domingo, 18 de setembro de 2016

Enquanto Você Dorme

Para começar, devo admitir que fora perturbador o jeito que tudo ocorreu. Sei que desejava obstinadamente um teto sobre o qual pudesse repousar - um que realmente fosse meu -, mas desejei que meu nome não estivesse naquele testamento quando descobri, em meio aos pertences encaixotados no lúgubre quarto onde tio Carlos passava suas noites, as causas hediondas do óbito - ao menos, segundo seus horripilantes relatos. Não cabe a mim julgar a veracidade de tudo que li no póstumo manuscrito, haja vista seu caráter ensandecido, mas o semblante horrorizado e contorcido que meu tio ostentava ao ser encontrado, já em putrefação no seu leito profanado, muito contradizia o parecer do legista, que estipulava veementemente infarto como causa mortis. O irredutível perito mostrava-se um tanto tergiversante quando questionado sobre como um homem com aquele invejável condicionamento físico poderia ter sido vítima de tão súbita catástrofe em seu miocárdio. Pessoalmente, creio que ele estivesse tão confuso quanto eu, mas qualquer explicação científica em jargão médico certamente já seria mais plausível do que aquela coletânea de repulsivos rabiscos no maltrapilho diário em couro e insânia.

Mostrei-me muitíssimo relutante ao que tange a escrita destas linhas, mas, diante da minha atual situação - a qual explanarei após concluir o presente elucidário -, precisei deixar de lado a vergonha e o orgulho para não correr o risco de ter o mesmo destino obscuro de meu predecessor. O ceticismo de qualquer possível leitor dessa missiva é perfeitamente compreensível - ora, sei disso mais do que qualquer um, pois tive a mesmíssima reação ao folhear as derradeiras páginas de meu tio. Não obstante, despejo a diante todos os dados que possuo, a fim de alertar todo aquele que na mesma situação se encontre - ou tema se encontrar.

Segundo as trêmulas cursivas do finado, tudo começou na madrugada de 26 de setembro de 2015, num primaveril sábado. Ele havia chegado à casa extenuado após um penoso expediente na repartição onde trabalhava. Não fez nada além de tomar um apressurado banho antes de se deitar - a cama era demasiadamente convidativa naquelas circunstâncias.

Dormia muito tranquilamente, até que, por volta das 3 horas da manhã, acordou sentindo uma forte pressão contra sua perna direita. Tão logo se curvara para investigar seu membro, o tormento cessou, da mesma maneira inopina que havia tido início. O eco do acontecimento ainda reverberava doloroso por seu corpo quando acendera a lâmpada do abajur no criado-mudo a fim de vislumbrar a origem do infortúnio. O que viu lhe deixou perplexo: uma nódoa funesta com a forma da palma de uma mão tisnara sua derme. Um tênue, porém pungente, odor de enxofre emanava da sinistra mácula, que se estendia para a beira da cama num rastro perverso até um profano círculo oval em baixo-relevo, que, segundo tio Carlos, transmitia a sensação de que alguém sentara ali recentemente.

O horror foi total. Ele, mesmo sendo um sujeito centrado, saltou da cama e correu ao encontro do interruptor; precisava de luz plena para averiguar se o que presenciara era real - e era. Transtornado e tomado pela repulsa, despiu-se de sua camisa para tentar com ela remover a parasitária impureza de sua perna. Obteve inicial sucesso, mas não tardou a constatar que somente água e sabão, aliados à uma vigorosa escovada, poderiam dar cabo do demoníaco estigma. Só quando começou a caminhar em direção ao banheiro - que ficava a um corredor dali -, deu-se conta de que a misteriosa entidade que sentara a seus pés ainda poderia estar presente em sua residência. Meu tio era daquele tipo de pessoa que estando acompanhado gabava-se de seu ímpeto destemido, mas quando sozinho e confrontado por algo além de sua compreensão racional, era capaz de abandonar momentaneamente seu ateísmo para persignar e rezar o terço. Voltou aflito ao quarto, abriu prontamente a gaveta do criado-mudo e sacou seu revólver calibre 38.

A nódoa transformava-se em um viscoso líquido preto conforme era lavada, escorrendo pelo ralo e causando um inexprimível asco em meu angustiado tio. Após terminar, sentou no porcelanato gélido e levou as mãos à cabeça em desalento; tentava encontrar alguma lógica na cadeia de eventos que lhe sucedera. A casa estava muito bem trancada, cada porta e janela. O alarme estava ligado e em bom estado - uma inspeção recente comprovara isso. A ideia de alguém ter invadido para dar-lhe um susto enquanto dormia era de sobremaneira inconcebível - a única hipótese ainda em pauta era uma invasão anterior à sua chegada. Furioso, levantou num sobressalto e rugiu ameaças a qualquer um que pudesse estar se escondendo - não obteve resposta. Vociferou, deixando claro que não responderia por seus atos caso o suposto invasor permanecesse oculto - não obteve resposta. Com o cano frio da arma ameaçadoramente apontado para o alto, saiu pela casa à procura do dito-cujo. Vasculhou cada canto, perturbou a quietude de cada quinquilharia e bradou soturno para o nada. Não achou qualquer escarnecedor críptico, nem indícios que dessem um toque lógico à blasfema moléstia. Dadas as circunstâncias, continuar dormindo era impossível; puxou uma cadeira para próximo da cama e decidiu passar o resto da noite acordado, encarando o profano círculo oval sobre o colchão. Calibre 38 numa mão, exemplar do Novo Testamento noutra.

O sol despontava ao horizonte quando meu tio se deu conta de que sua situação tomara um rumo ainda mais perturbador. Os inocentes raios de luz que entravam pela janela tornaram-se responsáveis por sua segunda onda de pânico, após revelarem ao insone que não só estava coberto de lama e dejetos, como também sua vigiada nódoa desaparecera. Ele não possuía qualquer recordação de ter levantado daquela cadeira, quanto menos de ter se atirado em alguma fossa. O odor excruciantemente nauseante provindo da imundície que o cobria, aliado ao terror inominável de perceber que em sua perna a marca da diabólica mão novamente se encontrava, assolou seu equilíbrio mental já agredido. Os registros descabidos escritos àquela manhã ficaram envoltos num ar de paranoia tão expesso que não ouso tentar reproduzir aqui tamanha sandice belzebútica. A única constatação indubitável extraída daquele emaranhado desconexo era que ali residia o princípio de sua ruína.

O próximo relato são foi concebido vários dias depois - na terça-feira à tarde -, após intervenção de conhecidos. A vizinha de meu tio - e agora minha -, uma senhora de idade avançada, havia se assustado com a torrente de blasfêmias e obscenidades que o desvairado homem proferira pelo resto do sábado. Tio Carlos era uma pessoa de comportamento comedido e moralista, então seu gesto sórdido muito surpreendeu a vetusta mulher, que, espavorida, telefonou para seu genro - um policial militar. Chegando à casa, o homem da lei a encontrou com portas e janelas escancaradas. Por todo o lugar haviam inscrições em tinta vermelha; símbolos heréticos e inefáveis que remetiam às mais torpes e detestáveis hostes abissais. Meu tio foi encontrado nu em sua cama, gargalhando e cantarolando infâmias. Seu olhar estava vazio, seu corpo pálido e trêmulo. Um acentuado odor de enxofre tomava conta do quarto, agravando o sentimento de aversão no policial, que por pouco não desfaleceu ao presenciar aquele circo nefasto. E foi assim que, diante de uma situação que em muito se desviava do seu campo de atuação, deliberou convocar o vigário.

Chegando ao local, em azáfama, padre Jeremias logo constatou a presença de um espírito opressivo. Tal entidade não estava possuindo tio Carlos, mas sim o cercando. Seu conhecimento dizia que um poderoso demônio obsessivo ali se encontrava; um que dotava aptidão para perseguir livremente suas vítimas, atacando-as durante a noite, no momento em que estão mais vulneráveis. Tendo autorização para tal, optou por realizar um exorcismo.

Com tudo pronto, o padre começou a vozear fervorosamente palavras em latim, que ordenavam a saída do espírito imundo. Meu moribundo tio permaneceu inerte em seu lugar, não demonstrando qualquer reação perante o inflamado discurso. Aspergindo água benta, o cura impôs a destra sobre a cabeça dele e reiniciou o rito. Quando o líquido sagrado verteu por sobre onde a marca da mão antes estava, o afligido uivou em agonia. Uma fumaça negra se elevou desde sua perna, emanando um sufocante cheiro de carne putrefata. Nisso, a nódoa no colchão subitamente reapareceu, revelando a fonte primordial do miasma pernicioso. Sem perder tempo, o padre, fitando a marca, proferiu um veemente e derradeiro comando, tendo em seguida derramado água benta nela. A mesma fumaça começou a surgir novamente, porém muito mais intensa, consumindo toda a camada de blasfêmia. Os vapores que se ergueram então se aglomeraram no ar, formando um vulto humanoide de cabal malevolência. O policial, horrorizado, sacou sua arma e prontamente atirou contra a nuvem de gases daníficos. As balas atravessaram o ar negro, sem causar qualquer efeito. O vulto então condensou gradualmente até que, após alguns tortuosos momentos, transformou-se numa massa mórbida de carne cinza. No instante que isso aconteceu, meu tio desmaiou.

A criatura diante deles possuía cerca de dois metros de altura, era careca e não tinha olhos ou nariz - em suas órbitas, somente escuridão aterradora. Seu corpo era grotescamente deformado e suas mãos ostentavam garras afiadas o suficiente para retalhar a carne humana, sem qualquer esforço. Sua mera presença arrefecia o ambiente, causando tremores no clérigo e no policial - este último que, em desespero, disparara sem sucesso diversas vezes contra o ser, tendo somente cessado a saraivada quando a munição se esgotou; as balas abriam buracos, que logo se fechavam. Lutando para que seu corpo obedecesse os desígnios de sua mente, o padre então tomou o crucifixo que carregava e ululou com todo fôlego que dispunha, ordenando em nome de seu patrono que a demoníaca besta dali se retirasse. A criatura mugiu em desconforto e partiu cambaleante para cima do sacerdote, que, sem titubear, prosseguiu com seu clamor. Bolhas efervescentes começaram a emergir da pele da criatura, fazendo-a se contorcer em agonia e cair ao chão, desaparecendo em seguida numa poça lúgubre de miasma plúmbeo.

Depois daquele episódio, tudo que aconteceu foi relatado ao meu tio, que assim pode manuscrever. Sua consciência e sanidade retornaram e seu perseguidor preternatural desapareceu. Retornou ao trabalho normalmente e seguiu sua vida, esforçando-se para superar os eventos traumatizantes. Os detalhes da aparição demoníaca foram mantidos em segredo, num irrevogável acordo feito entre os três homens - de qualquer maneira, dificilmente alguém que não estivera ali acreditaria na história. Tudo parecia perfeitamente normal até que… Tio Carlos veio à óbito. Não só ele, como também o padre e o policial; todos vítimas do mesmo mal cardiovascular. Após o relato do exorcismo, pouco foi escrito no diário. As anotações que procederam àquela foram todas irrelevantes, exceto a última. Nessa excetuada e enigmática mensagem, que medonhamente fora escrita em latim - meu tio não tinha proficiência em nenhum idioma além do português -, os seguintes dizeres eram encontrados (já tendo eu traduzido):

A noite cai, ele levanta.
Ele quer carne, quer sangue.
Espreita o sono, ceifa o insone.
Nunca descansa. Irrefreável.
Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

Tenho por certo que o exorcismo não sucedeu corretamente. Aceitei essa casa em meu ceticismo, mas hoje sofro as consequências. Acordei esta noite, precisamente às 3 horas da manhã, e creio ter presenciado a criatura à beira de minha cama. Não senti pressão contra minha perna, nem notei nódoas, mas de certo a entidade demoníaca que corroera a centelha vital de meu tio está aqui, em meu derredor. Uma vez que ela apareceu, temo que seja questão de tempo até a trágica morte que, arbitrariamente, me aguarda. A despeito de tudo isso, pelo menos tive a oportunidade de alertar a todos - e isso, sem dúvida, alivia este sentimento de impotência que me atormenta.