domingo, 18 de setembro de 2016

Enquanto Você Dorme

Para começar, devo admitir que fora perturbador o jeito que tudo ocorreu. Sei que desejava obstinadamente um teto sobre o qual pudesse repousar - um que realmente fosse meu -, mas desejei que meu nome não estivesse naquele testamento quando descobri, em meio aos pertences encaixotados no lúgubre quarto onde tio Carlos passava suas noites, as causas hediondas do óbito - ao menos, segundo seus horripilantes relatos. Não cabe a mim julgar a veracidade de tudo que li no póstumo manuscrito, haja vista seu caráter ensandecido, mas o semblante horrorizado e contorcido que meu tio ostentava ao ser encontrado, já em putrefação no seu leito profanado, muito contradizia o parecer do legista, que estipulava veementemente infarto como causa mortis. O irredutível perito mostrava-se um tanto tergiversante quando questionado sobre como um homem com aquele invejável condicionamento físico poderia ter sido vítima de tão súbita catástrofe em seu miocárdio. Pessoalmente, creio que ele estivesse tão confuso quanto eu, mas qualquer explicação científica em jargão médico certamente já seria mais plausível do que aquela coletânea de repulsivos rabiscos no maltrapilho diário em couro e insânia.

Mostrei-me muitíssimo relutante ao que tange a escrita destas linhas, mas, diante da minha atual situação - a qual explanarei após concluir o presente elucidário -, precisei deixar de lado a vergonha e o orgulho para não correr o risco de ter o mesmo destino obscuro de meu predecessor. O ceticismo de qualquer possível leitor dessa missiva é perfeitamente compreensível - ora, sei disso mais do que qualquer um, pois tive a mesmíssima reação ao folhear as derradeiras páginas de meu tio. Não obstante, despejo a diante todos os dados que possuo, a fim de alertar todo aquele que na mesma situação se encontre - ou tema se encontrar.

Segundo as trêmulas cursivas do finado, tudo começou na madrugada de 26 de setembro de 2015, num primaveril sábado. Ele havia chegado à casa extenuado após um penoso expediente na repartição onde trabalhava. Não fez nada além de tomar um apressurado banho antes de se deitar - a cama era demasiadamente convidativa naquelas circunstâncias.

Dormia muito tranquilamente, até que, por volta das 3 horas da manhã, acordou sentindo uma forte pressão contra sua perna direita. Tão logo se curvara para investigar seu membro, o tormento cessou, da mesma maneira inopina que havia tido início. O eco do acontecimento ainda reverberava doloroso por seu corpo quando acendera a lâmpada do abajur no criado-mudo a fim de vislumbrar a origem do infortúnio. O que viu lhe deixou perplexo: uma nódoa funesta com a forma da palma de uma mão tisnara sua derme. Um tênue, porém pungente, odor de enxofre emanava da sinistra mácula, que se estendia para a beira da cama num rastro perverso até um profano círculo oval em baixo-relevo, que, segundo tio Carlos, transmitia a sensação de que alguém sentara ali recentemente.

O horror foi total. Ele, mesmo sendo um sujeito centrado, saltou da cama e correu ao encontro do interruptor; precisava de luz plena para averiguar se o que presenciara era real - e era. Transtornado e tomado pela repulsa, despiu-se de sua camisa para tentar com ela remover a parasitária impureza de sua perna. Obteve inicial sucesso, mas não tardou a constatar que somente água e sabão, aliados à uma vigorosa escovada, poderiam dar cabo do demoníaco estigma. Só quando começou a caminhar em direção ao banheiro - que ficava a um corredor dali -, deu-se conta de que a misteriosa entidade que sentara a seus pés ainda poderia estar presente em sua residência. Meu tio era daquele tipo de pessoa que estando acompanhado gabava-se de seu ímpeto destemido, mas quando sozinho e confrontado por algo além de sua compreensão racional, era capaz de abandonar momentaneamente seu ateísmo para persignar e rezar o terço. Voltou aflito ao quarto, abriu prontamente a gaveta do criado-mudo e sacou seu revólver calibre 38.

A nódoa transformava-se em um viscoso líquido preto conforme era lavada, escorrendo pelo ralo e causando um inexprimível asco em meu angustiado tio. Após terminar, sentou no porcelanato gélido e levou as mãos à cabeça em desalento; tentava encontrar alguma lógica na cadeia de eventos que lhe sucedera. A casa estava muito bem trancada, cada porta e janela. O alarme estava ligado e em bom estado - uma inspeção recente comprovara isso. A ideia de alguém ter invadido para dar-lhe um susto enquanto dormia era de sobremaneira inconcebível - a única hipótese ainda em pauta era uma invasão anterior à sua chegada. Furioso, levantou num sobressalto e rugiu ameaças a qualquer um que pudesse estar se escondendo - não obteve resposta. Vociferou, deixando claro que não responderia por seus atos caso o suposto invasor permanecesse oculto - não obteve resposta. Com o cano frio da arma ameaçadoramente apontado para o alto, saiu pela casa à procura do dito-cujo. Vasculhou cada canto, perturbou a quietude de cada quinquilharia e bradou soturno para o nada. Não achou qualquer escarnecedor críptico, nem indícios que dessem um toque lógico à blasfema moléstia. Dadas as circunstâncias, continuar dormindo era impossível; puxou uma cadeira para próximo da cama e decidiu passar o resto da noite acordado, encarando o profano círculo oval sobre o colchão. Calibre 38 numa mão, exemplar do Novo Testamento noutra.

O sol despontava ao horizonte quando meu tio se deu conta de que sua situação tomara um rumo ainda mais perturbador. Os inocentes raios de luz que entravam pela janela tornaram-se responsáveis por sua segunda onda de pânico, após revelarem ao insone que não só estava coberto de lama e dejetos, como também sua vigiada nódoa desaparecera. Ele não possuía qualquer recordação de ter levantado daquela cadeira, quanto menos de ter se atirado em alguma fossa. O odor excruciantemente nauseante provindo da imundície que o cobria, aliado ao terror inominável de perceber que em sua perna a marca da diabólica mão novamente se encontrava, assolou seu equilíbrio mental já agredido. Os registros descabidos escritos àquela manhã ficaram envoltos num ar de paranoia tão expesso que não ouso tentar reproduzir aqui tamanha sandice belzebútica. A única constatação indubitável extraída daquele emaranhado desconexo era que ali residia o princípio de sua ruína.

O próximo relato são foi concebido vários dias depois - na terça-feira à tarde -, após intervenção de conhecidos. A vizinha de meu tio - e agora minha -, uma senhora de idade avançada, havia se assustado com a torrente de blasfêmias e obscenidades que o desvairado homem proferira pelo resto do sábado. Tio Carlos era uma pessoa de comportamento comedido e moralista, então seu gesto sórdido muito surpreendeu a vetusta mulher, que, espavorida, telefonou para seu genro - um policial militar. Chegando à casa, o homem da lei a encontrou com portas e janelas escancaradas. Por todo o lugar haviam inscrições em tinta vermelha; símbolos heréticos e inefáveis que remetiam às mais torpes e detestáveis hostes abissais. Meu tio foi encontrado nu em sua cama, gargalhando e cantarolando infâmias. Seu olhar estava vazio, seu corpo pálido e trêmulo. Um acentuado odor de enxofre tomava conta do quarto, agravando o sentimento de aversão no policial, que por pouco não desfaleceu ao presenciar aquele circo nefasto. E foi assim que, diante de uma situação que em muito se desviava do seu campo de atuação, deliberou convocar o vigário.

Chegando ao local, em azáfama, padre Jeremias logo constatou a presença de um espírito opressivo. Tal entidade não estava possuindo tio Carlos, mas sim o cercando. Seu conhecimento dizia que um poderoso demônio obsessivo ali se encontrava; um que dotava aptidão para perseguir livremente suas vítimas, atacando-as durante a noite, no momento em que estão mais vulneráveis. Tendo autorização para tal, optou por realizar um exorcismo.

Com tudo pronto, o padre começou a vozear fervorosamente palavras em latim, que ordenavam a saída do espírito imundo. Meu moribundo tio permaneceu inerte em seu lugar, não demonstrando qualquer reação perante o inflamado discurso. Aspergindo água benta, o cura impôs a destra sobre a cabeça dele e reiniciou o rito. Quando o líquido sagrado verteu por sobre onde a marca da mão antes estava, o afligido uivou em agonia. Uma fumaça negra se elevou desde sua perna, emanando um sufocante cheiro de carne putrefata. Nisso, a nódoa no colchão subitamente reapareceu, revelando a fonte primordial do miasma pernicioso. Sem perder tempo, o padre, fitando a marca, proferiu um veemente e derradeiro comando, tendo em seguida derramado água benta nela. A mesma fumaça começou a surgir novamente, porém muito mais intensa, consumindo toda a camada de blasfêmia. Os vapores que se ergueram então se aglomeraram no ar, formando um vulto humanoide de cabal malevolência. O policial, horrorizado, sacou sua arma e prontamente atirou contra a nuvem de gases daníficos. As balas atravessaram o ar negro, sem causar qualquer efeito. O vulto então condensou gradualmente até que, após alguns tortuosos momentos, transformou-se numa massa mórbida de carne cinza. No instante que isso aconteceu, meu tio desmaiou.

A criatura diante deles possuía cerca de dois metros de altura, era careca e não tinha olhos ou nariz - em suas órbitas, somente escuridão aterradora. Seu corpo era grotescamente deformado e suas mãos ostentavam garras afiadas o suficiente para retalhar a carne humana, sem qualquer esforço. Sua mera presença arrefecia o ambiente, causando tremores no clérigo e no policial - este último que, em desespero, disparara sem sucesso diversas vezes contra o ser, tendo somente cessado a saraivada quando a munição se esgotou; as balas abriam buracos, que logo se fechavam. Lutando para que seu corpo obedecesse os desígnios de sua mente, o padre então tomou o crucifixo que carregava e ululou com todo fôlego que dispunha, ordenando em nome de seu patrono que a demoníaca besta dali se retirasse. A criatura mugiu em desconforto e partiu cambaleante para cima do sacerdote, que, sem titubear, prosseguiu com seu clamor. Bolhas efervescentes começaram a emergir da pele da criatura, fazendo-a se contorcer em agonia e cair ao chão, desaparecendo em seguida numa poça lúgubre de miasma plúmbeo.

Depois daquele episódio, tudo que aconteceu foi relatado ao meu tio, que assim pode manuscrever. Sua consciência e sanidade retornaram e seu perseguidor preternatural desapareceu. Retornou ao trabalho normalmente e seguiu sua vida, esforçando-se para superar os eventos traumatizantes. Os detalhes da aparição demoníaca foram mantidos em segredo, num irrevogável acordo feito entre os três homens - de qualquer maneira, dificilmente alguém que não estivera ali acreditaria na história. Tudo parecia perfeitamente normal até que… Tio Carlos veio à óbito. Não só ele, como também o padre e o policial; todos vítimas do mesmo mal cardiovascular. Após o relato do exorcismo, pouco foi escrito no diário. As anotações que procederam àquela foram todas irrelevantes, exceto a última. Nessa excetuada e enigmática mensagem, que medonhamente fora escrita em latim - meu tio não tinha proficiência em nenhum idioma além do português -, os seguintes dizeres eram encontrados (já tendo eu traduzido):

A noite cai, ele levanta.
Ele quer carne, quer sangue.
Espreita o sono, ceifa o insone.
Nunca descansa. Irrefreável.
Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

Tenho por certo que o exorcismo não sucedeu corretamente. Aceitei essa casa em meu ceticismo, mas hoje sofro as consequências. Acordei esta noite, precisamente às 3 horas da manhã, e creio ter presenciado a criatura à beira de minha cama. Não senti pressão contra minha perna, nem notei nódoas, mas de certo a entidade demoníaca que corroera a centelha vital de meu tio está aqui, em meu derredor. Uma vez que ela apareceu, temo que seja questão de tempo até a trágica morte que, arbitrariamente, me aguarda. A despeito de tudo isso, pelo menos tive a oportunidade de alertar a todos - e isso, sem dúvida, alivia este sentimento de impotência que me atormenta.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Dossiê RPG: Atrocitus #1

Nome: Taran Balerion
Alcunhas: Atrocitus; Rubro; Dragão de Asas Opostas
Raça: indefinível
Naturalidade: Midreth
Filiação: Bahamut, o platinado; Ea Balerion
Idade: 648 anos
Descrição: olhos vermelhos como sangue recém-derramado, cabelos negros como a morte, estatura mediana e corpo robusto. Costuma usar uma armadura rubra, adornada com o símbolo de sua casa no peitoral. Exímio espadachim.

Há muito tempo atrás, a malquista união entre o Senhor do Vento Norte - Bahamut, o rei dos bons dragões - e uma abissal, de origem desconhecida, gerou uma abominável prole bastarda. Enojados e, segundo alguns, também temerosos, os deuses reuniram-se em Consenso para julgar a insensatez do grande platinado.

Em unanimidade, resolveram ostracizar Bahamut, sob o argumento de ferir o equilíbrio do cosmo. Com a suposta bênção do Grande Supremo, despedaçaram sua centelha e aprisionaram seu corpo, ainda imortal, num semiplano no inóspito Reino Distante. Sua nefasta companheira, tendo conhecimento do eminente destino de sua cria, enviou-na devolta ao Plano Material, sob uma poderosa magia de sangue, que só o poder primordial poderia conceber. Tal magia tratou de ocultar a criança de seus divinos algozes. A abissal foi aniquilada, não muito depois, após ser vítima do doentio massacre de Erythnul.

Ironicamente, o destino lamentável do deus dragão de toda forma trouxe desequilíbrio, haja vista que, sem um rival de alinhamento benigno, Tiamat, a deusa dos dragões cromáticos, viu-se com promíscua liberdade no que tange a raça dracônica. Entretanto, segundo o próprio Pelor, sem a intervenção do panteão, a devassidão de Bahamut teria gerado consequências ainda mais catastróficas.

Taran cresceu nutrindo um ódio muito profundo, cultivando um transcendente desejo de vingança. Queria apresentar àqueles déspotas uma dose de seu próprio jugo. Não suportava a ideia de viver em um mundo onde deuses podiam, arbitrariamente, decidir o destino dos seres com base em suas próprias ideologias infundadas. Ea, sua mãe, havia ido contra sua própria tendência e contra tudo que era por amor a Bahamut. Taran sabia disso; ele era capaz de sentir a manifestação física daquele inquebrantável sentimento correndo em suas veias.

Devido à magia primordial incrustada em seu âmago, ao trauma que sofrera e à sua descendência única, o que agora é chamado de Dragão de Asas Opostas, desenvolveu um inexplicável desequilíbrio mental. Um mórbido caso de transtorno de múltiplas personalidades, que nunca antes na cronologia da Criação fora registrado. Sua mente oscila inconstante entre as nove tendências que regem o comportamento das entidades existentes, mas, por motivos obviamente desconhecidos, predomina a ordem e o mal.

Após séculos de planejamento, ele hoje trás à tona seus malévolos intentos. Crescendo em poder e sabedoria, o rubro marcha por todo continente - e além -, espalhando seu profano miasma. Não se sabe até onde as habilidades e ambições de Atrocitus irão arrastar o multiverso, mas certamente tragédia e estertores espreitam todo o percurso.

A apocalíptica canção foi tocada e poucos foram os que genuinamente ousaram levantar-se para tentar pôr fim à pandemônica sinfonia.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

O Cavaleiro Vingador: Velhos Fantasmas #2

Cavalgando por mais de uma hora, Ledier viu-se diante de um grande portão de ferro, bastante marcado pelo tempo. Uma camada esverdeada de musgo e vinhas ocultava algumas antigas inscrições em élfico, que, após uma inspeção mais atenta, revelaram significar "Floresta Verdejante de Elnos": esse era um sinal de que ele acabara de chegar à fronteira do território dos elfos. Ao atravessar o portão, desceu de seu cavalo e seguiu a pé, segurando mansamente as rédeas do animal. Estava preocupado com o horário, já bastante avançado; não era uma ideia muito sábia vagar pela floresta à noite. A luz vivaz da lua revelava uma pequena trilha floresta adentro, a qual o cavaleiro de Pelor seguiu por alguns minutos, até chegar à beira de um lago. Seu corcel tinha sede, assim como ele.

Após dessedentar, amarrou o animal em uma árvore e deu-lhe a devida atenção. Escovou sua crina e apresentou-lhe o pasto. Era trabalhoso cuidar diariamente dele sem a ajuda de um escudeiro, mas Ledier preferia assim.

- Ao meu lado, somente Pelor cavalga. - pensou.

Uma amoreira próxima logo se mostrou deveras convidativa, após um barulho grave vindo de seu estômago anunciar as angústias da fome. Recolheu algumas frutinhas e tirou de sua trouxa duras tiras de carne seca - àquela altura, um aprazível banquete. Afligido pelos mosquitos e pelo vento gélido vindo do oeste, acendeu uma fogueira e procurou abrigo em seu calor. O saco de dormir foi estendido ali mesmo, sem maiores preocupações com a segurança. Tendo Ledier conhecimento das constantes patrulhas conduzidas pelos meticulosos elfos de Elnos e de seu característico sono leve, não se deixou enfadar com a possibilidade de surpresas noturnas.

Pelo meio da madrugada, ouviu um barulho estranho vindo da mata. Levantou-se prontamente e, num reflexo de seu preparo, sacou sua espada estrategicamente posicionada próxima a seu leito. A fogueira já havia se tornado um punhado de brasas incandescentes quando resolvera ir até seu recém-chegado convidado dar-lhe as boas vindas com aço. Caminhando o mais furtivamente possível, ele logo encontrou, numa moita que curiosamente se movia, a fonte do som que o acordara. Aproximando-se em guarda, logo avistou por entre os ramos um rosto irritantemente familiar.

- Eu não acredito que seja você novamente! - grunhiu. - Qual o seu problema, moleque? Já lhe disse que não pode me acompanhar. É surdo ou tem retardo? - Ledier abaixou sua lâmina e fez uma expressão de profundo descontentamento. Não estava nada jubiloso com a chegada do rapaz.

- Oh, meu senhor! Que surpresa agradável! - exclamou, num tom de voz petulantemente cínico.

Ledier deu as costas para ele e voltou para seu  acampamento improvisado, murmurando em protesto. O jovem perseguidor, numa demonstração de audácia, sentou-se perto das brasas e, usando alguns gravetos como combustível, reacendeu a fogueira. Pondo-se a tagarelar como um papagaio, ele tentou iniciar um diálogo com seu salvador. Ledier teve de reunir muita força de vontade para não usar de violência contra o linguarudo inconsequente. Recitando em voz baixa seus votos sagrados, deitou-se em seu saco de dormir e fechou os olhos.

- Talvez seja só um sonho de mau gosto. - considerou, em pensamento.

Quando o rapaz parou repentinamente de falar, Ledier se lembrou de um pequeno detalhe que havia ignorado: sua presença ali era aceitável, dada sua linhagem, mas a de seu novo colega, não. Ao abrir os olhos, encontrou-se cercado por elfos. Cinco deles em cima das árvores, com flechas ameaçadoramente apontadas para o  rapaz. Os outros revelaram-se como sombras humanoides por entre os troncos.

- Conhece esse homem, Ledier Domeni, filho de Frostborn, neto de Orghot? - interpelou o elfo, falando em seu idioma nativo, enquanto gesticulava com a seta afiada.

Aquela parecia ser uma boa oportunidade para ele se livrar do inconveniente homem com hematomas e roupas rasgadas que o atormentava, porém o paladino foi tomado por  uma inesperada onda de compaixão ao ver o  desespero no olhar do rapaz. Havia ali um brilho que lhe era familiar. Um que já presenciara antes, quando seus pais estavam prestes a terem suas vidas ceifadas.

- Sim, ele está comigo. Não se preocupe, patrulheiro. - respondeu, em élfico, enquanto saudava aqueles seres magicamente belos da floresta.

Foi notório o suspiro de alívio do rapaz ao ver a intervenção de Ledier e o posterior abaixar dos arcos. Mais uma vez havia sido salvo.

- Ah, eu sabia! - comemorou, enquanto observava os elfos desaparecem sorrateiramente por entre a vegetação. - Eu sabia que não ia deixar aquelas gazelas  saltitantes me fazerem mal. - acrescentou, sendo logo surpreendido por uma flecha que violentamente atingiu a fogueira a sua frente, levantando centelhas escarlates das brasas.

- Eles ainda estão aqui, seu tolo. E entendem o que você diz. - alertou, enquanto se questionava se havia realmente sido uma boa ideia salvá-lo. - Agora deite-se em algum lugar e durma. Mas faça isso antes que eu me arrependa de tê-lo salvo. Pela segunda vez! - fez questão de recordar-lhe.

Quando o sol ameno e o canto dos pássaros denunciaram que já era manhã, Ledier se levantou e viu que a sua frente havia um pequeno banquete de frutas - um mais agradável aos olhos do que o "banquete" da noite anterior. Haviam diversos tipos de frutas; desde as já experimentadas amoras, até figos e maçãs de aparência apetitosa.

- Bom dia, meu lorde. Tomei a liberdade de preparar um pequeno desjejum para o senhor. Espero que goste. - disse, enquanto se aproximava com duas cumbucas cheias de água. - Ah, e já tratei de seu cavalo.

- Comeu esterco? - indagou, para espanto do rapaz. - Eu não sou um lorde: que isso fique bem claro. E não pense que agrados irão me fazer mudar de ideia quanto a deixar você me seguir por aí. Vou deixá-lo em Caradór. De lá seguirei meu caminho, e você, pela graça de Pelor, seguirá o seu. - sua voz era de um timbre bastante rígido. - A propósito, largue isso e se apronte. Não quero perder tempo algum, pois pretendo me livrar de você ainda hoje.

Ledier colocou algumas frutas em sua bolsa, encheu o cantil de água e recolheu suas coisas. Logo depois, partiu seguindo a trilha do lago, enquanto acossado pelo enérgico jovem.

- Qual é seu nome? - o cavaleiro desatento logo deu-se conta de que ainda não havia feito uma pergunta tão básica.

- Não tenho nome, meu senhor. - respondeu, mostrando-se cabisbaixo.

- Todos temos um nome. - argumentou.

- Eu não, meu senhor. - lamentou. - Fui encontrado ainda recém-nascido num estábulo da cidade. Fui criado por um fazendeiro e sua esposa megera, que sempre faziam questão de deixar bem claro que eu não passava de uma  ferramenta de trabalho.

- Mas quando precisavam de você, tinham de usar algum nome, não? Um apelido, talvez.

- Sim, meu senhor. Eles certamente usavam. Os mais recorrentes eram: imprestável, lixo e escória. - respondeu, chutando o ar sempre que mencionava um dos cruéis adjetivos. - Ah, e não podemos esquecer do "energúmeno". Minha senhora possuía um apreço muito grande por esse.

- Precisamos de um nome de verdade para  você então. - declarou, tentando animá-lo. - O que acha de Siburtisom? Creio que seja adequado.

- Siburtisom? Nesse caso, prefiro continuar com o "energúmeno", meu senhor. - rejeitou, com uma expressão de assombro no rosto.

- Como é possível não gostar de "Siburtisom"? - perguntou, sem obter resposta. - Então... O que  acha de Garet? Não há como você dizer que é um nome ruim.

O olhar de desaprovação no rosto do rapaz deixou claro que ele não queria passar o resto de sua vida sendo chamado de Garet. Após pensar um pouco, ele sozinho encontrou um que julgou adequado.

- Pelaios. - bradou. - Pelaios, com toda certeza é  um bom nome. No mínimo é melhor que "Siburtisom" - zombou, gargalhando em seguida.

- Está certo. - Ledier não se mostrou ofendido com a brincadeira. - Daqui em diante irei chamá-lo de Pelaios.

- Muito me alegra, senhor.

Os dois seguiram por algumas horas em uma trilha floresta adentro. Ledier imponente em seu cavalo e Pelaios arrastando-se a pé. O clima estava bastante agradável. A brisa suave de outono lhes dava um delicado toque, enquanto trabalhava em harmonia com os pássaros para criar uma sinfonia natural pelas árvores. Até então, era de fato um dia tranquilo. Após meio dia de viagem, escapuliram da floresta de Elnos e o do olhar oculto, mas sempre presente dos vigilantes elfos. A planície irregular e pedregosa na qual agora se encontravam fora o palco para a mudança do clima, dado o cair da tarde. As nuvens, antes volumosas, mas alvas, agora estavam enegrecidas e pesadas. Uma tempestade se aproximava.

- Falta muito para chegarmos à Caradór, meu senhor? - perguntou Pelaios, preocupado.

- Faltam algumas poucas léguas. Se apressarmos o passo, é provável que cheguemos antes da chuva. - respondeu, com o olhar focado no horizonte à sua frente.

Para surpresa de Ledier, não demorou nem mria hora para que a chuva começasse a cair. A princípio fraca e ritmada, logo transformou-se num carnaval de trovões e relâmpagos. A impiedosa e torrencial tempestade havia feito sua entrada. Apressando ainda mais a sua movimentação, foram açoitados pela chuva até chegarem em um caudaloso rio de águas revoltas e turvas. A correnteza estava inexoravelmente forte e a ponte de madeira que ligava uma margem à outra estava destruída. Não havia como atravessar o curso de água de forma segura.

- E agora, meu senhor? O que faremos? - Pelaios começara a ficar bastante apreensivo. - Oh, veja  ali! Logo naquela direção. - seu dedo apontava para uma pequena caverna ao norte. O clarão dos relâmpagos tratou de deixá-la visível àquela distância. - Podemos ficar ali até a tempestade se acalmar. - sugeriu.

- Negativo. Trolls caminham por estas terras, temos que sair daqui o quanto antes. - esclareceu. - Aqui não é seguro como Elnos.

- Mas o que faremos então, senhor? - questionou, ficando mais aflito a cada trovoada. - A travessia é impossível. Existe algum outro  caminho até Caradór?

- Sim, existe. Entretanto, jogar-se no rio para tentar atravessar a correnteza talvez seja algo mais sensato a se fazer do que vagar pela Ravina dos Ventos Sombrios. - ponderou, seriamente.

- E por que isso, meu senhor? - a curiosidade tomou conta do encharcado Pelaios.

- Se formos por lá não chegaremos a Caradór hoje e, além do mais, aquele lugar esconde grandes perigos. - disse, tentando pensar em uma alternativa viável.

Quando ouviu ao longe, disfarçado pelo som dos trovões e o clamor das fortes águas do rio, um forte urro, soube que não podia ficar mais nem um segundo sequer ali. Ledier então pediu que Pelaios subisse em seu cavalo e, num galope desajeitado, os dois então prosseguiram em  direção à Ravina.

Depois de algum tempo, ouviram um tenebroso uivo logo a diante: era a Ravina dos Ventos Sombrios. O vento, ao passar pelos paredões inomináveis, fazia um peculiar som, que era capaz de gelar o coração de qualquer pessoa ousada o suficiente para tentar a travessia.

- Desça. - ordenou Ledier. - Precisamos seguir a pé agora.

- Compreendo. - disse, enquanto descia.

- Não podemos continuar com o cavalo, infelizmente. - suspirou, enquanto desprendia seu equipamento da sela do animal.

- Mas por que temos de abandoná-lo? - perguntou Pelaios, confuso e com uma pontada de dó do pobre corcel.

- Ele é um bom cavalo. Sem dúvida alguma é. Irá encontrar o caminho até Galbatroh. - afirmou, com orgulho, dando em seguida um comando para que o animal seguisse seu próprio caminho. - Eu não planejava passar por este lugar traiçoeiro, rapaz. Ninguém com amor à vida passa por aqui. Mas, da mesma forma, ninguém com amor à vida ficaria lá para ser atacado por um bando selvagem de trolls. O que fiz foi colocar as medidas na balança para assim decidir o que era mais sensato. Aqui na Ravina também estamos correndo sério risco. Se formos silenciosos e tivermos cuidado, poderemos nos safar dessa sem maiores complicações. - explicou Ledier, enquanto conduzia Pelaios até um abrigo esculpido na face da rocha.

- Disse que estamos em perigo aqui, mas não  explicou que perigo seria esse, meu senhor. - arguiu.

- Há muito tempo atrás, uma elfa que vagava em uma esplendorosa floresta, ouviu um canto  de pássaro tão puro e suave que a levou às  lagrimas. Seguindo a melodia, ela chegou à uma clareira onde encontrou um elfo, de aparência jovem e bela, que também procurava o pássaro. Esse era Fenmarel Mestarine, uma deidade élfica reclusa. Sua presença divina e seu ar de encanto, fizeram com que a elfa ficasse completamente extasiada e entorpecida. Seu coração foi arrebatado diante de tanta magnificência. Quando ele partiu, desaparecendo entre as árvores como se nunca estivera ali, a donzela ficou desolada. Apesar dela ter procurado em cada canto da floresta e gritado pelo estranho até que sua voz desaparecesse, não encontrou traço algum de sua presença. Levada ao  desespero, ela implorou aos deuses por ajuda. Aerdrie Faenya, a deusa élfica do céu, ouviu sua angustiada súplica e resolveu ajudar. A divindade apareceu diante da triste elfa na forma do pássaro cuja canção havia fascinado o deus proscrito e então lhe ensinou a canção da beleza e da sedução. Quando o canto dela  falhou em atrair Fenmarel Mestarine para seu lado, a elfa amaldiçoou os deuses, invocando sobre si um terrível poder, que a transformou na primeira harpia. A magia da maldição fez efeito tanto em seu espírito quanto em seu corpo,  tornando os desejos por amor em fome por carne. Mesmo hoje, sua bela canção continua a  atrair toda sorte de criaturas para seu abraço  mortal. Estamos em território de harpias, Pelaios. Creio que elas ainda não saibam que  estamos aqui, e é bom que permaneça assim. Vamos nos dividir em turnos para vigiar durante a noite. Tente descansar o melhor que puder, pois partiremos logo amanhã, se Pelor assim permitir.

Pelaios caiu no sono rapidamente. O coitado estava em total exaustão, após todo um dia de caminhada - depois de tudo, as roupas molhadas e as bolhas em seus pés nem o incomodavam mais. Ledier sabia que exigira um grande esforço da parte do rapaz, por isso estipulou que ele dormisse primeiro. Entretanto, quando seu turno acabou, o paladino já não estava tão compassivo; também precisava descansar. Ao acordar, Pelaios sentiu, finalmente, as dores, tanto da viagem quanto da surra que levara, ecoarem por seu corpo molestado. A chuva ainda estava forte, ostentando raios que cortavam o céu de ponta à ponta. Emitindo grunhidos, o rapaz pegou alguns figos que estavam na bolsa e comeu-os vorazmente. Estava com fome e tremia de frio,  mas essa última mazela não podia ser resolvida, dado o fato de não ser possível acender uma fogueira naquelas condições. Ele precisava aguentar firme.

Após algum tempo dormindo, Ledier despertou ao ouvir uma canção belíssima ecoando pela ravina. Entendeu imediatamente que aquilo provinha da maligna criatura das lendas. Percebendo a falta de seu companheiro debilitado, ele pegou sua espada e seu escudo e esgueirou-se por entre os paredões à sua procura.

No alto, a lua reinava gloriosamente, enquanto as poucas nuvens que restavam, persistiam em lançar brandas gotículas de água por sobre o obstinado servo de Pelor. Conforme buscava a origem da letal melodia, o volume do concerto tornava-se cada vez mais elevado, indicando assim que ele  estava se aproximando do covil da harpia. Não demorou muito até que testemunhasse movimentação. Numa área mais ampla da geografia do local, percebeu que três harpias sobrevoavam alguma coisa, que estava desvalida ao chão. Analisando mais de perto, viu Pelaios caído e com diversos ferimentos. O rapaz agonizava e urgia por socorro, enquanto as vis criaturas divertiam-se cortando seu frágil e moribundo corpo. Uma grande poça de sangue manchava o chão enlameado, ao passo que as torpes risadas das harpias profanavam o ar. Perplexo, Ledier não percebeu quando uma quarta e sorrateira harpia veio covardemente por trás dele, dilacerando-lhe a carne. As outras, aproveitando-se do ocorrido, dispersaram-se no ar, a fim de atacar o recém-chegado paladino - dessa vez, uma recepção constituída de dezenas de garras afiadas.

domingo, 11 de setembro de 2016

Dossiê RPG: Serena Marshall

Nome: Serena Marshall
Raça: Meia-elfa
Naturalidade: desconhecido
Filiação: desconhecido
Idade: aparenta ter entre 20 e 25 anos.
Descrição: olhos de um verde claro e misterioso, cabelos vermelhos como sangue, estatura mediana e corpo esguio. Costuma carregar consigo um símbolo sagrado de Nerull. Proficiente no uso de magia.

[...]

ÚLTIMA APARIÇÃO REGISTRADA: 27 de abril de XXX.

Na ocasião, uma guilda mercante foi atacada por uma mulher misteriosa. [...] Segundo a perícia, haviam 27 pessoas no local quando ocorreu. Houve somente um sobrevivente: Jandar Chergoba (humano, etnia rashemita, 49 anos). Todos os outros 26 elementos (humanos, diversas etnias, entre 26 e 72 anos) foram encontrados sem vida a hora da chegada do Esquadrão Antimagia. [...] Foi constatada completa ausência de ferimentos e estilhaços mágicos. [...] Posterior análise determinou hemorragia interna como causa mortis. O mecanismo usado ainda é desconhecido.

[...]

Obedecendo ao procedimento padrão, conduzimos uma entrevista investigativa com Jandar Chergoba. […] Nota-se claramente a grande dificuldade em prosseguir a entrevista, dado o diagnóstico de estresse pós-traumático do entrevistado.

[...]

Investigador: Onde o senhor estava na data de 27 de abril de XXX, no período que compreende das 21 às 23 horas?

Chergoba: No Zigurate de Kaansor, a guilda mercante.

Investigador: O que fazia naquele local?

Chergoba: Entregava um carregamento encomendado pela guilda.

Investigador: Do que consistia tal carregamento?

Chergoba: Material belicoso. O Zigurate é o maior distribuidor da região. 

[...]

Investigador: Às 22 horas e 30 minutos, uma mulher invadiu o local. Pode descrever o que ocorreu?

Chergoba: Mulher... Ela sorri. Sorri enquanto todo mundo cai. O sangue deles flui de suas bocas.

Investigador: Senhor, pode ser mais claro?

Chergoba: Sangue. Tem tanto sangue aqui... Ela gosta disso, ela quer sangue. Sangue. Sangue. Sangue. Sangue. Sangue.

Investigador: Senhor? Está tudo bem?

Chergoba: Ela está vindo, ela está vindo! Na minha direção, na minha direção! Ela já tem tanto sangue, mas ainda quer o meu. Sangue. Sangue. Sangue.

[...]

Um ataque de pânico forçou o término prematuro da entrevista. Não conseguimos extrair informações adicionais de Jandar Chergoba, que acabou, pouco tempo depois, desenvolvendo um quadro pronunciado de transtorno dissociativo. [...] À presente data, a divisão de Arcanismo Medicinal ainda não conseguiu restaurar suas faculdades mentais.

[…]

Dadas as informações do presente dossiê, eu, Jedrick, da casa Sobczak, alto inquisidor do Principado de Yvar, classifico a feiticeira Serena Marshall com o nível SS de periculosidade na escala Czarnecki . Qualquer informação que possa levar à sua contenção ou esclarecer qualquer de suas especificidades deve ser imediatamente transmitida ao Conselho de Inteligência e Arcanismo (CIA), para análise e posterior anexo a este documento.

[...]

Sem mais, finalizo.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Terror em Bom Retiro: Prólogo



PRÓLOGO
Nódoas do Passado

O sol já raiava alto quando Hugo abriu os olhos. Para uma segunda-feira, aquele não parecia ser um horário no qual um supostamente atarefado funcionário do Diário Fluminense deveria estar acordando - e a bela adormecida sabia disso. A lancinante dor de cabeça que o afligia e a nódoa de vômito seco ao seu lado, em uma brilhante parceira com o nauseante cheiro de nicotina no ar, logo trataram de recordar-lhe o motivo do atraso: a inconsequente noitada da última noite. Ao tentar se erguer, logo constatou que dormir no chão frio e duro de seu apertado banheiro não fora uma ideia muito sábia, mas se deu uma trégua assim que percebeu que não conseguia se lembrar de como havia chegado até ali - o que lhe pareceu justificativa suficiente para a escolha ruim. Hugo só sabia que havia saído para beber com alguns amigos e que havia comido alguns camarões - o vômito ajudou nessa parte.

- Eu fiz de novo. - lamentou, olhando seu reflexo abatido no pequeno espelho. - Se eu continuar com isso, não irá demorar até que a justa causa mostre as garras. - o vislumbre da solitária aspirina no balcão da pia serviu-lhe como um feixe de esperança ao qual se agarrar.

Com o aroma pungente de seu corpo aconselhando-o a se lavar, Hugo prontamente tirou suas roupas e foi de encontro ao chuveiro. Lutava ferrenhamente contra a tontura e a azia quando as gotículas de água gelada mergulharam-no num refúgio revigorante. Havia caído de paraquedas nesse mundo decadente assim que sua esposa sucumbira a um acidente de trânsito - um grande choque que o deixou desnorteado. Estavam casados há não mais que dois anos quando aconteceu. Sonhavam com bebês e planejavam a casa perfeita. Passeavam pelas areias de Copacabana, envoltos pela melodia de Tom Jobim. Admiravam a vista da Baía, enrubescida pelo toque do pôr do sol. Desejaram-se. Perdidamente. Amaram-se. Profundamente. Separaram-se. Amargamente. A água que escorria por seu rosto durante aquele banho disfarçava o desamparado lacrimejar que as tristes lembranças inevitavelmente provocavam.

Já passava do meio-dia, portanto precisava se apressar caso ainda quisesse dar as caras no escritório. Correndo desesperadamente, zuniu pelo apartamento à procura de seu terno, o qual achou imprudentemente jogado no sofá de sua também apertada sala de estar.

- Merda! - bateu o pé contra o assoalho, como se o pobre pavimento fosse culpado por seus infortúnios. - Todo amarrotado.

Ficou ali parado por alguns segundos, sem reação. O outro único terno que possuía estava sob os cuidados dos simpáticos funcionários da lavanderia que frequentava. Hugo estava tão afoito, que não sabia o que fazer diante daquele contratempo; sua persistente enxaqueca em nada colaborava. Regido pelo tique-taque do antigo relógio de madeira na parede, ele decidiu que, em virtude dos acontecimentos marcantes da última noite, iria em trajes mais casuais, a fim de "arejar" um pouco.

- Então nada de terno hoje. No máximo um casual chique. É, soa bem. - argumentou, tentando convencer a si mesmo da credibilidade de sua ideia.

Seu melhor jeans e a camisa social branca que nunca antes usara pareciam encaixar no padrão que procurava. Recolheu sua pasta, deu uma desleixada atenção à sua aparência e então correu porta a fora, deixando intactas as provas de sua farra noturna. Ter escolhido morar num prédio a cerca de vinte minutos do trabalho fora uma de suas decisões das quais nunca se arrependeu. Ter adquirido um carro fora outra.

Ao entrar no escritório deparou-se com os olhares incriminadores de seus colegas, examinando-o de cima a baixo. Hugo sabia que a combinação de atraso, incúria e descaso com a rígida etiqueta de Otávio Oliveira causaria reprovação geral, mas preferiu definir aqueles olhares como uma manifestação física da inveja ocasionada pelo intrínseco destaque de suas roupas destoantes. Para ele, um pouco de otimismo caía bem com uma Tommy Hilfiger legítima.

- Está atrasado. Muito atrasado. - constatou a senhora de óculos grossos na recepção.

- Bom dia, Marta. - disse, forçando um sorriso.

- Não seria "boa tarde"? - insinuou, fitando-o com o mesmo olhar incriminador já famoso no escritório. - Já viu a hora?

- Eu sei, eu sei. Tive alguns problemas. - a atenção de Hugo estava voltada para o pequeno pêndulo de Newton ao lado do computador. Encarar Marta não lhe pareceu uma boa ideia.

- Perdeu seu terno? - achincalhou, examinando suas roupas com desaprovação. - Você sabe mais do que ninguém o quão rígido o patrão é quando se trata de etiqueta. Caramba, se não quisesse trabalhar de terno, deveria ter escolhido qualquer outro escritório de jornalismo no estado. Só o Sr. Oliveira faz tal tipo de exigência.

- Está tudo bem, Marta. Eu falo com ele. - disse, dando-lhe sinal para que se acalmasse. - Realmente não tive outra escolha.

- Bem, então serão dois coelhos com uma cajadada só. O Sr. Oliveira pediu para avisar que queria vê-lo em sua sala assim que chegasse. - anunciou, dando uma pequena pausa para mais uma vez examinar Hugo. - Boa sorte. - desejou, com um quê de preocupação envolvendo seu semblante.

- Precisarei de sorte? - perguntou, inclinando-se sobre o balcão da recepção em busca de informações extras, mas como reposta somente obteve um "vai logo", dito através de um lábio cerrado e um balanço de cabeça recheado de autoridade.

Hugo entendeu o recado: era algo importante. Talvez fosse chegada a hora de colher a demissão que tão promiscuamente plantara. Seu otimismo de fachada foi então logo substituído por uma certeza de que aquele dia não podia piorar - certeza essa que foi logo descartada quando percebera que justo naquela segunda-feira situava-se o prazo final para entrega do artigo sobre o campeonato estadual. Preparando-se psicologicamente, foi em direção a porta de madeira italiana ao fundo do escritório. Não podia afirmar com precisão, mas sentiu como se os olhares incriminadores que o seguiam por sua via sacra houvessem se tornado olhares de comiseração.

- Sr. Oliveira? É Hugo Krause. - anunciou, dando três leves batidas na porta, ao passo que era intimidado pela placa em ouro puro ostentada na parede, com o nome e o cargo de seu carrasco.

- Entre. - uma voz grave e monocórdica ressoou desde dentro.

O homem que o aguardava impaciente à sua frente era velho e corpulento, mas deveras refinado. Sua requintada sala ajudava a aumentar sua pompa, dados os luxuosos ornamentos, como os quadros cubistas nas paredes e a tapeçaria persa ao chão. Recostado em sua poltrona, o aparatoso Sr. Oliveira observava consternado a aproximação de seu convidado. Não parecia ter notado as roupas nada adequadas para seu característico gosto, nem ao menos se mostrou queixoso quanto ao atraso de Hugo.

- Sente-se por favor. - pediu, estendendo a mão em direção à uma poltrona próxima.

- Algum problema, senhor Oliveira? - perguntou, irresoluto.

- O que está acontecendo contigo, meu filho? - o corpo avantajado do diretor executivo do Diário Fluminense deixou seu confortável encosto e foi em direção à mesa procurar onde se apoiar com o inquieto cotovelo direito. - Por que não me conta? Saiba que não estou aqui como seu patrão, mas sim como seu amigo. - seu queixo logo aconchegou-se em sua mão erguida.

- Desculpe-me, mas não estou entendendo. - Hugo não conseguiu assimilar as preocupações de seu superior. - O senhor fala dos artigos atrasados? Eu tive alguns problemas na última semana; expliquei-lhe isso na última quinta-feira. Realmente sinto muito pelo erro. Prometo compensar na próxima rodada do estadual. - justificou, enquanto se esforçava para lembrar de algo mais que possa ter feito de errado. - Quanto as roupas...

- Não falo dos artigos, nem das roupas; falo de você. - interrompeu num tom de voz imponente e objetivo. - Chegando cada vez mais atrasado ao escritório. Desdenhando de suas responsabilidades. Sempre com esse olhar vazio e cansado. Parece que passou a noite inteira enchendo a cara. - seu corpo voltou ao conforto da poltrona de couro envelhecido. - Além do cigarro, temo que esteja usando algum outro tipo de droga. Não estou mais te reconhecendo, Hugo. Onde está aquele homem que uma vez chamei de genro? Aquele homem a quem um dia disse que poderia contar comigo para o quer que ele precisasse? A Isabela ter nos deixado não muda nada. Ainda me preocupo com você, considero-o um filho. Então, por favor, seja honesto comigo. - sua voz tornara-se surpreendentemente afetuosa.

- Senhor Oliveira, eu sei que tenho deixado a desejar em alguns aspectos do meu trabalho, mas isso é algo temporário. Não passa de uma fase. - Hugo se esforçava para criar essa ilusão de bem-estar para si mesmo. Preferia não ter que encarar a realidade. - A morte da Isabela realmente foi um momento difícil na minha vida, mas estou dando o meu melhor para conviver com isso. - estremeceu. - O meu melhor.

- Há dois anos que ouço isso, Hugo. Há dois longos anos! - uma veia pulsou no pescoço de Oliveira; sua insatisfação com a resposta de Hugo era visível. - E ultimamente você tem piorado numa velocidade que... Deus! Você precisa superar isso! - exclamou, indignado. - Darei-te férias. - disse, após uma pequena pausa para retomada de fôlego.

- Férias? Senhor, eu preciso trabalhar! - não acreditava no que acabara de ouvir. - Esse emprego é minha vida. Sinto-me bem quando estou aqui. Com os outros. No escritório! Desculpe-me, mas... Não posso aceitar isso.

- Não estou pedindo sua opinião, Hugo. - esclareceu, erguendo a cabeça e gesticulando negativamente. - Você terá férias, querendo ou não. Caso contrário, sinta-se livre para pegar suas coisas e passar no RH. - ameaçou.

- Mas isso... - ponderou, desiludido.

- Tenho uma pequena propriedade num local tranquilo e isolado. Um pacato e quieto bairro em São Gonçalo. Será perfeito para você. Vá para lá e descanse, certo? - sua fisionomia revelou-se mais compassiva. - Tente também se divertir um pouco, criar algum hobbie, conhecer pessoas, não sei... Só saia desse poço no qual se enfiou. Ah, e mantenha-se longe do álcool. Estamos entendidos? Faço isso por que me preocupo, Hugo. - recordou-lhe.

- Farei como o senhor desejar. - concordou, diante da impossibilidade de seguir um caminho alternativo.

- Vá. - ordenou, gesticulando para que saísse de sua sala. - Marta lhe passará os detalhes.

Ao sair de lá, ele prontamente procurou uma parede distante dos olhos perseguidores e inclinou-se contra ela. Precisava de um tempo para refletir, pensar sobre a vida que estava levando. Hugo sabia que o pai de sua falecida esposa nutria um imenso apreço por ele e que havia razão em sua admoestação, mas, por motivos que nem mesmo sabia explicar, preferia manter suas próprias convicções insensatas. O único contraponto era que agora não tinha escolha; precisava seguir a vontade de Oliveira ou seria finalmente demitido. Diante disso, foi em direção à recepção enfrentar seu destino.

- Anime-se, Hugo. Isso é para o seu bem. - suplicou Marta, segurando-lhe a mão com ternura.

- Como vão as crianças? - perguntou, tentando desvencilhar-se do assunto e das mãos inconvenientes.

- Vão muito bem. Obrigada por perguntar. - respondeu, decepcionada com a atitude de Hugo. - Filipe está indo muito bem em seu curso de pedagogia. Fechou o semestre como primeiro da turma, acredita? Quem diria que aquele molequinho travesso se tornaria um jovem tão dedicado e estudioso. Lembro como se fosse ontem das vezes em que ele fingia ir para escola, mas na realidade ia jogar futebol com os amigos no campinho. É até irônico ele ter escolhido cursar justo pedagogia, não acha? - seus olhos brilhavam de orgulho. Hugo sabia que os filhos eram o ponto fraco dela, então usou isso como forma de desviar sua atenção.

- Com toda certeza. E Sara? Como anda minha menina? - insistiu no assunto, demonstrando cínico interesse.

- Decidiu que quer ter aulas de oboé. Eu nem sequer fazia ideia do que era um oboé. - respondeu, toda sorridente.

- Oboé? Ela nunca muda. - esboçou uma risada que mais parecia uma cacarejo. - Sempre com ideias malucas na cabeça.

- Acho que eu sei o que está acontecendo aqui. - erguendo a cabeça com um ar ofendido, Marta demonstrou ter percebido a dissimulação na fala de Hugo. - Você está sendo evasivo.

- Culpado. - admitiu, exibindo um sonso sorriso.

- Eis as chaves do sítio. O endereço está aqui nesse papel. - disse, séria, estendendo os itens até as mãos suadas de seu embuçado colega. - Parece que o nome do lugar é Jardim Bom Retiro. Bastante sugestivo, se me permite dizer. Ouvi dizer que é um lugar ótimo para relaxar; é longe de tudo e de todos. Nada da barulheira da cidade grande. - acrescentou, falando mecanicamente.

- Por quanto tempo terei de ficar no ócio? - questionou, imerso em suas verdadeiras emoções.

- Não fale assim. Ninguém diz, mas todos aqui estão preocupados contigo. - confessou. - Sejamos sinceros: Hugo, seu estado é lastimável.

- Disseram-me isso algumas vezes hoje. - sua irritação foi tornando-se mais evidente.

- E com razão. - afirmou, duramente. - São trinta dias de férias. - disse, enfatizando a última palavra. - Aproveite bem. Queria eu ter uma oportunidade dessas.

- Pode deixar. - disse, com a língua salpicada de descaso.

- Oh, já ia me esquecendo! Aqui está uma pequena lembrancinha, em nome de todo escritório. - o sorriso voltou ao rosto sardento de Marta.

- O que é? - inquiriu.

- Abra e descubra.

- Uma câmera? - perguntou, estupefato, após abrir e verificar a embalagem contendo uma EOS Rebel novinha.

- Sim, uma câmera. - ratificou. - Lembro-me que adorava tirar fotografias. Talvez deva voltar com seu antigo hobbie.

- Fazia isso a trabalho, não por hobbie. - esclareceu. - Pus a câmera de lado no momento em que dar cliques deixou de ser o bastante para ter uma vida, no mínimo, confortável. Isso é uma atividade do passado, sendo assim deve permanecer no passado.

- Não tente me enganar. - seus olhos verdes arderam intensos por de trás das lentes. - Você podia não ser tão bem sucedido como fotógrafo, mas realmente gostava daquilo. Clicar era a sua vida. Investigar era sua essência. "Correr atrás da notícia", não era assim que você descrevia? Isabela amava isso. Você só não quer trazer as lembranças à tona. - sua fala não parecia causar efeito em Hugo, até que mencionou a finada.

- Talvez. - franziu o cenho e inspirou ar suficiente para que seu peito estufasse contra a camisa, acabando por desabotoar-lhe a gola.

- Aceite o presente. Por ela. - Marta se esforçou para ser o mais empática possível.

- Obrigado, Marta. - agradeceu, dessa vez com um sorriso sincero no rosto.

- Tenha uma boa viagem. - anelou, precupada com seu imprudente amigo.

- "Anime-se, Hugo"."Tenha uma boa viagem".- desejou a si mesmo, em pensamento, repetindo as aprazíveis palavras de Marta.

Dando um último e melancólico suspiro, Hugo saiu pela mesma porta que chegara, atraindo para si todos os olhares auspiciosos daqueles homens e mulheres no escritório de jornalismo do Diário Fluminense.

sábado, 3 de setembro de 2016

Voz do Conclave: Produção Agrícola, 4275 d.A.

A safra da produção agrícola de Havenholm em agosto de 4275 apresentou uma queda em sete dos oito grupos de produtos pesquisados pelo Alto Conclave Arcano, sob ordens diretas de Vossa Majestade, rei Phillipe Balerion.

A comparação foi em relação ao mesmo mês de 4274. Apresentaram diminuição de tonelada a produção de cevada (-48%), trigo (-35,6%), aveia (-25,2%), centeio (-14,2%), uva (-9,4%), batata (-8,7%) e nabo (-5,8%). Somente houve aumento de tonelada na produção de cenouras, embora pouco significativo (+2,3%) - era esperado um aumento de, no mínimo, 20%.

O levantamento do Alto Conclave tem informações mensais sobre previsão e acompanhamento de safras agrícolas, com estimativas de produção, rendimento médio e áreas plantadas e colhidas.

Mesmo com a maior queda, a cevada ainda é o produto com a maior colheita. Em junho, segundo o Alto Conclave, foram produzidas 32 mil toneladas.

Trigo, com 14,2 mil, e aveia, com 9,5 mil, completam as três maiores produções.

Sobre a área plantada, o Alto Conclave revela que o maior crescimento foi registrado para a abóbora, com aumento de 23%. Na contramão, o morango diminuiu bruscamente a área plantada, com uma queda de 72%.

O Alto Conclave explica que a tensão política envolvendo o reino de Midreth afeta gravemente o comércio das safras. Desde a ascensão de Vossa Majestade, rei Taran Balerion, o comércio pelas rotas extra-planares teve uma queda de 612%, em relação ao ano que antecedera sua coroação.

Questionado sobre o declínio nas atividades agrícolas e comerciais, Vossa Eminência, Karl Pouir, o porta-voz do Alto Conclave Arcano, disse ter esperança na resolução pacífica do conflito, além de ter fé que a Taça do Alabastro, no próximo ano, possa animar os mercadores. Quando perguntado sobre a consanguinidade do rei Phillipe para com o governante de Midreth, lorde Pouir disse não estar autorizado a discorrer sobre o assunto.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Bushido 6: Capítulo 3

CAPÍTULO 3
Olhos Famintos

- Não acredito que nos mandaram para tal fim de mundo, Enishi. Eles nos prometeram riquezas e glória caso os servissemos. Ousaram mencionar que um "novo bushido" surgiria com a ascensão de Grapha. - resmungou, terminando seu saquê com um único gole. - Somos a elite, Enishi. A elite! O que alguém do nosso nível está fazendo aqui em Kagawa? Podiam ao menos ter nos enviado para Tóquio, talvez Chiba. Mas, ao invés disso, mandaram-nos para esse tormento. E o pior de tudo é a função ridícula que nos atribuiram: coletores de impostos. Eu não mereço tamanha humilhação. - completou, chocando o masu violentamente contra a pequena mesa de madeira.

- É um trabalho importante, Hiroito. - disse Enishi, enquanto apreciava o doce sabor de seu amazake. Ele não parecia se importar muito com as palavras de seu companheiro, visivelmente alterado pelo álcool. - Acalme-se. Estamos em uma estalagem familiar.

- Sabe a revolta em Ishikawa? Era lá onde deveríamos estar. Decapitando sacos de carne. Não me recordo a última vez em que tive uma boa luta. Há meses que minha katana só vê camponeses insubmissos e bandidos de estrada. Quero ação, Enishi. Dê-me um bom desafio e ficarei calmo como uma brisa.

- Irá ter muita ação amanhã. Há trabalho a ser feito em Kita. - ele não disfarçou o sorriso.

- Você acha isso engraçado? - perguntou, em um tom mais alto, enquanto fazia sinal para que servissem-lhe mais saquê. - Nós só vamos rodar aquele lugar coletando moedas. Se a minha lâmina precisar ser sacada, certamente será para o seppuku.

- Apreciaria assistir. - desdenhou Enishi.

- Ora, seu... - esbravejou, levantando-se e sacando sua katana contra seu calmo parceiro. - Talvez você queira me dar a luta que preciso. - desafiou, fitando-o por alguns instantes; tudo sob os olhares espantados dos pescadores que bebiam ao fundo.

- Senhores, por favor não lutem dentro da estalagem. Estão assustando os clientes. - disse a franzina atendente, aproximando-se com o corpo trêmulo. - Meu pai sempre paga os impostos em dia. Imploro que tenham um pouco de consideração.

- Não haverá uma luta. - disse Enishi, com um olhar impassível que penetrava as órbitas de Hiroito. - Você está bêbado, não tem controle sobre seus atos. Menina, traga-me mais amazake e algo para comer, por gentileza.

Enishi havia sido um homem bom por toda sua vida, além de um fiel guerreiro à serviço de sua pátria. Era um pai atencioso e um marido amável. Sua moral era inquestionável. Com a invasão do império, jurou manter sua montante a serviço da casa Igarashi, não importando o rumo que a guerra tomasse. Nunca sequer passou por sua cabeça tornar-se um servidor dite. Porém, diante da derrota e de um posterior impasse, teve de abrir mão de suas crenças. Suas habilidades extraordinárias chamaram a atenção dos invasores que, por sua vez, propuseram que ele se voluntariasse para alguns "experimentos", em troca da vida de seus familiares. Isso transformou Enishi. O homem bom e sensível foi tornando-se cada vez mais rude, sofrendo frequentes espamos de violência. Sua destacada cortesia, transformou-se progressivamente num medonho jeito de agir. Seus olhos tornaram-se negros e profundos, passando a transmitir uma sensação gélida a quem os encarasse, além de um tenebroso frio na espinha. Sua habitual expressão de quietude dava lugar para um sorriso diabólico sempre que se irritava ou via-se diante de uma batalha.

- Posso estar bêbado, mas ainda tenho mais controle sobre meu corpo do que você tem sobre o seu. - disse, em tom consternado, enquanto embainhava sua katana e sentava-se novamente. - O que fizeram com você, meu amigo? - o saquê agora descia insípido por sua garganta. - Esse olhar distante... É como o de alguém cuja alma fora arrancada de seu corpo.

- Toda vida tem um preço. - respondeu, suspirando a fim de se acalmar. - A da minha família foi paga com sangue.

- É impressionante o fato de você estar sempre prestes a explodir. Dia após dia sinto que minha real função aqui é te manter consciente. O surgimento desse seu olhar sinistro demarca o ponto onde devo começar a me preocupar. A cicatriz em meu peito é o preço que eu paguei por ter falhado uma vez contigo. - ponderou, de cabeça baixa, enquanto punha uma das mãos sobre o peito, coberto por uma cota de malha. - Está cada vez mais frequente. Pergunto-me o quanto sobrou do Enishi que conheci anos atrás. Vejo que uma morte sem honra me aguarda.

- Daqui à três meses tenho de ir até Fukushima. Segundo Lucent, será a última sessão do processo.

- Você irá? - perguntou Hiroito, bebendo a dose de saquê num único gole.

- Não tenho escolha: eles têm Kaori e Haruo sob vigilância. Caso eu me recuse a colaborar, nada além da morte os aguarda. - respondeu, franzindo o cenho.

- Tem de haver um jeito. - o saquê de Hiroito passou a desaparecer cada vez mais rapidamente de seu masu.

- Não há. Minha família vive e eu me torno um... - Enishi não terminou a frase. Virou o rosto com um olhar tenso e pôs-se a pensar.

- Um...? - inquiriu. - Tudo bem se não quiser me falar, mas saiba que minha vida pode estar em jogo aqui. - alegou, após ver que ele não responderia a pergunta.

- Seu amazake, senhor. Para comer, trouxe sanuki udon: uma especialidade da região. O caldo dashi foi feito com alga konbu, lascas de peixe seco e cogumelo shiitake. - cantarolou a jovem, enquanto arrumava tudo delicadamente na mesa. - Esperamos que goste, senhor.

- Preciso de mais saquê. - balbuciou Hiroito, já sentindo os efeitos do excesso de álcool no corpo. - Ande logo, vá buscar.

- Você é insuportavelmente irritante quando está bêbado. - protestou Enishi.

- E você é um demônio doentio, sedento pelo meu sangue. Se eu não estiver alcoolizado, enlouqueço.

-  É justo. - consentiu.

- Que tal um assunto mais interessante para acompanhar a refeição? - propôs, esvaziando o resto de saquê da pequena garrafa. - O que sabe sobre Ishikawa? Diga-me. Não faz muito tempo que esteve com o coronel Lucent. Sei que trouxe informações sobre a rebelião consigo.

- Negativo. Não possuo informações. - respondeu com aspereza.

- Não minta pra mim, Enishi. Eu conheço você, sei quando está mentindo. Além do mais, aquela parada em Gifu para supostamente "entregar relatórios ao governador" não me convenceu nem um pouco. Sei que há algo em andamento. - insistiu. Hiroito estava enfadado com sua atual situação, por isso procurava meios para envolver-se em algo maior.

- Sabe que não posso te dar essas informações. São altamente confidenciais. Beba seu saquê. - argumentou, enquanto observava a menina voltando com mais uma garrafa.

- Seu saquê, senhor. Como está o udon? - perguntou.

- Ele adorou. Agora saia. - Hiroito não estava nada contente com a interrupção. - Vamos, saia logo. É surda?

- Não era pra tanto. Essa será sua última garrafa por hoje. Já bebeu demais. - murmurou, mergulhando o hashi na sopa.

- Olhe para isso, Enishi. Olhe bem. - solicitou, com uma expressão de pesar em seu semblante, enquanto despia-se de sua cota de malha e de sua túnica, deixando a grande e profunda cicatriz em seu peito à mostra. - Vivo minha vida por você. Luto por você. Quase morri, por você. Acho que mereço um pouco de confiança. Parceiro. - asseverou, deixando bem claro o débito de Enishi para com ele.

- O filho do antigo imperador Kazuki lidera a rebelião. Shien é seu nome. - sussurou. - Há algo grande em andamento, para que seja dado um fim definitivo às revoltas. O general Gren orquestrou pessoalmente o plano.

- O que aquele velho tem em mente para o indômito principezinho? - questionou Hiroito, com um sorriso cheio de dentes no rosto.

- Não sei os detalhes mais específicos, mas o serviço secreto está envolvido.

- O serviço secreto? - abismou-se. - Você quer dizer... Os ninjas?

- Exatamente. E seja lá o que for acontecer, não irá demorar.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

O Cavaleiro Vingador: Velhos Fantasmas #1

O ambiente estava estranhamente escuro. A névoa, mais densa que de costume. A chuva caía no rosto de Ledier, que estava caído numa poça de lama e sangue. Seu olhar fitava o firmamento, contemplando as gotas que vinham de encontro a seu rosto. A chuva, chocando-se contra a armadura, produzia sons ritmados que se confundiam com os gritos que ecoavam pelo lugar. Ledier já havia se acostumado com aquilo, os gemidos e as súplicas não lhe incomodavam. Seu corpo emanava uma forte energia, que o fazia reluzir como uma tocha dentro daquela armadura, feita de um metal anômalo de cor dourada. Ela possuía detalhes brancos nas bordas, três espinhos pontiagudos nas manoplas e ostentava o símbolo de um sol na região do peitoral - Ledier sempre brincava sobre como Pelor tinha bom gosto para equipamento militar.  Além, da pomposa armadura, ele também portava um martelo bastante peculiar consigo: um que era envolto por uma forte corrente elétrica e disparava raios - no maior estilo "deus do trovão". Mas aquele martelo não estava mais em suas mãos. Onde estava? A resposta é simples: enterrado no que há poucos minutos atrás era o crânio de um bruxo. Um bruxo? Sim, e do tipo bem difícil de matar. Ledier havia lutado contra ele durante muito tempo, restando-lhe agora somente as forças necessárias para encarar o que estava bem diante dos seus olhos. Já não sentia suas pernas ou braços, somente o gosto de sangue em sua língua. Muito aconteceu para que Ledier chegasse àquele estado, então, para que entendamos bem, precisamos voltar alguns anos no tempo...

Os primeiros raios de sol já eram vistos acima da grande muralha de Galbatroh. Ledier já estava de pé; acordara cedo, em preparação para a viagem até Holly Gate Valley, onde compraria matéria-prima para a ferraria - o estoque de Alvor estava chegando ao fim num momento crítico: precisava trabalhar numa grande encomenda para o exército real. O velho ferreiro já não tinha o vigor de antes, quando ia e vinha carregando bigornas como se fossem sacos de plumas; seu corpo cansado não suportaria uma viagem tão longa. Holy Gate Valley, uma cidade de mineradores estranhamente civilizados, situava-se nove luas ao oeste. O lugar era reconhecido por todo o continente como sendo a fonte dos melhores metais, dado o alto teor de mineral de minério nas jazidas. A mineração atraía mercadores, que tornavam o lugar uma importante rota comercial - abastecendo o lugar com vinhos e seda da mais alta qualidade. Era um lugar próspero e vivo; um refúgio para sonhadores menos afortunados.

Ledier atrelou seu cavalo, guardando sua espada e seu escudo ao lado direito do belo  corcel negro - muito semelhante ao de seu pai -; no  lado esquerdo, um cantil com água e algumas  provisões acharam um local onde se esconder.

- Lembro-me de quando você e seu irmão  chegaram aqui: tão quietos e acuados, com aquele olhar assustado. Foi um verdadeiro desafio conquistar a confiança dos dois. Especialmente a sua. - disse Alvor, com um olhar repleto de saudosismo, enquanto  observava Ledier acertando os últimos detalhes antes da partida.

- Está nostálgico hoje, Alvor. O que aconteceu? Andou bebendo?  Não reclame se a úlcera atacar. - gracejou Ledier.

O velho então deu uma ruidosa gargalhada, entregando a Ledier uma bolsa com um pouco de tabaco e uma pequena garrafa de cerveja  preta - Alvor sabia que ele não resistia àquela combinação.

- Ah, venha cá, meu filho! - exclamou Alvor, partindo para um forte abraço em Ledier.

- Cuide-se, Alvor. Volto dentro de alguns dias. - disse, sentindo uma estranha sensação de preocupação em seu peito. Achou que não devia ser nada demais, somente sua imaginação pregando-lhe peças, então ignorou aquele sentimento. - Espero encontrar o estoque de vinho intacto quando voltar de Holy Gate. - disse, dando um último abraço em Alvor. Sem olhar para trás, subiu em seu cavalo e deu uma firme sacudida nas rédeas, pondo-o a marchar.

Ledier cavalgou pelas largas ruas de Galbatroh, enquanto ouvia o ressonante som dos cascos do cavalo colidindo contra a estrada, pavimentada com  pedras. Ele sentiu algo estranho aquele dia, como se algo estivesse fora do normal. Não sabia explicar exatamente o que era, mas parecia como um mal presságio, esgueirando-se em volta dele. Não tendo conseguido atribuir alguma lógica àquilo, preferiu mais uma vez ignorar. Chegando à praça central, viu uma confusão ocorrendo próxima a uma barraca: dois mercadores engalfinhavam-se para decidir quem ficaria com o local mais privilegiado na feira. Enquanto isso, quatro homens, de aparência bastante distinta, transformavam a procura por uma taberna numa balbúrdia, abordando agressivamente os espectadores. Um quinto aproveitava-se da situação para, furtivamente, saquear os pertences dos mercadores arruaceiros - Ledier notou que somente ele havia percebido isso.

Sem esperar pelo desfecho da confusão, ele seguiu em direção ao portão principal, sentindo o delicado toque do vento frio de inverno em seu rosto. Saindo de Galbatroh, olhou para trás e, por alguns segundos, contemplou a magnífica muralha, que fora construída eras atrás, mas permanecia sólida e inabalável - aquele era, sem sombra de dúvida, o maior símbolo da glória do reino. Diante daquela visão, lembrou-se dos tempos em que era somente uma simples criança, quando sonhava em ser um grande soldado, assim como seu pai fora antes dele. Entretanto, Ledier não suportava receber ordens. Ele tinha plena consciência que nunca poderia ser um soldado tendo uma mente tão arredia, mas não se incomodava. Incitando um galope, rapidamente afastou-se da cidade, levantando assim uma nuvem de poeira, que se dispersou no vento da mesma maneira brusca na qual seus sonhos se dispersaram no momento em que seus pais foram mortos.

Ledier viajou durante todo o dia, ora em ritmo apressado, ora em lentas marchas, a fim de não forçar seu cavalo excessivamente. O pôr do sol já estava próximo, quando percebera que estava a poucas léguas de Elnos, um reino élfico vizinho. Não era nada comum elfos receberem  visitantes, mas Ledier incluía-se numa seleta lista de pessoas bem-vindas. Após a guerra, os elfos da floresta de Elnos reforçaram a segurança em suas fronteiras, limitaram a passagem de estrangeiros e cortaram muitas de suas relações diplomáticas. Qualquer intruso que ousasse entrar na floresta sem ter uma autorização formal, corria sério risco de ser vítima de uma flecha perdida. Sendo uma notória exceção à regra, os representantes da casa Domeni eram sempre considerados convidados de honra, dada a eterna gratidão do povo élfico para com Frostborn, pai de Ledier.

A noite, perigosa e traiçoeira, escondia muitas feras, ladrões e outros perigos. Ledier conhecia  aquelas planícies como a palma de sua mão, então tinha plena ciência de que deveria procurar um abrigo seguro, antes que a escuridão tomasse conta do lugar. Apressando a cavalgada, ele, após alguns minutos, viu ao longe um grupo de cerca de oito agitados homens à beira da estrada. Diminuindo o ritmo, decidiu aproximar-se para averiguar o que estava acontecendo. Quando chegou à uma distância satisfatória, percebeu que havia um homem caído ao chão, agonizando conforme era surrado pelos oito covardes de pé.

- Pelas barbas do profeta! Vocês não tem vergonha? Precisam de oito homens para bater em um único homem, que por sinal está desarmado? - disse Ledier, ainda em seu cavalo. - Parem já com essa covardia.

- Vá embora, forasteiro. Mas isso caso não queira ser o próximo. - aconselhou um dos homens, dando logo uma cusparada no rapaz moribundo ao chão.

- Irei avisar uma única vez: parem de atormentar esse pobre coitado e vão embora, antes que eu perca o pouco de paciência que ainda me resta e resolva dar um chute nas bundas de cada um dos senhores. - o tom de Ledier ao falar era de bastante autoridade e confiança.

Os bandidos, irritados com a ameaça, pararam  de bater no rapaz magricela e voltaram toda sua atenção para Ledier. Um deles, munido com uma adaga, correu em direção ao despreocupado cavaleiro, na tentativa de cortá-lo. Saltando rapidamente de seu corcel, ele correu em direção ao agressor e, quando este já estava próximo, inclinou-se para assim desviar de sua investida. Tendo ele passado por Ledier, este o pegou pelo braço e aplicou-lhe um golpe violento em suas costas, claramente quebrando-lhe alguns ossículos e derrubando-o ao chão. Vendo isso, dois bandidos sacaram suas espadas e tomaram a frente numa segunda onda de violência. Ledier, num claro ato de desdém, partiu pra cima deles com as mãos nuas. Num corte horizontal, um dos bandidos tentou cortar seu peito, mas ele abaixou-se destramente, aproveitando então para aplicar uma oportuna rasteira no segundo homem. Caindo e deixando sua espada escapar de suas mãos, o homem atingido rastejou de encontro a sua espada, enquanto seu companheiro tentava devolver o chute de Ledier. Este, num movimento decisivo, conteve o chute usando seu antebraço esquerdo e levantou furiosamente para dar-lhe um soco no queixo, fazendo com que alguns dentes escapassem de sua boca agora ensanguentada.

- Se você colocar esses aí embaixo do travesseiro, talvez a fada dos dentes lhe dê algumas moedas. - zombou Ledier, enquanto ia direção ao outro homem, aplicando-lhe em seguida um chute entre as pernas. - Eu avisei.

- Piedade! - suplicou, aos prantos, o bandido que antes empunhara uma adaga.

- "Piedade!" - imitou, enquanto lhe dava um chute entre as pernas, assim como fizera com o outro.

- Ouch! - gemeu.

- Vocês ouviram isso? Ele disse: "ouch"! - caçoou Ledier, dando um chute de misericórdia no bandido com a boca ensanguentada, que tentava levantar-se. - Você fica quietinho aí.

Àquela altura, quatro dos homens já haviam fugido correndo, restando apenas um "intrépido" patife, que urinava de medo.

- Não se aproxime! Estou dizendo: não se aproxime! Dê um único passo e eu te ataco. - gritou, com a trêmula espada em punho.

- Vamos ver o quão bom espadachim você é. - disse Ledier, sem medo, enquanto sacava sua espada.

Vendo o reflexo escarlate do sol poente na espada dele, o bandido começou a recuar assustado, logo tropeçando em uma pedra e caindo de costas no chão.

- Levante-se de uma vez e vá embora, antes que eu mude de ideia.

Ouvindo aquilo, ele não perdeu tempo; levantou e saiu correndo em disparada, deixando tudo que tinha para trás. Vendo que agora já não havia perigo - os três que ficaram, ou estavam desacordados ou doloridos de mais para levantar -, Ledier aproximou-se do rapaz violentado.

- Acha que pode se levantar? - perguntou.

- Acho que sim... - respondeu, com dificuldade, enquanto esforçava-se para sair do chão.

- Hmm, excelente. Vejo então que pode seguir viagem! - exclamou Domeni, virando as costas e voltando para seu cavalo.

- O senhor vai me deixar aqui? - era claro o tom assustado do agora agachado rapaz. - E se eles voltarem? O que faço?

- "E se eles voltarem?", você pergunta. Eles não  vão voltar, disso tenho certeza. Porém, mesmo que por algum motivo resolvam fazer isso, já não é mais da minha conta o que acontece. Dê seu jeito. - disse, dando comando para seu cavalo seguir viagem.

- Foi incrível a forma como lidou com aqueles homens! - elogiou-o, numa tentativa frustrada de tentar convencer Ledier atacando seu ego. -  Onde aprendeu a lutar daquele jeito tão magnífico? O nobre cavaleiro poderia me ensinar... Eu aprendo rápido. Eu também seria um escudeiro bastante útil, juro. Posso polir sua armadura, cuidar do cavalo, ajudar com a guarda... - insistiu, perseguindo com andar manco os passos do cavalo.

- Está claro agora o motivo de ter apanhado: você fala demais. - disse Ledier, já cansado de ouvir a voz dele.

- Não, meu senhor. Eu apanhava pois devia algumas moedas ao senhor Morrice, de Galbatroh. - explicou, envergonhado. - Conhece o grandioso reino de Galbatroh?

- Sim, inclusive venho de lá. Não acha que está muito distante da cidade? - questionou, enquanto levava à boca um cantil com água, a fim de provocar seu certamente sedento perseguidor.

- Sim, de fato. Eu fugi de lá assim que soube que  o senhor Morrice havia contratado aqueles homens para darem cabo de minha vida, porém em vão. Eles logo me acharam. Se o senhor não tivesse aparecido, certamente estaria morto. Sou eternamente grato ao senhor e a Pelor, por terem misericórdia de um sujeito como eu. Devo-lhe minha vida, nobre cavaleiro. Se tiver alguma coisa que eu possa fazer para lhe agradecer, por favor não hesite em pedir. - disse, em reverência.

- Silêncio já me é suficiente. É muito complicado pensar com você falando desse jeito. É noite e eu ainda estou na estrada e isso por sua causa. Somente sua vida não é suficiente para pagar o que me deve. - Ledier analisava atentamente o horizonte, certificando-se de estar alerta à qualquer ameaça.

- Quer dizer que o senhor então vai me deixar  acompanha-lo? Digo, para pagar toda a dívida. - disse, com um sorriso tão grande no rosto que não parecia ter acabado de ser linchado.

-  Não, não e não! - bradou Ledier, perdendo a paciência. -  Em nenhum momento eu disse  isso. Agora me escute com muita atenção: cale essa boca agora e pare de me seguir, caso contrário desço desse cavalo e termino o que aqueles bandidos começaram. - completou, dando um berro ao cavalo, fazendo-o partir em disparada e deixando para o rapaz ferido nada além de uma nuvem espessa de poeira.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Considerações iniciais: Bushido 6

Olá. Boa tarde a todos os leitores do blog.

Hoje venho aqui trazer aos fãs de Bushido 6 alguns esclarecimentos sobre a história, a fim de situá-los no universo em que Shien e seus companheiros vivem.

Primeiramente, gostaria de deixar claro que a história é uma fanfiction (também chamada de fanfic, ou simplesmente fic, conforme achar preferível). Ela conta uma história baseada nos Six Samurai do card game Yu-Gi-Oh. Eles não possuem uma história oficial, então nada aqui está sendo copiado; a originalidade é o grande destaque de Bushido 6.

Outro ponto que gostaria de destacar é sobre a geografia do lugar onde acontecem os eventos. Como devem ter percebido, muitos lugares coincidem com pontos reais no Japão, mas não necessariamente estão localizados exatamente como no mundo real. Por exemplo, em nosso mundo, o Monte Tokashi está localizado na província de Hokkaido, no extremo norte do Japão; em Bushido 6, está localizado no que seria a província de Kagoshima, no extremo sul. Assim como Kyushu, a terceira maior ilha do Japão, não chega nem a ser uma ilha em Bushido 6. Então, não utilize os dados geográficos do Japão real como referência absoluta na hora de tentar mapear o universo de Bushido 6 - o nome do lugar onde acontece a história nem é "Japão", somente baseia-se nele.

Para finalizar, devo destacar que o mesmo ocorre com as noções políticas e culturais do antigo Japão feudal. Não trate como certo de acontecer algo em Bushido 6 somente por ter conhecimento que se fosse no mundo real aconteceria daquela forma.

Abra sua mente ao ler Bushido 6.

Atenciosamente,
Andrew Ferreira.

Bushido 6: Capítulo 2

CAPÍTULO 2
Silêncio

A província de Ishikawa nunca antes esteve tão agitada. Homens e mulheres corriam incessantemente por todo o canto; ora transportando equipamentos, ora ajudando com os preparativos para o cerco. Não importando o motivo, a única coisa que os movia era o desejo de ter sua liberdade de volta. Invadiram, sem hesitar, o arsenal da província, aprisionaram os guardas e saquearam todo equipamento que encontraram, a fim de aproximar-se do nível inimigo. Os antigos samurais, os que não haviam morrido em batalha ou realizado o seppuku, viam na oportunidade de uma batalha - que tinha como prêmio a derrota eminente - a chance de morrerem com honra. Eles eram homens orgulhosos e habilidosos, portanto, mesmo com o sonho de recuperar a honra tão próximo, não pretendiam morrer sem uma luta feroz - a certeza da morte tornava-os mais eficientes. Shien estava entre esses homens, não só entre eles mas no comando deles.

Shien sabia que seria difícil conseguir lidar com o exército dite, mas esperava com isso inflamar o sentimento de revolta nos cidadãos. Tudo parecia estar de acordo com o previsto, exceto por um impertinente detalhe: eles haviam tomado o prédio pilar, assassinado o governador, assaltado o arsenal e feito reféns - claros atos de guerrilha. Então por que, mesmo após duas semanas de ocupação, ainda não havia sequer sinal de uma represália por parte do governo? Isso incomodava Shien profundamente. Fora o tumulto típico de um local em constante exercício militar, a calmaria era aterrorizante. As repressões eram sempre severas e rapidamente executadas, então, quando ocorreu de não haver uma (possuindo o governo plena capacidade para tal), o suspense instaurou-se. A inquietação crescente com a falta de resposta assustava os menos corajosos, que temiam um genocídio.

- Senhor, o batedor retornou. - disse Shinai, aproximando-se com um olhar desesperançoso.

- Diga de uma vez: alguma notícia importante? - perguntou Shien, enquanto analisava alguns mapas em seu escritório.

- Não, meu senhor. Absolutamente nada. As rotas de comércio permanecem inalteradas, os quartéis de Toyama e Fukui permanecem sem movimentações - nem mesmo defensivas. É como se ignorassem nossa causa. - disse, transparecendo desassossego.

- Dê a ordem para triplicar o número de batedores em campo. Envie espiões às províncias de Nagano e Gifu. Intensifique as rondas e as defesas na fronteira; disponibilizarei dois mil guerreiros. - instruiu Shien, encarando friamente a representação de Hokkaido no mapa. - O que está planejando, Grapha? Nós dois sabemos que você tem algo em mente. - pensou.

- Mais alguma ordem, senhor? - perguntou Shinai, interrompendo a reflexão de Shien.

- Não, Shinai. Obrigado. - disse, sem tirar os olhos do mapa. - Já pode se retirar.

- Então, se me permite. - respondeu, em reverência.

O dia, depois daquilo, arrastou-se preguiçosamente. No quarto do então falecido governador da província, Shien repousava sobre a luxuosa cama e, afligido pela insônia, meditava sobre tudo que estava ocorrendo - fizera questão de dormir justamente no quarto do finado, a fim de representar a tomada de poder. Percorrendo os olhos pelo lugar, deparou-se com sua espada, esquecida sobre uma escrivaninha. Ela tinha sido dada como um presente por seu pai, quando completara oito anos de idade. À época grande demais para o franzino rapaz, hoje servia-lhe como um instrumento indispensável - tanto para a batalha, quanto para a memória.

Shien considerava-se um homem arrasado; consumido pela desgraça. Tudo o que lhe era mais precioso fora tomado. Sua família, sua vida, seus sonhos. A lembrança de seu pai, morto cruelmente, revirava-lhe o estômago; queria poder ter tido a chance de se desculpar por sua insolência. Sua irmã mais nova, Mizuho, estava aprisionada no palácio real dite, em Hokkaido; nas inescrupulosas mãos de Nicolei Grapha. Mizuho era uma mulher determinada, de pulso firme. Quando traçava algum objetivo, não havia homem, mulher ou calamidade capaz de fazê-la mudar de idéia - Mizuho tornava-se a própria calamidade, se necessário. Na Batalha de Kiyose, lá estava ela, no campo de batalha; lutando por sua nação. Kazuki focava sua atenção somente em Shien, não dando à Mizuho os cuidados que aquela doce menina necessitava - ela então cresceu rebelde. Apesar de, naquele fatídico dia, ele ter cumprido seu "papel de pai" - implorando para que ela não fosse à batalha -, já era tarde demais para tal demonstração de preocupação. Mizuho nunca acataria as ordens de seu ausente pai. Além do mais, mal sabia Kazuki, que Mizuho havia tornado-se uma exímia espadachim, bastante confidente em suas habilidades - especialista no uso de foices. Só que foi nesse dia também que os destinos dela e de Grapha se cruzaram. Foi lá, em meio à chacina e ao mar de sangue, que ele a viu, entre tantos outros, e apaixonou-se. Com isso, fez a proposta que salvou milhares de vidas civis: um acordo de paz em troca da mão da jovem princesa. 

Aquele fora um dia deveras exaustivo para Shien, então, sabendo dos malefícios da privação de sono, resolveu que seria melhor voltar todo o seu esforço às frustrantes tentativas de cair no sono - obtendo sucesso após alguns tortuosos minutos.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Hello, It's Me


         

- Posso ajudá-lo? - perguntou, cabisbaixa.

Léo estava especialmente empático diante daquela senhorita à sua frente. Não que fosse uma pessoa marcada pela intromissão na vida alheia, mas ele a havia observado por toda sua estadia na pequena cafeteira; tendo assim aprendido uma coisa ou outra, enquanto a via deixar-se afetar pela música ambiente. Ele podia ser só um qualquer, um desajeitado, mas era um "qualquer" do tipo observador. Sabe aquele jogo do "conte até 3 e vá até o crush"? Pois bem, ele era conhecido por sempre perder - vergonhosamente. Porém, de tanto jogar, adquiriu "habilidades". Nada que realmente o ajudasse com o "jogo", mas algo que talvez o ajudasse a ser humano.

Seu olhar era clínico e seu coração benevolente. Quantas vezes estendeu a mão - e a emoção - a alguém necessitado? Uma centena de vezes. Quantas vezes já havia consolado um amigo após perceber que ele não estava bem - mesmo que não demonstrasse? Já perdera a conta. Quantas vezes abraçou aquele parente, isolado no canto, que precisava muito de uma demonstração de afeto? Isso ele nem chegou a contar. Léo sabia que tinha um grande poder e também que, com esse grande poder, vinha uma grande responsabilidade - havia visto isso em algum filme, adotou logo para si. Todavia, ele nunca havia pensado nisso como algo realmente importante - pelo menos não até o dia de hoje.

- Cafeteria: envolvida pela melancolia de Adele, você deixou-se levar por suas palavras. Num ritmo tal, que pude perceber, através de seus pesares, que não simplesmente seguia sua voz compassadamente, mas ia e vinha nas declarações da arrependida "eu lírica": você fala inglês ou ao menos compreende suficientemente bem. Seu olhar cabisbaixo, querendo achar um fio de esperança ao qual se agarrar, era um sinal claro de que procurava o "tempo" no qual esqueceria - o que, pela forma como se deu, também indicava algo recente. As carícias que dava em sua própria mão direita, focando o dedo anelar, indicavam que certamente perdera seu noivo. Quando ela levantava o tom para declarar que ele "parecia nunca estar em casa", era claro o aumento no acúmulo de umidade ao redor de seus olhos. Creio eu que ele tenha falecido. Quando então ela cita que queria desculpar-se por partir-lhe o coração, pude notar uma pequena pausa na cadeia de reações condicionadas pela letra: vocês estavam bem, quando a tragédia ocorreu. Você levantou apressadamente dali no instante em que ela resolveu deixar claro que "não mais". - disse, docilmente, dando uma curta pausa para observar o pálido rosto dela e seu lacrimejante olhar. - Desculpe-me por invadir sua privacidade, mas não pude me conter. Você não está sozinha, nunca estará. O "tempo" que você procura pode nunca chegar, mas, no poema da sua vida, o "eu lírico" não precisa ater-se a tal forma de métrica. Disque outro número e alguém atenderá. - terminou, dando um sorriso sincero e afetuoso.

- Olá... Sou eu. - disse a jovem, em lágrimas, enquanto olhava para Léo com um triste sorriso em seu rosto.

- Olá. Eu posso te ouvir. - respondeu, abraçando-a fortemente.

Bushido 6: Capítulo 1

CAPÍTULO 1
Reacendendo a Chama

Já haviam se passado 18 anos desde a desastrosa Batalha de Kiyose, que determinou a queda do império e o fim da dinastia Igarashi. Mesmo sendo o mais condecorado e experiente general no extinto exército imperial, Kizan não pôde resistir ao poderoso exército de Nicolei Grapha. Foi obrigado a aceitar o cessar fogo e a assinar o "tratado de paz", que dava aos invasores o controle sobre todo o território. Há quem diga que a batalha foi decidida a favor do inimigo devido a um erro dele; um simples erro que, sozinho, abriu as portas para a vergonha. Porém, os bravos guerreiros que estavam lá naquele momento, no campo de batalha, sabem muito bem o que realmente aconteceu. Eles se lembram do momento em que, estando eles ganhando a batalha, aquela legião de soldados inimigos transformou-se numa horda demoníaca. Homens tornaram-se demônios, que então inverteram o rumo da batalha. Kizan viu-se impotente diante daquilo, tendo que render-se para salvar a vida do máximo possível de pessoas - o que logo se revelou um ato inútil, visto que os samurais não abaixaram suas lâminas, não fugiram da luta; morreram todos lutando por suas casas. Mas isso agora não passa de uma lembrança amarga. Hoje, isolado do mundo, ele busca meios para trazer de volta a glória que presenciara nos tempos de Kazuki.

- Kizan, senhor! - bradou Kageki, enquanto atravessava a porta do pequeno refúgio, de forma ofegante e ruidosa.

O lugar era pequeno, muito pequeno. Após tudo o que aconteceu, ele precisou recuar por sua vida. Engolindo seu orgulho e ignorando seu bushido, ele fugiu para longe de Kiyose, escondendo-se numa pequena casa nas montanhas da região de Odawara; mais especificamente na encosta do Monte Tokashi. O lugar era muito humilde. Quando chovia, não era incomum ter de lidar com infiltrações, além também do risco de tudo vir abaixo, que era bem real. Kizan não se importava; na realidade preferia morrer soterrado num casebre distante de todos, do que ser apontado mais uma vez como o precursor de tanta infelicidade. Seu corpo estremecia sempre que lembrava do único dia em que o grande general Kizan precisou se arrastar para salvar sua vida. O sentimento de revolta das pessoas seria violento caso ele, ao andar pela cidade, fosse reconhecido como o general que entregou a nação aos bárbaros. O caos reinaria absoluto. As pessoas sentem-se fracas e incapazes, então, culpar alguém pela disgraça de muitos torna-se uma espécie de conforto psicológico. É o bom e velho "bode expiatório".

- Kageki, já lhe disse inúmeras vezes para que não mais usasse honoríficos ao falar comigo. - disse Kizan, mantendo seu semblante calmo. - Eu não sou mais seu general, e você já não é mais meu subalterno. Aqui, sob esse teto, somos iguais.

- Desculpe-me, Kizan. - disse Kageki, aproveitando-se da interrupção para respirar fundo, recuperando assim seu fôlego.

- Não se desculpe, Kageki. O que aconteceu para estar tão afobado? - perguntou, curioso.

- Neste momento, está acontecendo uma grande revolta na província de Ishikawa. Os civis, com o apoio de alguns samurais, tomaram o prédio do governador, assassinando-o em seguida. Dizem que eles foram liderados por um samurai que trajava uma armadura vermelha, ostentando a chama do brasão Igarashi em seu peito. Seria essa uma insurreição orquestrada por algum sobrevivente da família imperial? Se for, quem seria esse samurai? Qual será a reação do governo central? Infelizmente, creio que em morte. As repressões a tais intentos são sempre severas e violentas. Entretanto, algo me intriga profundamente: eles conseguiram tomar o prédio pilar. Em todos esses anos, algo assim nunca antes havia acontecido. - explanou Kageki, em tom bastante reflexivo.

Kizan emudecera, ouvindo atentamente cada detalhe. As características daquela armadura lembraram-lhe das de Kazuki - a armadura vermelha simbolizava o poder do xogum. Há anos o imperador já morrera, mas seu filho e herdeiro, estava desaparecido. Seria o homem de armadura vermelha, Shien? Kizan conhecia-o desde pequeno, tendo especial apreço por ele, dada sua grande determinação e força de vontade. Ele enxergava em Shien algo que somente Kazuki também conseguia: o potencial para ser grande, o maior.

Só havia silêncio no lugar. Kageki, perdido em pensamentos, tentava decifrar o enigma. Não conseguia conceber a ideia de alguém se rebelando dessa forma. Quem seria tão corajoso, conhecendo as formas nada convencionais pelas quais o general do segundo batalhão do exército de Grapha, Patrício Cerulli, conseguia fazer as pessoas "colaborarem"? Kageki sabia que esses homens acabariam mortos, assim como todos os outros revoltosos ao longo dos anos, mas algo o fazia se interessar pela história. Talvez porquê, no fundo, sentia inveja deles. Inveja de sua coragem, pois, mesmo sabendo das terríveis consequências, eles ergueram suas espadas e entoaram o cântico de libertação daquele povo oprimido. Ou quem sabe, talvez havia sido somente o sol quente de verão, afetando seu privilegiado cérebro. Precisava da opinião de Kizan.
               
Kizan, assim como ele, estava perdido em pensamentos. Kageki sabia que seu amigo não se preocupava mais com algo tão supérfluo como a morte - para Kizan, sua vida já havia acabado no dia em que teve de fugir rastejando -, então, ir colaborar com aqueles "heróis" não estava fora de cogitação; mas, para isso, Kageki precisava de respostas. Se fosse para partir em busca delas, precisava do apoio de Kizan, pois, apesar de tão habilidoso e inteligente, Kageki não era uma pessoa reconhecida por seu ímpeto. Então resolveu, finalmente, interromper a reflexão de Kizan.

- Kizan! - exclamou, em voz mais alta do que de costume, pois estava um pouco nervoso.

- A armadura vermelha... O brasão Igarashi... Só consigo pensar em uma única pessoa que possa atender à tais características. Interessante... Creio que o pequeno menino tenha tornado-se um homem. - murmurou Kizan.

- Você sabe quem é o homem que está liderando a rebelião? - Kageki foi tomado de uma curiosidade sem precendentes; precisava saber.

- Sim, creio eu. - disse Kizan, enquanto andava em direção à janela, recordando-se do velho hábito de Shien. - A armadura vermelha do xogum. Ela era guardada no Salão Solar, lugar onde o pequeno filho do imperador adorava passar seu tempo. Aquela armadura passou de geração em geração na família Igarashi. Com a morte de Kazuki, ela pertence agora a Shien, por direito. Talvez o jovem rapaz tenha planos para reacender a outrora ardente chama Igarashi.
               
- Sim, sim... Faz sentido! - exclamou Kageki, com olhar eufórico.

Kageki logo encontrou as peças que faltavam em seu quebra-cabeça; tudo agora se encaixava. Ao tomar o trono, Grapha ordenou a seus demônios que executassem Kazuki em praça pública, para mostrar a todos sua autoridade e poder. Sua cabeça ficou lá, empalada numa estaca, até os corvos terminarem de dar conta da carne putrefata. Era mais do que claro para Kageki que, se Shien ainda estivesse vivo, o sentimento de ódio e de rancor pelo ato brutal de Grapha seria intenso no coração daquele filho.

- Estive pensando... - ponderou Kageki, sentindo uma forte necessidade de expor sua opinião. - Estamos aqui há muitos anos: sempre planejando, sempre arquitetando, sempre esperando. Quando tomaremos uma atitude real? Quando vingaremos nosso lar? Esquecemos nosso bushido há tempos; arrependo-me muito disso. Não temos honra; se Grapha é a escória, nós somos piores que a escória: nós fugimos, por medo. Shien, aquele menino, agora luta bravamente em Ishikawa, enquanto nos encolhemos aqui. Precisamos agir!

Kizan concordava totalmente com ele, com cada palavra do que dissera. Entretanto, para ele, tratava-se de algo muito maior que vingança: tratava-se de redenção. Mesmo tendo consciência de seus atos, ele se culpava pelo que ocorrera. Queria trazer justiça à memória de Kazuki, mas temia falhar novamente - a marca da derrota foi deveras muito profunda. Mas, aquele brilho nos olhos de Kageki, impediu-o de recusar o chamado. Lembrou-se dos olhos de Shien, incendiados pelo desejo de realizar seus sonhos. Kageki fora a única pessoa que restara ao seu lado. Ele era o único em quem confiava; era o único que sempre acreditou nele e que nunca o traira - para ele, essa era a definição mais perfeita e utópica de "amigo leal".

- Como faremos? - perguntou Kizan, para a alegria de Kageki.

Kageki era um bom homem. Excessivamente esperançoso, mas lhe faltava iniciativa. Aquelas duas palavrinhas que saíram da boca de Kizan serviram-lhe como um imenso alívio.

- Soube que eles estão preparando as defesas necessárias para aguentar até mesmo um cerco à província. - respondeu Kageki, disfarçando um pequeno sorriso. - Aquele garoto é realmente ousado. Ele realmente espera sustentar um cerco de demônios? Provavelmente irá demorar cerca de três semanas até que cheguemos lá. É bastante tempo, espero que consigamos a tempo.

- Entendo. - disse Kizan, enquanto caminhava em direção à uma empoeirada espada pendurada na parede. - Vamos iniciar os preparativos para a viagem agora mesmo, pois partiremos amanhã.