazê-los entender a verdade, que para ela era clara e evidente, mas para eles era turva e inatingível. Seus poucos seguidores não eram tão determinados, tendo desertado um a um, ao longo dos anos. À cerca do fim dos cinquenta anos que procederam o juramento que fizera, Alice viu-se sozinha novamente. Começou a pensar então que o que tentava fazer era impossível, que aquilo realmente era a natureza, em sua forma nua e crua e que ela nada mais era que uma infeliz exceção à regra.

Dizem que a natureza é um grande maquinário, totalmente harmonioso, regido pelo equilíbrio gerado pelas energias do tecido do real e do imaginário. Que ela não erra, é perfeita e autorregulamentada. Mas isso em si já é um erro. Um erro da natureza, que subestimara as capacidades de Alice.

Eu sou Alice, a deva. Nasci de um ventre desconhecido, fui criada e treinada para a batalha. Enviada como soldado para alcançar o poder Primordial. Eu e meus companheiros lutamos para conseguir o domínio da ilha, para oferecer aos deuses o privilégio de ter acesso à Criação. Nascemos, crescemos, lutamos, sofremos e morremos para que assim seja, enquanto eles sentam-se e vangloriam-se em seus tronos. Se nós que demos nossas vidas por isso, a nós o Primórdio pertence.

Desertando do exército celeste, Alice desceu até a ilha. Resolveu que a solução para o dilema que vivia estava na magia lá presente. Sem que fosse percebida, escorreu até os confins remotos da ilha e por lá vagou.

A ilha não era como uma ilha qualquer no Plano Material. Devido ao fato da magia Primordial estar muito concentrada por lá, a realidade frequentemente confundia-se com o que estava além, tornando o lugar um verdadeiro labirinto sem paredes. E nisso foram mais trinta anos. Trinta anos vagando por lá, em meio ao caos da ilha. Escondendo-se dos seus antigos companheiros, que agora a caçavam como a desertora que havia se tornado, lutando contras aberrações criadas pela magia da ilha e fugindo dos abissais sedentos por derramamento de sangue. Nada ali estava a favor dela, tudo conspirava contra. Foram trinta anos de sofrimento, mas também de fortalecimento. Tanto na sua determinação, como em poder. A luta pela sobrevivência num meio tão hostil, tornou-a forte.

E assim ela continuou, resistindo e se fortalecendo, até que um evento mudou toda sua vida. Durante uma de suas explorações em busca da fonte Primordial na ilha, ela deparou-se com uma figura ao chão, desfalecida. Era um íncubo, um corruptor abissal. Suas grandes asas negras pareciam haver quebrado e seus ferimentos eram radicalmente severos. Provavelmente caíra após uma derrota no espaço aéreo da ilha. Sem demora, Alice tratou de levá-lo a um abrigo, cuidando de seus ferimentos. Dia e noite vigiou, dia e noite certificou-se de trocar as bandagens, dia e noite cuidou da forte febre que assolava a criatura.

Completados oito dias de coma, o íncubo acordou. Desorientado e ainda não totalmente recuperado, levantou lentamente sua cabeça, procurando descobrir onde estava. Só o que via com sua visão embaçada era um vulto prateado à sua frente. Seus sentidos, alertando-lhe do provável perigo, o fizeram terminar abruptamente de levantar da cama, preparando-se para o pior. Então, foi contido de seu ímpeto por uma mão que estendia-se desde o vulto prateado até seu tórax, enquanto uma voz dizia:

Consegue me ouvir? Eu sou Alice. Encontrei você em meio a floresta da ilha, prestes a morrer. Então te trouxe até aqui, cuidei de seus ferimentos, salvando-lhe a vida. Entendo seu espanto, sou uma Celestial. Uma deva. Só que não há necessidade para medo. Não lhe salvei para causar mal, não é assim que eu ajo. Acalme-se, íncubo. Assim que estiver melhor pode ir para onde quiser mas, por enquanto apenas permaneça deitado.

José, o Kobold destemido

José era um kobold diferente dos outros. Apesar de viver na mesma vila rústica dentro de uma antiga masmorra e partilhar dos hábitos dos outros kobolds, ele tinha características que o tornavam único: sua coragem, sua inteligência, seu carisma e sua velocidade. 

Nunca houve kobold mais corajoso que José
Ele sempre ia na frente do grupo na hora em que precisavam expulsar os ratos do armazém de comida.
Nunca houve kobold mais esperto que José
Ele sempre verificava se a porta tinha maçaneta, antes de simplesmente tentar abrir com força bruta.

Nunca houve kobold mais carismático que José
Ele sempre recebia aplausos de seus colegas quando terminava seus extensos discursos explicando o porquê dele ter que ser o responsável em decidir o cardápio do dia na vila.

Nunca houve kobold mais rápido que José.
 Ele era sempre o último a ser atacado pelos ratos, quando esses venciam a disputa pelo armazém de comida.

Mas José não estava satisfeito em ser somente o melhor kobold da vila. Ele tinha um sonho. Quando era pequeno, ficou encantado pela maneira como os valentes aventureiros saquearam sua vila e eliminaram os mais fortes guerreiros de lá, com suas grandes espadas e seus grimórios cheios de truques. Desde aquela dia, José nunca pensou em vingança. Muito pelo contrário, José decidiu que precisava torna-se um aventureiro.

Então, dia após dia, seja debaixo de sol escaldante ou da chuva torrencial, José nunca cessava seu treinamento. Lutava ferozmente controla os gatos do mato e coelhos que viviam no bosque próximo à masmorra. Fazia cada uma das suas cinco flexões, com seus joelhos sempre firmemente apoiados no chão, dando-lhe o sustento. As abdominais, então, eram o ponto alto. Seu primo Hélio sempre ajudava-lhe com elas, auxiliando no movimento até o abdômen.

Quando completou seus dezoito anos de kobold, ele decidiu que devia partir até a cidade humana próxima, para se candidatar como aventureiro. A comoção foi geral na vila. Todos choravam e pediam para que ele ficasse. Os velhos diziam: "eu vi ele quando era só um ovinho na lama", as mulheres diziam: "era esse o kobold que eu pedi para Kurtulmak casar com minha filha", os jovens diziam: "oh, quem agora vai liderar a investida contra os ratos?". Mas José estava realmente focado em seu propósito e não deixou-se abalar pelas lágrimas de seus colegas. Respirou fundo, olhou seus companheiros com bastante ternura no olhar e disse-lhes:

Esse é um pequeno passo para um kobold, mas um grande passo para nossa espécie. Ah, e seu Manuel, o senhor precisa chamar os guerreiros para ir lá no armazém. Aquelas ratazanas estão com alguma coisa ruim no corpo, eu poderia jurar que elas estavam falando e girando os olhos enquanto comiam o Toninho. Saudades eternas do Toninho, ele era um kobold vida louca de verdade.

E assim foi. Saiu da masmorra feliz em finalmente estar prestes a alcançar seu sonho, seguindo pelo bosque a dentro, em direção à cidade. No caminho, treinou mais e mais, lutando contra as feras do bosque. Não havia um coelho sequer naquele bosque que não tenha tremido em ouvir a voz de José. A única coisa que ele não pôde fazer foram as abdominais, as quais precisava da ajuda de Hélio.

Chegando na cidade, José maravilhou-se. Viu muitas pessoas sorrindo, andando felizes pela cidade. Viu os comércios, cheios de frutas e carnes frescas. Carne de cervo! A coisa mais saborosa que tinha experimentado até então era a carne dos ratos derrotados no armazém. Coelhos, gatos do mato e outros animais similares eram considerados sagrados para ele, pois faziam parte de sua rotina de treino. José ficou bastante empolgado com tudo aquilo, jurou a si mesmo que passaria ali mais tarde para comer um pouco. Ele estava com bastante fome, haja vista que ele não havia tido uma refeição decente desde o momento que os ratos do armazém aprenderam a se defender com lanças. Entretanto, isso não importava agora. O sonho dele estava logo adiante, a taberna! Onde os aventureiros destemidos reuniam-se após suas épicas jornadas de conquista e glória.

Ao passo que se aproximava da taberna, percebeu que as pessoas abriam caminho para ele, afastando-se e cedendo passagem. Ficou muito feliz com a hospitalidade daquela gente.

Assim que chegou na porta da taberna, lembrou de todo o esforço que fez e de tudo que planejou. Então respirou bem fundo, colocou um belo sorriso no rosto e entrou de cabeça erguida dizendo:
Saudações! Sou José, o kobold. Quero ser também um grande aventureiro!

Todos na taberna calaram-se e olharam para José, que estava radiante de alegria.
José foi linchado e amarrado num poste na praça.

MORAL DA HISTÓRIA: Não seja um kobold.

DIGA NÃO AO LINCHAMENTO DE KOBOLDS.
Uma campanha do Hiken & Devaneios contra o preconceito para com os kobolds.

Considerações iniciais: Tales & Fables

Olá, muito boa noite a todos os leitores do blog!

Tudo na paz? 
(Aqui está, mas não na Ilha Primordial)

Hoje venho, através desta postagem, dar alguns esclarecimentos a cerca de nossa mais nova seção no blog: "Tales & Fables".


Tales & Fables consiste em narrativas curtas que acontecem no universo de alguma história maior do blog. Pode ser de uma história em desenvolvimento, uma história já terminada ou até mesmo surgir como uma espécie de introdução ao horizonte de eventos de uma história ainda por vir.

A ideia por trás dessa iniciativa é expandir os limites pré-existentes numa história, explorar a vida secular dos nossos queridos personagens, explicar pontos em abertos no plot, entre muitas outras alternativas, possibilitadas por esse incrível ambiente de devaneios no qual nos propomos a mergulhar.

Estreando a seção, temos "A Ilha Primordial", que acontece no mundo de "Entre Deuses e Homens - Canção do Desequilíbrio". A narrativa conta a história de Alice, uma celestial que, indo contra tudo que nasceu pra ser, decidiu que precisava pôr um fim nos desejos inescrupulosos dos deuses aos quais servia. Lutando com tudo que possuía para trazer liberdade aos povos e fazendo descobertas que poderiam mudar o próprio fundamento de bem e mal, de caos e ordem.

À data desta publicação, já está disponível a primeira parte dessa magnífica história. Você pode acessá-la através do seguinte link:


Os próximos capítulos serão publicados nas próximas semanas, então fique ligado para novidades.

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Lembre-se também que comentários são sempre bem-vindos. Estamos abertos a sugestões, críticas e perguntas. Estamos em dia com nosso estoque de Max Repel, então não precisam se preocupar com as Poochyenas selvagens na grama (mas o Hiken ainda permanece por aí xD).

Um forte abraço,
Hiken.

Tales & Fables: A Ilha Primordial #1

Há muito tempo atrás, quando as planícies de leste a oeste eram povoadas por selvagens, e a civilização, mesmo a dos elfos, era somente um vulto do que hoje é, seres de outros planos vagavam muito mais livremente entre as terras não reclamadas. Elementais da água saltavam das ondas na praia, engolfando as pobres criaturas que ali se alimentavam. Dragões-fada brincavam nos bosques, envolvendo-se nas folhagens e recolhendo preciosas frutinhas, enquanto assistidos por vigilantes dríades. Mephits misturavam-se na lama e vagueavam pelas terras geladas do norte. Celestias e Abissais desciam aos batalhões, lutando pelas suas fileiras, marcando os céus com fogo e luz, com morte e trevas.

Em meio ao novo existia paz.
Em meio ao nada existia guerra.

Nesse mundo, ainda sem espécies nativas dominantes, havia um ilha peculiar, a oeste da região onde hoje encontra-se o grande reino de Havenholm. Em tal ilha, a magia abundava. Não magia como a dos seres fantásticos que invadiam o plano desordenadamente, nem como a magia que regia o tecido da realidade do Material, mas uma magia única e singular. Magia da Criação. Magia Primordial.

Tal magia, provinha de algo além dos deuses. Era derramada sobre a estrutura dos planos, como uma cachoeira de energia, que flui e empoça nos pontos de encontro entre o Primórdio e o além. Ah, o além. Além das fronteiras do multiverso, além dos domínios do reino além deste, além do controle de tudo e todos. E da palma da mão direita do Grande Supremo, a nascente deste rio abre caminho por entre suas linhas, determinando o destino de cada entidade que se move e respira.

Tal magia servia para criar, dar vida e renovar, mas também para destruir, matar e aniquilar. Em mãos leigas era incontrolável, inconstante, louca e complexa. Quem poderia, além do ser sobre todos, controlar este poder? Era algo que Celestiais e Abissais procuravam descobrir, através de pesquisas e rituais, usando da guerra para obter acesso às amostras de sua magnificência, ao passo que impedindo seus rivais de porem as mãos no absoluto. Já o resto do mundo, composto de mortais nativos que lutavam para sobreviver no continente, desconhecia os segredos que se ocultavam além dos limites que seus olhos podiam ver, mas sabia que a grande engrenagem da vida e da morte, não estava sendo movida por conta própria, mas sim por algo maior.

Comandados por deuses ambiciosos, as criaturas envolvidas na guerra digladiavam entre si, matando e morrendo. Num conflito sem fim pelo controle da ilha que manava magia Primordial.
Em meio a isso, uma deva, não conseguia entender as motivações que determinavam tal violência. Ela questionava-se o porquê de Celestiais e Abissais terem quer lutar um contra o outro, como se tal brutalidade fosse algo natural. Respostas como: "é assim que o equilíbrio do universo é mantido" ou "tendências opostas não conseguem coexistir", não satisfaziam seus anseios pela verdade. Ela achava que tudo era um grande jogo, onde os soldados enviados para a morte não passavam de peças num tabuleiro, controlado por deuses apáticos, que desprezavam os sentimentos individuais em prol de seus próprios interesses mesquinhos.

Devas eram soldados de baixa patente no exército dos deuses ditos bons. Não tinham nomes e nem conheciam suas famílias, sendo retirados do seio de suas mães assim que nasciam, para que não desenvolvessem características que os prendessem a algo que não seja seu patrono divino. Eram belas criaturas, de pele e cabelos prateados, possuindo olhos de um brilho intenso, similar ao da lua cheia em seu periastro, além de grandes asas, brancas como a neve.

O método que regimentava a vida dos Celestiais não fazia sentido para a indignada deva. Ela queria ter poder para mudar aquilo, poder para dar um fim aos conflitos e aliviar o pesado jugo que os deuses impunham sobre os seus. Entretanto, para poder fazer alguma diferença, ela precisava ser alguém e não mais um ponto prateado no exército celeste. Ela precisava tornar-se um indivíduo, tornar-se alguém.

" De agora em diante, sou livre, sou única, sou Alice. Lutarei para se fazer conhecer esse sentimento entre meu povo e aos outros além dele. Não descansarei até que os propósitos divinos sejam esclarecidos e o direito de escolha seja instituído. Manterei-me firme diante de qualquer desafio e não cairei jamais no arrependimento. Morrerei pela causa, se assim for preciso. É o juramento que faço. Meu nome é Alice e não me sujeitarei. "

Entre Deuses e Homens: Prólogo

ENTRE DEUSES E HOMENS
CANÇÃO DO DESEQUILÍBRIO


PRÓLOGO
A Ascenção de Atrocitus


Era uma noite tempestuosa. De uma severidade que nunca antes fora vista. Os céus rugiam ferozmente, encoando os tenebrosos sons de trovões por quilômetros além das planícies de Galbatroh. Pelo chão, os corpos de elfos e orcs sem vida misturavam-se com os corpos pútridos e mutilados de uma grande horda de mortos-vivos. A única luminosidade provinha dos relâmpagos e das esferas incandescentes que eram regurgitadas das nuvens negras como o piche.

Em meio a todo o caos, poucos ainda podiam ser declarar vivos. Entre esses, quatro homens pareciam ter simplesmente desistido de desistir. Eles lutavam, dando tudo de si, para conseguir salvar seu amigo, seu companheiro, seu irmão. Ah, seu amigo! Possuído por uma entidade ancestral, cegado pelo desejo de poder e sendo usado como instrumento para o terror, ele, com suas asas imponentes, voava pelo céu, murmurando devaneios e cuspindo as mentiras ditas pelo Planetário. Agora, ele não passava de um simples receptáculo. Sua consciência estava perdida em meio ao delírio fervilhante, se afogando ensandecidamente em magia primordial, não compreensível para meros mortais. Mas seus quatro amigos demonstravam fé. Apesar da plena consciência em sua própria falta de capacidade para derrotar a criatura, eles criam que podiam trazer a mente de Calter à tona, tirá-la do abismo que a espada senciente a jogara.

- Lembre-se Calter! Lembre-se de nós! Lembre-se de nossa amizade! Se você não recuperar, quem vai ficar se metamorfoseando em tudo o que vê pela frente, hein? Você sabe que eu não sou bom com metamorfoses. - gritou Tobias, em lágrimas.

O Planetário tinha total controle sobre a mente de Calter. As súplicas, as tentativas de recorrer às boas memórias e nem mesmo os gritos de dor dos homens que lutavam naquelas planícies manchadas pelo escarlate faziam-no sequer vacilar. Era impossível tirar, mesmo que por um mísero segundo, a mente de Calter daquele precipício. O fato do Planetário possuir poder suficiente para até mesmo derrubar deuses tornava a morte certa uma questão de tempo. Pouco tempo.

Quando tentavam voar para alcançar seu amigo, os homens eram chicoteados de volta ao solo por torrentes violentas de vento e gelo. Quando tentavam tirar benefício de suas habilidades mágicas, eles eram sobrepujados pelo terror indescritível da magia primordial do Planetário, falhando miseravelmente.

- Não tem jeito. - Tobias ajoelhou-se em desespero - Fizemos o que podíamos.  Nessa ocasião, mesmo sabendo do poder que ele tinha, nós decidimos lutar. Lutar não só pelas nossas vidas, mas pela de Calter. Só que coragem não foi suficiente. Fracassamos, não fomos fortes o suficiente e nem mesmo Helm, o grande deus protetor, desceu sua mão em nosso auxílio. Isso está decidido. Sempre lutamos até o fim. E este é o fim. É a vontade de Helm.

- Você deveria ter vergonha! Nunca abandono meus irmãos, nem mesmo que eu morra! Eu já disse que só vou morrer enquanto estiver com belas mulheres e um rum da melhor qualidade, totalmente em paz comigo mesmo. Vê rum e mulheres? Eu não vejo rum e mulheres. Nem paz. - bradou Gillion, repreendendo Tobias.

- Ele tem razão, Gillion. É o fim. Sem mulheres... Nem rum... Nem paz. Oh, meu deus, isso é deprimente! - suspirou Paimei.

A criatura, com todo seu poder e suas ações inexoráveis, despejava fúria sobre Galbratoh, reduzindo tudo a uma memória distorcida do que um dia fora uma grande nação além do Plano Material. Quando já quase nada restava, quando tudo que se destacava em meio ao caos rodopiante eram as quatro figuras humanóides, com suas espadas e cajados, a criatura tomou conhecimento de que tudo o que restava a ser feito para partir dali em direção aos seus desígnios impensáveis, era a obliteração de tais figuras. Ela então planou ao chão, pousando. Caminhando lentamente em direção aos aventureiros, que estavam a ponto de largar suas armas e aceitar o destino que estava por vir. Com gloriosos dois metros e meio de altura, um corpo extremamente musculoso, uma beleza que Calter jamais pensara em possuir antes de ter sua mente dominada e longas asas semelhantes a de um celestial, a criatura sussurrava palavras incompreensíveis aos ouvidos mortais, mas claramente pronunciavam a ruína e o terror.

Ao chegar perto o suficiente dos homens, cerca de três metros, a criatura elevou-se, planando a alguns centímetros do solo, levantou sua espada contra eles e disse, com uma voz grave, similar ao som de terremotos:

- Enfim perceberam a inutilidade da resistência. Serei rápido.

Cortou com sua espada então, em direção a eles. Naquelas frações de segundo que antecederam o choque da espada, eles enfim perceberam, da forma mais cabal possível, que a vida deles estava entregue ao destino. E o destino estava favorável, pelo menos foi o que pensaram naquele instante.
Atrocitus, um dos quatro homens, então levantou sua mão e com um único movimento deteu o ataque do Planetário.

- O que é isso? Como isso é possível? - gritou a criatura, completamente incrédula na sua própria visão.

- Irei dizer uma única vez: eu sou Taran, da casa Balerion, primeiro de meu nome, o cavaleiro rubro, príncipe de Midreth, lorde do Vulcão Caldron e agora... PORTADOR DO PLANETÁRIO! - exclamou, enquanto puxava a espada da criatura, com as mãos nuas, desarmando-a.

Ao ter a espada removida de suas mãos, a criatura começou a gritar em agonia, de seus olhos e boca uma forte luz emergira, suas asas começaram lentamente a se desfazer, pena por pena, apodrecendo enquanto sua forma voltava ao que Calter era antes de ser dominado.

Já nas mãos de Atrocitus, a espada começou a proferir blasfêmias na mente dele, seu novo portador, tentando dominá-lo.

- Mortais, sempre fadados ao fracasso. - disse o Planetário na mente de Atrocitus, por meio de telepatia.

- E quem disse que eu sou um mortal? - retrucou Atrocitus, dando risadas num tom macabro, enquanto sobrepujava as tentativas de controle de sua mente, submetendo o próprio Planetário ao seu domínio.

Com o controle da espada, Atrocitus não teve sua forma física e nem sua consciência afetada, mas obteve acesso a todo o poder que o Planetário dispunha e também a algo além daquilo. Um poder que só uma mente resistente o suficiente para não se perder para as seduções da espada podia acessar.

- O que está acontecendo aqui? Co-como você fez isso? - perguntou Paimei, indignado. - Tem coisa aí, tem coisa aí. Acho que tu tava certo sobre o lance de morrer com as mulheres, Gillion.

- Se podia fazer algo do tipo, por que não o fez antes de todas essas mortes acontecerem? - Tobias estava atônito.

Enquanto isso, Gillion já com uma flecha preparada em seu arco, fez sinal para que seus companheiros, que viam Calter cair no chão desacordado, se afastassem de Atrocitus.

- Explique-se. - exigiu.

- Acharam mesmo que eu estava auxiliando vocês? Tiveram a ingenuidade de acreditar que eu, o grande Atrocitus, me misturaria com tipos mortais como vocês, sem um propósito maior por trás disso? Tolos. Vocês foram meras ferramentas. Admito que precisei de vossos conhecimentos para alcançar o Planetário, mas não mais. Ele já está em minha posse. - argumentou, enquanto contemplava o Planetário e todo seu poder, fluindo por seu corpo. - O mundo é grande, muito grande. E além desse mundo, existem outros. Os planos superiores, os inferiores, até mesmo o Reino Distante. E nessa imensidão, segredos se escondem...

Imediatamente após isso, a tempestade cessou. O céu começou a se abrir, e os trovões silenciaram-se. Aquele caos mágico terminara, mas a escuridão mantinha-se. Não era natural, mas também não provinha mais do Planetário. Era algo diferente, talvez mais sinistro. Uma energia fantasmagórica que lentamente preencheu o lugar que antes transbordava de magia primordial. E então, a partir da escuridão profunda dos céus, um grande portal, com cerca de dois quilômetros quadrados, começou a se desenhar ali. Atrocitus continuou em seu ritual de contemplação da espada, como se nada estivesse acontecendo. Já os aventureiros, não sabiam com o que deviam se preocupar mais: com um possível ataque de Atrocitus ou com o grande portal que surgira.

- Ah, não mano. Esse plano é BR, só pode. Isso aí já é demais. - resmungou Paimei.

- O que está acontecendo, Atrocitus? Ou devo chamá-lo de Taran, da casa, ah tanto faz... Vai abrindo o bico. - ordenou Gillion.

- Você verá. - respondeu Atrocitus, enquanto dirigia seus olhos ao portal.

Naquele momento, uma criatura colossal e assombrosa começou a emergir do portal. Conforme saía, seu aspecto macabro ficava mais claro. Era como um grande esqueleto, trajando um manto negro e portando um grande livro. Sua aparência muito assemelhava-se a de um lich. Quando ela efetivamente terminou de sair do portal, Gillion notou um pavoroso sorriso no rosto de Atrocitus.

- Bem-vindo, Vecna! A que devemos a honra? - perguntou Atrocitus à criatura, com impertinente sarcasmo.

- Sabes muito bem o motivo de minha presença. Entregue-me o Planetário. - respondeu a criatura, com uma voz semelhante ao som do bater de asas de milhões de moscas.

- Isto que quer? Então venha, pegue! - desdenhou.

A grotesca criatura permaneceu imóvel, como se estivesse esperando por algo. Tobias, diante de tal cena, não aguentou e desfaleceu, caindo aos braços de Paimei, que numa incrível demonstração de reflexos evitou que ele caísse ao chão.

- Tobias?! - gritou Paimei, assustado.

- A mera presença de Vecna é demais para alguns. Não é mesmo, falcão Mardallis? - questionou Atrocitus, olhando para Gillion.

Gillion ainda apontava a flecha na direção dele, mas seus olhos estavam semicerrados, suas mãos tremiam e seu rosto estava pálido. Era claro o imenso esforço ao qual Gillion estava submetendo-se para simplesmente permanecer consciente.

- Para alguns, talvez. - respondeu ele, com voz rouca. - Mas não para um Mardallis.

- Você sabe muito bem que não está em condições de fazer exigências, Vecna. - disse Atrocitus em alta voz, olhando então para a criatura nos céus. - Não retirou o Planetário de minha posse assim que chegou, pois sabe que não tem capacidade para tal, mesmo sendo um deus. Sou mais poderoso que você. Poderia fatiá-lo agora, como um bezerro, se assim eu quisesse. Mas não... Sua vinda estava em meus planos. O lorde de todos os segredos, que tem conhecimento de tudo que é oculto e daquilo que não deve ser revelado... Era óbvio que você sabia da existência do Planetário, e igualmente óbvio que viria atrás dele quando o selo fosse quebrado. Até porquê, seu grande objetivo, hmm... Bem, coincide exatamente com o meu. O poder do Planetário, no estado atual, ainda é insuficiente para derrotar os deuses maiores, mas com sua ajuda isso não seria um problema. Então proponho-lhe uma aliança. Una-se a mim ou seja aniquilado, aqui e agora.

O silêncio então foi brutal. A criatura estava calada, com suas órbitas oculares queimando com uma luz verde que dançava num ritmo que proclamava a imoralidade. Foram longos dois minutos de trocas de olhares, durante os quais Gillion, apesar de seu esforço, já não era capaz de suportar a pressão avassaladora da presença da deidade. Ele caiu em direção ao chão pouco tempo após o término do pequeno discurso de Atrocitus. Paimei, que já havia repousado Tobias no chão, também urgira para interromper a dolorosa viagem de encontro entre o solo e a face pálida de Gillion.

- Muito bem. Venha comigo. - respondeu a criatura, voltando-se ao portal e desaparecendo lentamente na escuridão do vazio.

Nisso, Atrocitus começou a levitar em direção ao portal, levando consigo o Planetário. Na sua face, era visível o grande sorriso. Um sorriso ensandecido, digno dos personagens aterrorizantes que vivem nos pesadelos mais sombrios. Paimei era o único que restara de pé, vislumbrando aquela cena desprezível, preocupado com seus amigos caídos e começando a alimentar um desejo de vingança em seu interior. Tobias, Calter e Gillion estavam desfalecidos ao chão, exauridos.

Então quando Atrocitus estava prestes a alcançar a altura do portal, olhou para trás. Admirou toda aquela destruição, sentindo-se imensamente satisfeito com tudo que ocorrera, extraindo prazer do caos no qual tudo se tornara. Em meio a isso, também viu seus antigos companheiros, derrotados e enfraquecidos da batalha. Assim, lembrou de tudo que aconteceu entre eles e de como foi bem sucedido em seus planos maquiavélicos, virando-se então para Paimei, dizendo-lhe:

- Já ia esquecendo de vocês, peões. Como prova de minha misericórdia, pouparei suas vidas. - disse, soltando uma gargalhada sinistra logo após. - Mas não pensem que será tão fácil assim. Aprisioná-los-ei em Carceri, de onde jamais sairão! - terminou, sumindo pelo portal.

De repente, uma energia poderosa começou a envolver os aventureiros. Cada parte de seus corpos estava sendo inundado por magia primordial, absoluta e complexa. Lentamente, eles começaram a sumir, seus corpos estavam sendo levados para algum outro lugar. Suas mentes estavam sendo retorcidas pela magia, desfazendo-se da mesma forma que seus corpos. Em meio a isso, Gillion abre os olhos. Zonzo e sem muito controle sobre seus sentidos, ele vira-se para Paimei e pergunta:

- Mas e as mulheres?

Foi a última coisa dita e ouvida antes dos corpos daqueles quatro homens desaparecem completamente, deixando para trás somente a lembrança de uma traição amarga.